Grandes grupos boicotaram leilão, diz dono de locadora que venderá arroz ao governo

 Grandes grupos boicotaram leilão, diz dono de locadora que venderá arroz ao governo

(Por Raphael Salomão e Rafael Walendorff, Valor) Grandes grupos do agronegócio ligados ao setor de arroz “boicotaram” o leilão de importação do cereal realizado pelo governo na quinta-feira (6/6). É o que explicaria a participação de grupos menos conhecido no mercado e os lotes que não foram arrematados, na visão de Crispiniano Espíndola Wanderley, dono da ARS Locadora de Veículos e Máquinas Pesadas, que participou do pregão.

“Ficaram alguns lotes vazios. Entendo que os representantes do agro brasileiro boicotaram esse leilão”, disse ele. “Os grandes grupos produtores de grãos deveriam estar participando”, acrescenta, elogiando a decisão do governo que, avalia busca “acabar com a especulação no preço do arroz, procurando acalmar o mercado”.

O resultado do leilão tem sido alvo de questionamentos de analistas de mercado e de parlamentares da oposição. Na sexta-feira (6/6), deputados do Rio Grande do Sul pediram para o Tribunal de Contas da União (TCU) avaliar a operação, alegando suspeitas de irregularidades. Segundo eles, haveria suspeita de direcionamento e o uso de “artifícios” para diminuir a competição entre os participantes.

No fim de semana, o deputado Luciano Zucco (PL-RS), anunciou a coleta de assinaturas para pedir a instalação de uma CPI na Câmara para investigar o assunto.

Um ex-assessor do Secretário de Política Agrícola, Neri Geller, foi o intermediário da maior parte dos volumes a serem adquiridos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Robson Luiz de Almeida França é dono da Foco Corretora e presidente da Bolsa de Mercadorias de Mato Grosso (BMT). Todos negam qualquer tipo de direcionamento ou favorecimento aos concorrentes.

Para Crispiniano Wanderley, o resultado foi fruto da falta de concorrência, o que, inclusive, levará o governo a fazer outro leilão dos lotes que não foram arrematados. “Houve um boicote de grandes empresários. Nós, pequenos, tivermos a oportunidade. Eu sou iniciante, sou pequeno. Vi essa oportunidade, participei. Nem imaginava que fosse ganhar. Para mim, ficou claro que houve um boicote com o intuito de aumentar o preço do arroz”, afirmou.

A ARS Locadora arrematou dois lotes. O lote 4, de 18 mil toneladas saiu pelo preço de abertura, de R$ 5 o quilo. O lote 17, de 4,5 mil toneladas também foi arrematado pelo preço de abertura. As duas negociações tiveram como intermediárias a Foco Corretora e a BMT. “Foi uma escolha nossa (fazer a operação com a BMT)”, afirmou Wanderley.

O empresário explicou que já está providenciando o cadastro da empresa no sistema Radar (Registro de Atuação dos Intervenientes Aduaneiros da Receita Federal) e o depósito das garantias. O valor é equivalente a 5% do total de cada um dos lotes. No caso do lote 4, a garantia é de R$ 4,5 milhões. No 17, o valor é de R$ 1,12 milhão. Os montantes devem ser depositados até o dia 14 de junho. Se o prazo não for cumprido, o edital prevê multa de 10% do valor da operação e cancelamento da compra.

Importação

Enquanto lida com os trâmites burocráticos, o empresário explica que a locadora está prospectando de onde vai originar o arroz a ser vendido para o governo. Países do Mercosul, além de Tailândia e Vietnã estão entre os possíveis fornecedores. Recentemente, o governo zerou a Tarifa Externa Comum (TEC) para o cereal de origens de fora do bloco sul-americano, o que pode favorecer a compra do produto asiático.

Nas contas do empresário, o arroz deve chegar aos portos brasileiros a um valor de US$ 800 por tonelada. Levando em conta o fechamento do dólar comercial da sexta-feira (6/6), de R$ 5,32, o valor em moeda brasileira seria de R$ 4,25 o quilo. A ARS ainda terá que recolher o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e arcar com custos logísticos para o transporte do terminal portuário para os armazéns da Conab.

“As margens são pequenas. O lucro é pequeno, mas ganhamos no volume. Optamos por locais onde possui porto, facilitando a logística”, explica o empresário, acrescentando que a retirada eo transporte do arroz será feito por transportadores terceirizados.

Os volumes que a ASR venderá para a Conab chegará pelos portos de Fortaleza (CE) e Belém (PA), segundo Wanderley. As distâncias para os pontos de entrega são de 30 quilômetros e de 70 quilômetros, respectivamente. “Com isso, o custo de logística fica mais barato. Portanto, ficamos só com esses dois lotes”, diz ele.

Em dezembro de 2023, a ARS foi vencedora de outro leilão da Conab, também intermediado pela Bolsa de Mercadorias de Mato Grosso (BMT), para a compra de 12,7 mil toneladas de milho no valor de quase R$ 20 milhões. O cereal foi entregue na Bahia para abastecer pequenos pecuaristas.

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