Passado e futuro da tecnologia nas lavouras de arroz

 Passado e futuro da tecnologia nas lavouras de arroz

 É impossível dissociar o avanço das tecnologias da lavoura de arroz, uma das atividades que mais utiliza o conhecimento e técnicas avançadas para solucionar os muitos entraves do cultivo em áreas úmidas no mundo. Gradativamente a lavoura de terras baixas vem evoluindo no sentido e otimizar seu manejo, o material genético utilizado, os equipamentos, as melhores práticas ambientais e a busca de maior eficiência e de um produto final de qualidade. Nas últimas temporadas, um dos grandes desafios tem sido inserir a soja, o milho e a pecuária nas terras baixas de forma mais competitiva, passando de uma monocultura para um sistema de produção complexo, mas com ganhos evidentes do ponto de vista agronômico até o econômico e ambiental.

Se formos avaliar algumas tecnologias, mais focadas em equipamentos, que ajudaram a alavancar estes avanços, podemos voltar a um cenário, há 20 anos, ainda tínhamos irrigação construída com base no uso do nível óptico (topográfico), antigo, com tripé, e pessoas “batendo régua” nas lavouras para marcar as taipas, um processo praticamente manual. A primeira grande transformação no final dos anos 90 e início dos anos 2000, em termos tecnológicos e de velocidade do trabalho, foi o surgimento da, então, nova tecnologia de nivelamento a laser. Ao se equipar um trator para fazer a marcação das taipas, o processo foi mecanizado e automatizado, tornou-se mais eficiente e, considerando que tradicionalmente o período reservado para o preparo de solo e plantio era curto e sob clima instável, mais ágil.

Ainda que esta tecnologia fosse considerada cara, muitos produtores compraram a ideia. O nível laser também foi relevante porque deu suporte para a lavoura passar do preparo convencional ao uso de taipas de base larga, que permitiu o plantio em linha sobre a taipa. Isso reduziu o revolvimento do solo e facilitou o preparo e o aproveitamento do espaço. Ou seja, a evolução tecnológica em um implemento agrícola gerou uma grande transformação na lavoura.

Seguindo uma linha cronológica, em meio a cerca de um século com a produção de arroz irrigado por inundação, jamais se esperava fazer uso de sistemas de aspersão para estas lavouras, via adoção de pivot central. Produtores da Fronteira Oeste começaram a utilizar essa tecnologia do zero, pois não havia tecnologia consolidada sobre o tema. Como semear, qual cultivar, qual manejo, irrigar quanto e quando? Mas, conhecendo suas realidades, perceberam uma possibilidade de otimizar seu manejo e seus custos, talvez por utilizar menos água, pela declividade das áreas, por necessidade de integração com outras culturas. O fato é que os resultados são promissores, mas ainda é uma tecnologia que tem algumas perguntas que precisam de respostas e pesquisas mais detalhadas, mas tende a evoluir no sistema de integração com pecuária e rotação com soja.

Outro sistema que trouxe vantagens importantes à agricultura foi o Sistema de Posicionamento Global (GPS), que facilitou muito a elaboração precisa de um mapa da lavoura, do trabalho com georreferenciamento da propriedade, por talhão, o que foi importante para a organização e planejamento das ações, bem como para questões ambientais e legais. Associado à essa tecnologia, em seguida passou a aparecer um navegador para, via GPS, aplicação de herbicida, com uso de trator e barra de luz. Mais tarde, foi a vez de associar GPS e trator com piloto automático, evitando perdas de produto, tempo e combustível e transpasse nas linhas. Então, evoluímos para a viabilização, em parte, do que é a agricultura de precisão, estabelecendo mapas de solo, fertilidade, produtividade, etc… Associado às colheitadeiras, o GPS reduziu os custos de colheita e ampliou a eficiência, evitando queima de linha, com equipamentos que permitem um melhor dimensionamento da colheita. Aliás, tratores e colheitadeiras, nestes 20 anos evoluíram muito do ponto de vista mecânico, eletrônico e de sensores, e também de conforto para o operador, economia, estatísticas de suas funções, consumo, percursos.

 

A nova fase tecnológica da lavoura está num aproveitamento mais efetivo de aviões, drones e veículos aéreos não tripulados (VANTs). É um sistema relativamente novo para a lavoura de arroz, mas que muita gente já usa há mais tempo em outras culturas. Ainda assim, é um processo em formatação. Outro aporte científico importante é o uso de imagens de satélite, que já nos permite mensurar melhor as informações sobre as culturas e suas fases e superfícies, favorece na identificação de anormalidades na parte visual da lavoura, manchas, diferenças na irrigação, etc… Este é um campo de pesquisa com muito espaço para crescer, inclusive em se tratando do uso de imagens de drones e Vants com diferentes sensores.

Nesta linha de sensores e imagens, tenho trabalhado com um foco mais direcionado à coleta de informações para a pesquisa, na parte agronômica, mas ainda estamos vivendo sob uma pressão comercial muito grande. Há empresas oferecendo pacotes de imagens ou produtos associados, mas é uma tecnologia que precisa remunerar este investimento e ele precisa ter real necessidade e aplicabilidade no campo. Não pode ser complexo a ponto de não chegar ao agricultor com a facilidade necessária para a leitura e a adoção de uma prática na lavoura que seja reativa e eficiente, ao diagnóstico da imagem. É preciso que seja um sistema simples, de preferência de valor acessível, e que qualquer agricultor ou operador possa interpretar as informações e aplicar no campo.

Há muitos sistemas rodando, que vão levar alguns anos para se adaptar à realidade financeira e da propriedade agrícola. A margem do arroz costuma ser muito apertada, então não dá para investir sem que seja algo que dê retorno claro e efetivo para o bolso. É como a lavoura vai se manter viva. A aplicabilidade e o retorno da tecnologia são fundamentais para sua adoção.

Uma área que vai evoluir muito e rápido na cultura do arroz e nas culturas a ela associadas, é a da aviação com drones. Quando um destes instrumentos for programado para aplicar herbicidas, por exemplo, ou sobrevoar uma determinada área, ele já poderá automaticamente capturar as imagens no plano de voo, que é previamente definido, e processá-las conforme o interesse de técnicos ou produtores. Quando aterrissar, as informações estarão armazenadas em um chip, com o mapa da área, o que permitirá uma rápida tomada de decisão. Os dados, por exemplo, podem ser transferidos para um trator que irá realizar uma aplicação ou outra forma de tratamento.

A parte relativa às imagens e informações de satélites também devem evoluir muito rapidamente. Atualmente temos uma empresa lançando um número expressivo de satélites sobre a órbita da terra, que são mais voltados à rede mundial de informações, mas alguns deles já fazem imagens de áreas, que paulatinamente poderão ser adquiridas. Em poucos anos, esperamos, isso deve ter um custo bem menor ou até serem disponibilizadas gratuitamente. De qualquer maneira, produtores e técnicos devem ficar atentos às tecnologias disponíveis, pois elas são capazes de otimizar o manejo, a estrutura de lavoura, o tempo empregado, reduzir custos, ampliar margens de ganhos e recuperarem, com sobras, os investimentos. Desde que usadas com o devido conhecimento e a eficiência necessária, são ferramentas de sustentabilidade de um agricultura que se moderniza todos os dias e cuja necessidade de aperfeiçoamento e evolução é constante.

 

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