Semana curta deve manter mercado retraído

 Semana curta deve manter mercado retraído

Feriadão segura comercialização do arroz ao longo da cadeia produtiva (Foto: Robispierre Giuliani/Planeta Arroz)

(Por Cleiton Evandro dos Santos, AgroDados/Planeta Arroz) Após marcar uma recuperação pouco inferior a 2% em agosto, os preços do arroz em casca no mercado brasileiro iniciaram na primeira “meia semana” de setembro mais fracos e com tendência de se manterem assim ao longo desta nova “semana curta” provocada pelo feriado de 7 de setembro. Algumas empresas e corretoras aproveitaram o feriado da terça-feira para emendar um feriadão, considerando que o mercado tem se mostrado enfraquecido em termos de volume de negócios.

Somente no início da tarde desta quarta-feira, dia 8, houve um pouco mais de movimento no campo das sondagens, mas a identificação de vários pontos de bloqueio em rodovias promovida por caminhoneiros no Sul do Brasil arrefeceu os ânimos e deve dar a semana como praticamente nula para negócios. Nota-se que boa parte do varejo – e das indústrias – avançou ao mercado entre os dias 20 e 25 de agosto para aquele tradicional ajuste em relação a planejamento de giro do mês e da época de “rancho”, e depois recuou.

Desde então a ausência de compradores mais ativos tem sido rotina no Sul do Brasil. Ao mesmo tempo, os produtores “sentaram” sobre os estoques e estão mais preocupados com a formação da próxima lavoura do que em comercializar o grão remanescente.

Assim, as cotações médias são mais referenciais e estabelecidas pela ausência de interesse de venda, do que propriamente baseadas em negócios efetivamente realizados. Na Fronteira Oeste a referência é de R$ 77,00, mas a empresa que quiser realmente comprar volume terá que pagar de R$ 78,00 a R$ 79,00. Já em Pelotas, a referência é pouco superior a R$ 78,00, mas negócios mais relevantes só a partir dos R$ 80,00. A Campanha e a Depressão Central seguem com cotações inferiores, negociando entre R$ 75,50 e R$ 77,00.

Segundo o Cepea, a dificuldade de carregamento do arroz em casca, devido às chuvas e à paralisação de caminhoneiros em partes do Rio Grande do Sul, trouxe lentidão às negociações nesta quarta-feira, 8. Por esse motivo, algumas beneficiadoras decidiram se ausentar das compras da matéria-prima na modalidade “a retirar”. Além das recentes desvalorizações do produto em fardos, uma parte das indústrias apontou novos reajustes negativos nos preços do arroz em casca. Assim, o Indicador ESALQ/SENAR-RS, 58% grãos inteiros, com pagamento à vista, fechou a R$ 75,23/sc de 50 kg, baixa de 0,90% em relação ao fechamento anterior – este é o sexto dia de quedas consecutivas. No acumulado destes seis dias úteis de setembro, os valores praticamente devolveram a alta registrada em agosto, ao decaírem 1,53% nas referências. Na equivalência em dólar, a saca de arroz ficou cotada a US$ 14,16, perdendo 51 centavos de dólar nesta quarta-feira, mas em relação muito atrelada à nova desvalorização do real causada pela reação dos mercados econômicos aos atos e elevação da tensão política a partir do 7 de setembro, que passou a gerar apreensão de contaminação da economia.

A expectativa, portanto, é de que negócios, mesmo, em volume expressivo, só sejam retomados a partir do dia 14 de setembro, terça-feira da semana que vem, quando baixar a poeira dos protestos de caminhoneiros, passar a semana “curta” e o varejo precisar se abastecer e fazer girar as engrenagens para as pequenas e médias empresas buscarem matéria-prima.

Ao mesmo tempo, com a ponta vendendo pouco, nota-se que o varejo e a indústria estão apostando também num recuo de preços em direção a outubro. As razões são evidentes. O Brasil não está exportando volumes significativos de grãos inteiros – o superávit anual não chega a 100 mil toneladas; os financiamentos de comercialização começam a vencer, os produtores precisarão comprar insumos e de serviços de revisão de máquinas para iniciar a semeadura e tudo isso pode forçar o giro. Além disso, o Rio Grande do Sul está carregando um estoque muito alto para a época, segundo analistas e o cálculo baseado em informações oficiais.

Mesmo que nos próximos dias o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) anuncie uma retração na intenção de plantio, a Conab vem trabalhando com avanço produtivo e de estoques na safra 2021/22.

No mercado internacional o Brasil segue como demandante e com baixa capacidade competitiva, em especial no caso do arroz em casca. O valor do frete para o arroz branco também é um impeditivo, em especial dos contêineres. Chegamos ao ponto em que Europa e Estados Unidos estão se queixando de uma alta que alcançou 719% para contêineres da Ásia e o preço do transporte já supera o do produto. E, segundo os especialistas e as empresas do ramo, até o final do primeiro semestre de 2023, ou seja, daqui a dois anos, não há previsão de que este “nó” no transporte naval se resolva.

No Porto, referência de R$ 72,00 a R$ 73,00, mas para competir lá fora o  produto precisaria encostar ao lado do navio a R$ 71,00 ou R$ 72,00. O último navio de arroz em casca embarcado no Brasil teve preço médio de R$ 72,00 no porto e já tem quase três meses desde o fechamento do contrato. O câmbio, os preços sinalizando queda nos EUA, a forte competição dos países do Mercosul ajudam a criar um cenário de mínimas chances do Brasil voltar como fornecedor mais importante ao mercado externo não apenas neste momento, mas nos próximos meses a permanecer este panorama.

No momento, a única luz no fim do túnel para o mercado externo é a cogitação, por parte dos agentes de negócios e da cadeia produtiva norte-americana, de que os Estados Unidos poderão ter um recuo de  até 20% na safra que está sendo colhida.

A redução de área era prevista em 11%, com 15% de perdas produtivas por causa do clima adverso, mas a colheita sob chuva e muitos relatos de problemas de controle de inços, impurezas e falso-carvão, picados e manchados na entrada do grão na indústria, vêm dando sustentação à uma expectativa de que não só o volume estadunidense seja menor, como também seja de qualidade inferior ao desejado. Isso, portanto, poderia elevar preços entre dezembro, janeiro e fevereiro no comércio regional e levar o Brasil para o “jogo” novamente, em especial se o câmbio for mais favorável e se os preços internos caírem ao patamar dos R$ 70,00 a R$ 72,00,  um cenário ainda de pouquíssima probabilidade de se concretizar.

Ainda que subam os preços do arroz norte-americano, o fato é que o Brasil já perdeu perto de 80% da demanda, em especial do México, Nicarágua, Costa Rica, Cuba e Venezuela. A possibilidade de novos embarques de arroz em casca para o exterior para o restante do ano se resume a dois ou três barcos, segundo os traders, pois não há demanda até dezembro em função do menor custo de frete dos EUA e da oferta a valores competitivos. Excluindo quebrados, que não fazem diferença no volume de arroz em grão (beneficiado ou em casca) nos estoques brasileiros, as chances do país confirmar 1,1 milhão de toneladas de arroz exportados são remotas. E os EUA, neste momento, têm preço e têm produto.

Esse fator é considerado negativo para o preço de comercialização da próxima safra de arroz. Se chegar dezembro com os Estados Unidos “bem vendido e mal colhido”, a demanda poderá ser mais forte no RS. Mas, ao longo de 2020, perdemos o “bonde” porque em nenhum momento o Brasil foi competitivo.

PRESSÃO

Diante destes aspectos citados, e em função do carregamento de um estoque substancial da safra 2020/21, e também da aproximação dos vencimentos dos financiamentos de comercialização, os preços do arroz tendem a se manter bastante pressionados em setembro e outubro, com o mercado sendo permanentemente testando para baixo. O Real brasileiro segue sendo a segunda moeda que mais desvalorizou entre as economias emergentes, frente ao dólar, e cotado entre R$ 5,15 e R$ 5,25, tenderá a manter o Mercosul mais competitivo.

Os economistas consideram que o ponto de equilíbrio cambial ficaria em torno de R$ 4,80 = US$ 1,00, mas para fins de comercialização isso tornaria o Brasil ainda mais atrativo para o grão Argentino, Uruguaio e, principalmente, Paraguaio. Não se espera, neste cenário, dólar acima de R$ 5,40 novamente. A moeda norte-americana testou um patamar acima de 5,40, mas não andou, veio parar R$ 5,18 e segue uma tendência mais forte de queda, não de alta.

MERCOSUL

No Mercosul, o plantio já começou no Paraguai, na região do Rio Tebicuary, e há plantas com duas semanas de emergência e com o início da irrigação. Apesar da estiagem que afetou muito a região, os primeiros momentos de entrada de água estão usando os reservórios e não, necessariamente a água dos rios. Algumas áreas precisaram ser banhadas. A estimativa é de que o Paraguai retome o crescimento de área, confiando numa expectativa de evolução das chuvas para os próximos meses, segundo institutos meteorológicos do país vizinho.

A expectativa é de que os agricultores guaranis semeiem 175 mil hectares e colham perto de 1,15 milhão de toneladas. Na temporada passada os paraguaios reduziram 15 mil hectares de área semeada, e alongaram o ciclo de safra, com algumas lavouras mais próximas aos rios Paraguai e Paraná sendo cultivadas até janeiro, quando o comum é entre setembro e outubro. A média é de 6,7 mil quilos por hectare, mas poderá ser maior nesta temporada. No ciclo passado, o aumento de área e a ótima colheita da Argentina e do Uruguai mais do que compensaram a redução dos paraguaios.

As cotações gaúchas – e do restante do país, portanto seguem alcançando suporte por causa da baixa oferta do produtor, e menos por fatores diferenciados como o aumento do consumo, que seria muito desejável.

SAFRA

A Conab divulgou na última semana as suas “perspectivas para a safra 2021/2022”, e para o arroz, a expectativa é de um pequeno aumento de produção (+0,4%), com projeção aproximada de 11,8 milhões de t. Entretanto, as entidades setoriais gaúchas estão apostando que em função do custo de produção, da dimensão do estoque de passagem, do clima adverso com várias barrgens abaixo das médias históricas e expectativa de pouca chuva, além dos bons preços da soja, a área do grão não deverá crescer. Pelo contrário, projeta retração e uma superfície semeada bem inferior aos 950 mil hectares. Projetam, porém, um aumento de 365 mil para  400 mil hectares de soja em terras baixas, pelo menos. O Irga deverá divulgar a intenção de plantio, que já está sendo pesquisada, até o final de setembro.

PREÇO AO CONSUMIDOR

Setembro entrou derrubando preços ao consumidor em todo o Brasil. Nas capitais pesquisadas por Planeta Arroz, as médias caíram entre R$ 0,50 e R$ 1,20 para o pacote de cinco quilos, branco, Tipo 1, e as mínimas registradas são inferiores a R$ 15,00. Tornou-se normal encontrar fardos negociados a R$ 96,00 e R$ 98,00, final no Rio de Janeiro, por indústrias gaúchas e catarinenses, demonstrando pressa e necessidade de fazer caixa, algum resquício de arroz indiano, vietnamita, tailandês e norte-americano pra ser negociado, e a tentativa de seduzir, novamente, o consumidor ao consumo. No entanto, é fato que a redução dos preços no varejo ocorre em cascata. E isso, embora seja interessante para o consumidor, para o restante da cadeia produtiva é sinal de aperto das margens.

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