Soja: preços históricos, mas anormais

 A formação do preço da soja no Brasil sofre influência decisiva de três principais elementos: cotações na Bolsa de Chicago; câmbio praticado no Brasil; e prêmio pago nos portos de embarque da oleaginosa no Brasil. Quanto à Chicago, no início do mês de novembro de 2020 a cotação da soja, para o primeiro mês cotado, atingiu os US$ 11,00/bushel. Uma cotação que não era vista desde o fim de 2014, ou seja, há praticamente seis anos. O aumento é de 13,9% em relação ao praticado um ano antes. Quanto ao câmbio, o Brasil assistiu a uma desvalorização do Real ao redor de 40% entre o início do ano e este início de novembro, com a moeda nacional sendo a que mais se desvalorizou no mundo perante o dólar estadunidense. Ora, quanto mais desvalorizada a moeda nacional, maior os preços em reais para os produtos de exportação. Enfim, diante da demanda crescente de soja por parte da China, nossos prêmios nos portos de embarque voltaram a ultrapassar os US$ 2,00/bushel, chegando mesmo próximos a US$ 3,00 em alguns momentos do segundo semestre, quando o normal, nesta época do ano, é de os mesmos oscilarem entre US$ 0,50 e US$ 1,00/bushel.

O resultado prático desse movimento se dá no aumento das exportações do produto. Assim, não havendo quase mais soja da última safra a comercializar, e a demanda interna e externa pela oleaginosa continuando firme neste fim de ano, os preços internos dispararam. O balcão gaúcho fechou a primeira semana de novembro com a média de R$ 160,12/saco (um ano antes esta média estava em R$ 76,96/saco, ou seja, em 12 meses o preço da soja, ao produtor gaúcho no balcão, subiu 108%). Proporcionalmente, este comportamento é visto nas demais praças nacionais.

A pandemia excepcional da covid-19 completou o quadro para que o mercado entrasse em um viés altista sem precedentes.

E o futuro? Em relação a ele, mesmo ninguém tendo “bola de cristal”, alguns alertas merecem aqui ser postos. Em considerando que o mundo consiga controlar a pandemia, a partir de uma vacina eficaz, o quadro geral dos preços tende a voltar a patamares mais racionais. Isso porque, em termos das cotações em Chicago, em condições normais de oferta e demanda, o patamar médio esperado para 2021 é de um valor ao redor de US$ 9,80/bushel (cf. USDA). As compras chinesas, embora continuando importantes, tendem a se direcionar mais para os EUA, após as eleições de Joe Biden à presidência daquele país. Isto pode trazer os prêmios em nossos portos para níveis igualmente normais, ao redor de US$ 0,75/bushel na média anual. E o câmbio no Brasil também deve sofrer mudanças, com uma revalorização do Real para níveis de R$ 5,00/dólar, não havendo espaço aqui para comentarmos os motivos. Em isso ocorrendo, a tendência do preço no balcão, na colheita gaúcha, pode ser algo em torno de R$ 100,00/saco. Bem abaixo do que se registra neste início de novembro, porém, ainda o melhor preço nominal que o estado viveu em sua história até junho de 2020.

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