“100% do arroz que importamos é gaúcho”
Eduardo Rojas Villalobos, presidente da Asociación Nacional de Industriales del Sector Arrocero (Aninsa)
Nos últimos 15 anos, o Brasil consolidou uma posição importante como um dos 10 maiores exportadores de arroz do mundo, ainda que permaneça entre os 10 maiores importadores, reflexo da política de abertura de mercados e da participação em bloco econômico (Mercado Comum do Sul – Mercosul). Um dos países que consolidou forte presença como cliente do arroz gaúcho foi a Costa Rica, referência na aquisição de arroz em casca pela estabilidade e liderança nas compras desse padrão de produto. Esse comportamento tem particularidades que vamos traduzir em entrevista com o presidente da Asociación Nacional de Industriales del Sector Arrocero (Aninsa) da Costa Rica, Eduardo Rojas Villalobos. A entidade reúne nove indústrias de alimentos do país.
Eduardo Rojas é um empresário do setor agroindustrial, de sementes e de beneficiamento de arroz, além de presidir a Aninsa. Ele fez parte do grupo de nove lideranças da associação que visitou o Rio Grande do Sul entre 6 e 13 de outubro para acompanhar o carregamento de um navio com arroz em casca destinado às empresas de sua entidade, conheceu sistemas de cultivo e manejo, armazenagem e industrialização do arroz na região Sul gaúcha. Entre as empresas visitadas estão a Granja 4 Irmãos, em Rio Grande, e a indústria Nelson Wendt Alimentos, em Pelotas. No percurso, concedeu esta entrevista a Cleiton Santos, editor da Planeta Arroz e um dos consultores locais da Aninsa.
Planeta Arroz – Qual é o papel do arroz na alimentação costarriquenha?
Eduardo Rojas – “O arroz é um alimento fundamental. Representa 21% da energia diária consumida pela população e 16% da proteína. É parte indispensável da dieta nacional e de nossa identidade alimentar. Mesmo com as mudanças de mercado, o consumo continua estável e elevado, o que demonstra a importância cultural e nutricional do arroz. O gallo pinto é o prato mais tradicional e emblemático da Costa Rica, uma verdadeira ex- pressão da identidade nacional, formado por arroz e feijão.”
“A Costa Rica vive momento de transição, com desafios produtivos e oportunidades para o setor do arroz.”
Planeta Arroz – Como está a produção de arroz nacional?
Eduardo Rojas – “Nos últimos anos, a produção local enfrenta forte retração. A área cultivada fica entre 15 e 25 mil hectares, dependendo do ano. A produção gira em torno de 100 mil toneladas, um pouco mais em anos bons. Isso se deve a vários fatores, entre eles o aumento dos custos, a falta de irrigação eficiente, as mudanças na política de preços e tarifas no país e a própria dificuldade, em alguns momentos, de compatibilizar preços e custos.”
“Encontramos qualidade e estabilidade de fornecimento.”
Planeta Arroz – Quais as características da estrutura produtiva do país?
Eduardo Rojas – ” O setor é heterogêneo. A maioria dos produtores trabalha em áreas pequenas, de 10 a 50 hectares, produtividade mais baixa. A minoria, de médios e grandes produtores, com melhor acesso à tecnologia e irrigação, alcança rendimentos mais altos. Hoje, 90% das zonas arrozeiras dependem das chuvas, o que nos torna vulneráveis às variações climáticas. A política agrícola também vem mudando e sendo aperfeiçoada para incentivar a produção e a importação, como formas de tornar o alimento mais acessível.”
Planeta Arroz – Qual é o consumo de arroz na Costa Rica?
Eduardo Rojas – “O consumo permanece alto e estável. Cada costarriquenho consome, em média, cerca de 68 quilos de arroz por ano, segundo as estatísticas. O país consome em torno de 350 a 400 mil toneladas anuais. O arroz é um produto principal em nossa cesta básica e representa cerca de 8% do custo médio da alimentação familiar. Por isso, apesar da queda na produção, a demanda interna continua firme.”
Planeta Arroz – A diferença entre consumo e produção é suprida por importações?
Eduardo Rojas – “Sim, com a abertura tarifária, o país passou a importar volumes cada vez maiores de arroz, tanto em casca, para beneficiamento local, quanto em grão polido. Os principais fornecedores são países da América do Sul, entre eles o Brasil, que tem aumentado sua participação. Há uma preferência crescente do consumidor por arroz de maior qualidade, especialmente as variedades conhecidas como ‘99% inteiras’, que correspondem ao tipo 1 e ao especial no Brasil.”
Planeta Arroz – E a Aninsa importa exclusivamente no Rio Grande do Sul?
Eduardo Rojas – “Sim. Tradicionalmente, recebíamos bastante arroz dos Estados Unidos da América, que pode até ter preços mais competitivos, mas não tem a qualidade do arroz produzido no Rio Grande do Sul. Encontramos aqui qualidade, estabilidade de fornecimento, alto grau de confiabilidade e estabelecemos uma parceria duradoura, que não nos dá problemas.”
Planeta Arroz – Houve problemas com fornecedores do Mercosul?
Eduardo Rojas – “Nem todos conseguem ter a mesma condição de logística, qualidade portuária, e, principalmente, estabilidade de fornecimento e qualidade de grãos que encontramos com os gaúchos. Outras experiências nos levaram a receber mistura de variedades e híbridos, atrasos por dificuldades de logística do país exportador ou, ainda, o fornecedor tentar mudar os preços do arroz já negociado. Hoje, preferimos até pagar um pouco mais, mas fidelizamos a aquisição de arroz gaúcho, em especial das variedades Irga 424 e BRS Pampeira. São grãos de qualidade, que atendem às necessidades da indústria e, também, têm a apreciação do consumidor.”
Planeta Arroz – O seu consumidor é muito exigente?
Eduardo Rojas – “Por ser um dos que mais consomem arroz nas Américas, podemos dizer que também se trata de um consumidor exigente, que não abre mão da qualidade. Ele percebe qualquer variação na composição do pacote. Isso exige da indústria uma padronização que só conseguimos estabelecer a partir do arroz brasileiro de alto padrão que recebemos.”
“Abrimos mercados com o arroz brasileiro.”
Planeta Arroz – E quais são os planos para o futuro dessa relação com o arroz gaúcho?
Eduardo Rojas – “Uma relação longeva de confiança e bons negócios e, quem sabe, até de ampliação desse mercado. Hoje, temos empresas da Costa Rica que já estão abrindo mercados em países vizinhos, tendo como base a matéria-prima brasileira. Se surgem oportunidades de negócios, sabemos que temos um fornecedor apto a nos dar o suporte necessário. Isso tranquiliza o investidor e consolida a relação de negócios. É bom para todos.”
Planeta Arroz – A Aninsa poderá importar arroz beneficiado?
Eduardo Rojas – “Nenhuma possibilidade de negócios se descarta. É questão de oportunidade.”
Planeta Arroz – Qual a avaliação dessa gira pela cadeia produtiva no Sul do Brasil?
Eduardo Rojas – “Ficamos impressionados com o grau tecnológico das propriedades e indústrias e muito satisfeitos com o que vimos. Também foi ótima a recepção pelas equipes da 4 Irmãos, Nelson Wendt, Expoente, Rice Brasil e TRC, AgroDados e outros parceiros que temos aqui. Só temos a agradecer e fortalecer essa parceria de sucesso.”
Planeta Arroz – Quais oportunidades o senhor enxerga para o futuro do arroz na Costa Rica?
Eduardo Rojas – “Apesar das dificuldades, há boas oportunidades. O consumo segue firme, e o mercado valoriza cada vez mais a qualidade. Isso abre espaço para produtos diferenciados, inclusive importados de alta qualidade, mas também para investimentos em tecnologia, mecanização e irrigação por parte dos produtores locais. O setor precisa se adaptar a uma nova realidade de mercado, mais competitiva, porém, também mais aberta à inovação. Temos importado muitos equipamentos e modernizado as indústrias.”
“Não descartamos nenhuma possibilidade de negócios, é questão de oportunidade.”
Planeta Arroz – Há perspectiva de crescimento para o mercado de arroz no país?
Eduardo Rojas – “Sim. Mesmo com a queda da produção, as projeções indicam crescimento do mercado em receita nos próximos anos — algo em torno de 4% a 5% ao ano até 2030. O arroz continuará sendo essencial na mesa dos costarriquenhos, e o desafio será equilibrar o abastecimento, garantir qualidade e oferecer condições sustentáveis para que o produtor nacional possa seguir ativo.”
Planeta Arroz – Como a Aninsa atua diante desse cenário?
Eduardo Rojas – Nosso papel é dialogar com o governo, apoiar os produtores e indústrias locais e buscar soluções que mantenham o setor competitivo. Defendemos políticas públicas que incentivem a produção e assegurem o abastecimento interno, sem prejudicar o consumidor, melhorem a estrutura de logística e transporte e reduzam a tributação. Acreditamos que a Costa Rica pode combinar produção nacional eficiente com importações complementares, garantindo qualidade e estabilidade no crescimento do mercado, mesmo em curto ou médio prazo.”
