Colheita em Candelária (RS) inicia sob os fantasmas da estiagem e do preço

A falta de água para irrigação e o preço médio de apenas R$ 23,00 para a saca de 50kg de arroz são os dois principais fantasmas que rondam as propriedades orizícolas de Candelária no início de colheita da safra 2004/2005.

A falta de água para irrigação e o preço médio de apenas R$ 23,00 para a saca de 50kg de arroz são os dois principais fantasmas que rondam as propriedades orizícolas de Candelária no início de colheita da safra 2004/2005. A diferença de ciclos e variedades impedem uma projeção sobre a quantidade de perdas. O certo é que elas existem e vão se agravar muito se não chover razoavelmente bem nos próximos dias.

Segundo estimativas do escritório de planejamento de lavouras Agrican, cerca de 50% dos 8 mil hectares do município estão na fase de emissão de panícula e floração, considerado um estágio vital para determinar a produtividade da lavoura. Sem água suficiente, os grãos deixam de se formar, ocasionando quebra na produção final. “Cada dia que passa sem chuva agrava mais a situação”, salienta o agrônomo Adalton Siqueira. Em cerca de 20 dias será possível dimensionar e quantificar as perdas.

Nas várzeas da Rebentona e da Linha Palmeira, as duas maiores regiões produtoras de Candelária, o panorama torna-se caótico à medida em que os rios Pardo e Botucaraí avançam. À certa altura, é possível atravessá-los sem molhar os pés. No “fundão” da Rebentona, o barro característico da lavoura pré-germinada foi substituída pela terra rachada.

Na Linha Palmeira, o agricultor Marcos Dunke está há 20 dias sem puxar água do rio Botuacaraí, tanto que a bomba está enterrada na lama do leito. Na última chuva forte, o Botucaraí esvaziou em 52 horas.

Dunke iniciou a colheita da variedade Irga 419, plantada em 4 de outubro, na semana passada. Essa lavoura representa 30% de seus 50 hectares e a produtividade média deverá ficar em 240 sacos por quadra. Ano passado foram 290. As demais lavouras, que estão na fase de “soltar o cacho”, ainda conservam resquícios de água.

Chovendo entre 70mm e 80mm, a previsão é colhê-las normalmente. Caso contrário, deverá amargar quebra de 20%. “Não posso me queixar. Em outras regiões, e mesmo nos vizinhos, a coisa está dramática”, sentenciou. Ele credita ao sistema pré-germinado e à irrigação adequada o desenvolvimento normal de suas lavouras. “Se fosse pelo sistema convencional, tava tudo torrado”, comentou o pai de Dunke. Dos 8 mil hectares de arroz plantados no município, de 1% a 3% foram colhidos até hoje.

PREÇO

A seca não é a única preocupação dos produtores de arroz nesse início de colheita. Depois de uma valorização do grão em 2003, quando chegou a ser comercializado a R$ 41,00, a remuneração do produto está abaixo do custo de produção. Nessa semana, a cotação média da saca de 50kg atingiu R$ 23,00, enquanto o custo para produzi-la gira em torno de R$ 30,00.

Os arrozeiros esperam pela liberação de mecanismos de comercialização da safra. O apoio é necessário para escoar um excedente de produção estimado entre 1 milhão e 1,3 milhão de toneladas. “Esperamos o lançamento de contratos de opção públicos para dar sutentabilidade ao mercado”, disse o presidente do Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz), Pery Coelho.

A cadeia produtiva aguarda um anúncio positivo por parte do governo federal durante a 15ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz, que será realizada em Dom Pedrito entre os dias 24 e 27. “O setor não pode correr o risco de perder renda e viver num eterno recomeço”, frisou Coelho, lembrando que no período entre 1999 e 2002 o cenário também era de preços achatados e perda rentabilidade. A importação de arroz dos países do Mercosul também será debatida em Dom Pedrito.

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