Arrozeiros gaúchos aguardam melhores preços e chuvas

Área semeada ainda não foi definida.

Além da preocupação com a escassez de recursos para investir na lavoura de arroz, paira sobre os campos gaúchos outra sombra que pode obscurecer a safra 2005/2006: a falta de água. Com o preço da saca (R$ 20) abaixo dos custos de produção, boa parte dos arrozeiros está descapitalizada e pode restringir as áreas cultivadas apenas aos campos de maior qualidade – onde a necessidade de fertilizantes é menor, e o retorno em produtividade, maior. Na safra 2004/05, a área cultivada foi de 1,04 milhão de hectares.

– O produtor vai otimizar a lavoura, usar os terrenos mais limpos de inços, onde precisa levar menos água e menos adubo – afirma o presidente da Federação das Associações dos Arrozeiros do Estado (Federarroz), Valter José Pötter.

João Paulo Knackfuss, de Eldorado do Sul, já se conforma em colher menos do que as 6,85 toneladas por hectare na última safra. Devido à atual cotação do arroz, deve reduzir os investimentos para o ciclo 2005/06 em seus 92 hectares.

– Provavelmente a minha produtividade não vai ser a mesma, porque vou ter de reduzir os insumos – diz o agricultor.

Se tivesse de vender hoje todo o arroz que produziu, Knackfuss teria um prejuízo de R$ 7 por saca. O arrozeiro ainda tem 80% da última colheita em mãos, mas já prepara a terra para o próximo plantio, ao contrário da maioria dos produtores gaúchos.

Como a época ideal de semeadura (que varia de acordo com o zoneamento agrícola) começa em setembro, a definição da extensão das lavouras ainda depende das chuvas de agosto e setembro, lembra Luís Antônio Valente, chefe da divisão de assistência técnica e extensão do Instituto Riograndense do Arroz (Irga). As reservas de água na região da Campanha estão 50% abaixo do normal para esta época do ano devido à estiagem do último verão – e ninguém mais arrisca plantar contando com a boa vontade de São Pedro.

– Muitos (produtores) dizem que vão reduzir a área – relata Valente, que percorreu regiões produtoras nesta semana.

Só em Dom Pedrito, informa Valente, choveu 622 milímetros entre março e junho, enquanto a pluviosidade é de pelo menos 950 milímetros no período. Segundo o coordenador do 8º Distrito de Meteorologia, Solismar Prestes, a precipitação do próximo trimestre deve ser normal.

As reservas da Depressão Central do Estado também estão abaixo da capacidade, diz o técnico da Emater de Santa Maria Gilberto Righi. A descapitalização dos agricultores é que deve restringir o aporte tecnológico das lavouras. Aguardando melhores preços, os produtores estão vendendo o mínimo necessário da produção. Righi acrescenta que, apesar da queda na cotação do dólar, o preço dos insumos não caiu, e a importação de produtos para a formação da lavoura, prometida pelo governo no Tratoraço, ainda não saiu do papel.

Na zona sul do Estado, a preocupação é com o alto teor de sal nas águas da Lagoa dos Patos, que abastecem as lavouras da região. Com a falta de chuvas, o nível da lagoa baixa e entra mais água do mar. Mas queda de produtividade pode não ser um problema tão grande em termos comerciais, se persistir a importação de arroz do Mercosul. Com uma safra cheia, diz Eloy Cordero, gerente regional do Irga na Campanha, o excedente de arroz no mercado interno aumentaria e a crise dos preços do cereal poderia se agravar.

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