Governo federal decide limitar compra de arroz
Decisão coloca por terra os pleitos dos arrozeiros gaúchos.
Apesar da forte pressão da bancada ruralista do Congresso, o governo decidiu que não aumentará as compras de arroz para estocar e elevar o preço do produto no mercado interno. Houve forte queda do preço do arroz no atacado e no varejo, o que ajudou a diminuir a inflação neste ano.
O combate à inflação e uma “invasão” de arroz uruguaio no Rio Grande do Sul levaram o governo a não intervir. O governo já destinou R$ 600 milhões para comprar estoques, e o preço do arroz continuou a cair. A Folha apurou que o governo estuda destinar recursos para estocar outros produtos, como trigo e algodão.
Outro argumento para a decisão do presidente Lula: toda a safra do ano já está nos atacadistas. Os recursos do governo, portanto, não beneficiariam os pequenos produtores, que já venderam as suas colheitas de 2005. O governo chegou a pensar em estabelecer uma cota de compra, cerca de R$ 30 mil de cada produtor. Mas a bancada ruralista rejeitou. Essa medida premiaria o pequeno produtor, mas não contentaria o grande, que venderia parte irrisória de sua colheita.
Fazendo alusão a uma famosa marca de arroz do tipo 1, de alta qualidade, Lula brincou ao bater o martelo no Palácio do Planalto.
– O povo que pagava R$ 12 pelo saco de 5 kg está pagando R$ 7 para comer arroz de primeira. Vamos dar vez ao pobre – afirmou.
A “batalha do arroz” foi tema de reuniões semanais da cúpula do governo em setembro. Em reunião na semana passada, o presidente negou o pedido do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, para gastar mais do que os R$ 600 milhões já destinados aos produtores de arroz no ano.
Até o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, quando ainda comandava a Casa, entrou no lobby dos produtores. Marcou café da manhã com o ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda) para relatar as queixas que ouvira de um grande produtor gaúcho. Severino e a bancada ruralista pressionaram Rodrigues, que levou o pleito à cúpula do governo. Do ano passado para cá, a saca de 50 kg de arroz no Rio Grande do Sul caiu de pouco mais de R$ 30,00 para cerca de R$ 17,00. É o menor preço médio dos últimos dez anos, argumentou Rodrigues nas reuniões do governo. Ele contava com discreta simpatia de Dilma Rousseff (Casa Civil).
Auxiliares de Lula, como Palocci e o assessor José Graziano, disseram que seria inútil gastar mais devido à facilidade de entrada do arroz do Uruguai no Rio Grande do Sul. Os grandes produtores são os mesmos. Têm propriedades em solo uruguaio e gaúcho. A previsão para 2006 é que o preço do arroz continue baixo. A produção nacional deve girar em torno de 11 milhões ou 12 milhões de toneladas para um consumo interno de quase 13 milhões. Já há estoques da ordem de 2 milhões de toneladas, o que assegura o abastecimento doméstico.
Nos últimos meses, a bancada ruralista tem pressionado muito o governo a renegociar dívidas já renegociadas duas ou três vezes. Se atendida, a União teria de arcar com uma bolada de até R$ 30 bilhões. Lula tem resistido a negociações globais com a bancada ruralista, com grande poder no Congresso, cerca de 120 membros na Câmara. Prefere fazer atendimentos pontuais. Quem sofre é o ministro Rodrigues. Defensor ardoroso do setor, é o primeiro a ser pressionado pelos ruralistas.


