Atenção à Embrapa
Continuidade da pesquisa da Embrapa está em risco por falta de dinheiro.
O agronegócio exportou neste ano US$ 39,9 bilhões até novembro e gerou um superávit de US$ 35,3 bilhões. Este resultado equivale a 80% do saldo comercial acumulado pelo País até o mês passado. É mais uma demonstração de força de um setor altamente competitivo e capaz de enfrentar grandes desafios no mercado internacional. Essa força vem sendo reconhecida há
anos pelos principais concorrentes. A história seria outra, sem dúvida, sem o trabalho realizado há 32 anos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A continuidade desse trabalho está em risco, por falta de dinheiro, adverte o presidente da Empresa, Sílvio Crestana.
O Brasil gasta hoje com pesquisa agropecuária muito menos do que há nove ou dez anos e em breve os efeitos desse retrocesso poderão surgir. Para 2005 foi atribuído à Embrapa um orçamento de R$ 877 milhões. Para 2006 a previsão é de R$ 1,1 bilhão, mas a empresa precisaria de R$ 1,3 bilhão, no mínimo, para dar conta de seu programa de trabalho. Mesmo esse dinheiro seria insuficiente, no entanto, para igualar o gasto em pesquisa realizado por outros países emergentes, com valores entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões anuais.
Especialistas vêm advertindo o governo, há tempos, para o risco de enfraquecimento do setor de pesquisas. “Hoje usufruímos das tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas. Se não recuperarmos esses investimentos, podemos, dentro de cinco ou seis anos, amargar a perda de mercado por falta de competitividade”, avisou em agosto do ano passado o presidente da Câmara de Ciências Agrárias, José Levi Pereira Montebelo.
Entre o início de uma pesquisa e o uso de seu resultado pelos produtores podem decorrer entre cinco e dez anos, observou Montebelo, mostrando por que é essencial manter uma visão de longo prazo na gestão das políticas de ciência e tecnologia voltadas para o setor produtivo.
Os efeitos de longo prazo da pesquisa agropecuária ficam videntes num retrospecto de três décadas. Nesse período, a produção de grãos e oleaginosas foi multiplicada por quatro e chegou à faixa de 120 milhões de toneladas anuais. Esse crescimento resultou principalmente dos ganhos de produtividade. Em 30 anos, o rendimento médio das lavouras passou de 1.280 para 2.905 quilos por hectare. A expansão mais acentuada ocorreu a partir de 1990. Desse marco até o ano passado, a produção de grãos e oleaginosas cresceu mais de 120%, mas a área cultivada pouco variou. A mudança tecnológica refletiu-se também na criação de animais. Em 30 anos a produção de carne bovina aumentou, segundo números da Embrapa, de 15 para 45 quilos por hectare.
Essas mudanças tiveram reflexos tanto no comércio exterior quanto no mercado interno. Enquanto o Brasil avançava no mercado internacional, ocupando espaços cada vez mais amplos, o custo da alimentação diminuía, em termos relativos, para o consumidor brasileiro. Desde o início dos anos 90 os principais índices de custo de vida foram revistos duas ou três vezes para acomodar as mudanças nas proporções entre os preços. Em
cada revisão o custo dos alimentos perdeu peso no orçamento familiar. Os consumidores tiveram à sua disposição comida mais abundante e mais barata e mais dinheiro para outros gastos.
É muito fácil, agora, usufruir os efeitos dessas transformações e
esquecer o esforço necessário para produzi-las. Os frutos da pesquisa científica e tecnológica dependem de esforço continuado. Esse é um trabalho necessariamente regular e persistente, orientado para prazos mais extensos que os da maior parte das atividades.
Não se pode tratar a pesquisa como atividade intermitente, sujeita à oscilação de interesses políticos e dos objetivos de curto prazo.
Se o orçamento público é limitado, cabe ao governo selecionar com
cuidado suas prioridades e cortar sem hesitação os itens secundários. A escolha da prioridade, nesse caso, é fácil. Sem a pesquisa, o poder de competição do agronegócio, uma das principais forças do Brasil no mercado internacional, será reduzido em alguns anos. Estará o governo disposto a assumir esse risco?


