Soja em área de arroz no Rio Grande do Sul

Planta usual na Metade Norte do Rio Grande do Sul pode ser alternativa para produtores na Metade Sul .

As regiões noroeste, planalto médio e norte do Rio Grande do Sul já conhecem a força da soja. Lá, a planta alcançou um grau de excelência em produtividade, baseada em dois pilares fortes de sustentação: alta tecnologia e condições favoráveis de solo. Na Metade Norte, as coxilhas, o terreno e o plantio direto proporcionam boas colheitas em anos sem estiagem.

Na Metade Sul, as condições encontradas são ruins. O solo tem baixa capacidade de armazenagem de água, é plano e apresenta reduzida fertilidade. Um cenário propício para o arroz, cultivado na região com irrigação. Porém, pesquisadores da Embrapa Clima Temporado, em Pelotas, buscam alternativas de adaptação do solo e melhoramento genético para disseminar a soja nas terras de várzea do Sul.

– Queremos driblar as dificuldades e dar outra opção para os agricultores. O sistema produtivo hoje é mais estimulante à soja na região – justifica Francisco de Jesus Vernetti Júnior, pesquisador da Embrapa.

Luiz Rechsteiner, 66 anos, aguarda com ansiedade os resultados de pesquisa da Embrapa para obter sementes que se utilizem da mesma irrigação do arroz ou cultiváveis em banhados. O agricultor planta soja em áreas de arroz, em Pelotas. Divide os 2 mil hectares da propriedade entre os dois tipos de grãos. As áreas de plantio se invertem a cada duas safras. Com o plantio direto, a rotação de culturas e o uso da soja transgênica e do arroz clear field (resistente a herbicidas), a produtividade do arroz aumentou em 10%.

– Também conseguimos combater plantas invasoras e baratear custos de produção – diz Rechsteiner.

A quase monocultura do arroz no sul do Estado potencializou o surgimento de muitas gramíneas invasoras nas áreas alagadas. Ponto positivo para a soja, que consegue vencê-las. E a rotação de culturas entre arroz, soja e milho reduz a infestação.

Cláudio Alberto Souza da Silva, também pesquisador da Embrapa Clima Temperado, trabalha na busca da adaptação do solo. Mais sensível ao excesso de umidade, a soja precisa de cuidados redobrados durante irrigação e drenagem, nas mesmas terras de várzea onde o arroz é cultivado tranqüilamente.

– É preciso tornar mais ágil o processo de entrada e saída de água, em comparação com o arroz. A vantagem é que a soja aproveita a estrutura já existente – explica Silva.

Na pesquisa da Embrapa, para uma drenagem suficiente foram diagnosticadas diversas iniciativas, como estudo topográfico, abertura de valetas, eliminação das depressões e sistematização do terreno.

O campo experimental da empresa, em Pelotas, conta com cerca de mil linhas diferentes de soja, um terço delas transgênicas. São cultivares com maior produtividade, estabilidade de rendimento e capacidade de adaptação ao solo irrigado. Em breve, a Embrapa deve colocar o material à disposição dos produtores.

SAIBA MAIS

A planta de soja precisa de 700mm a 800mm de água por safra. Com o arroz, são 1,2 mil mm.

Conforme a distribuição das chuvas, a suplementação via irrigação fica entre 250mm e 300mm na soja na zona sul do Estado.

A irrigação para a soja é intermitente no sistema de banhos rápidos. No arroz, a irrigação é contínua, mantendo o terreno alagado.

Na zona sul, sem irrigação, a soja alcança produtividade média de 1,8 mil a 2 mil quilos por hectare. Nas áreas irrigadas, pode chegar a 3,5 mil quilos por hectare (resultados obtidos em três anos de comparação da Embrapa).

A Embrapa recomenda vazão de 0,2 litros por segundo, por hectare de soja, em cada irrigação. Os sulcos precisam ter 400 metros de comprimento, com declive entre 0,1% e 0,5% – modelo testado para Pelotas.

Cláudio Alberto Souza da Silva, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, ressalta que, antes da irrigação, é preciso consultar a previsão do tempo. Em caso de chuva, o processo é suspenso.

O sistema está à disposição do produtor e é compatível com o plantio direto do arroz na safra seguinte.

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