Mercado gaúcho perde a tranqüilidade
Maior oferta de produtores e indústria fora de mercado afeta os preços no Rio Grande do Sul. Algumas praças apresentaram queda
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O mercado de arroz no Rio Grande do Sul teve uma semana de intranqüilidade e dois discursos distintos. Os produtores ainda tentaram forçar alguma alta no preço nas negociações, mas o aumento da oferta do produto para quitação da parcela de custeio que vencerá a partir do dia 15 até o dia 30 de julho, acabou derrubando os argumentos. Grande parte da indústria, alegando com razão que não consegue repassar os preços e que o varejo e o atacado praticamente cessaram as compras, saiu do mercado, forçando uma retração ainda maior nas cotações do casca.
Apesar da oferta dos produtores, poucos negócios mais expressivos foram realizados tanto para o arroz em casca quanto para o beneficiado.
Diante deste cenário, o saco de arroz de 50 quilos (58% de grãos inteiros) manteve cotação entre R$ 20,00 e R$ 20,50 na maioria das regiões. É o caso de Cachoeira do Sul, Rio Pardo, Restinga Seca, Alegrete, Rosário do Sul, São Gabriel, Dom Pedrito, Uruguaiana São Borja e São Lourenço do Sul.
Em Camaquã e Pelotas, há registro de queda de R$ 1,00 a R$ 0,50 nos preços e arroz deste padrão é cotado a R$ 21,00 (posto na indústria).
Em Itaqui, arroz das variedades Irga 417 e BR Irga 409, com mais de 60% de inteiros é cotado entre R$ 22,50 e R$ 23,00. São Borja paga R$ 22,50 para este padrão de arroz e Alegrete até R$ 23,00. No Litoral Norte, o arroz de alta qualidade chegou a perder R$ 2,00 esta semana. Há 10 dias o saco de 50 quilos do arroz em casca destas variedades, com 63% de inteiros, era negociado a R$ 24,00. Esta semana, poucos negócios e cotação a R$ 22,00. O arroz com 65% de inteiros que era comprado por duas grandes indústrias do centro do país a R$ 25,00 também caiu para R$ 23,00. Estas grandes indústrias, com presença marcante na região, que são consideradas puxadoras de preço, se retiraram do mercado.
PARBOILIZADO
A grande vedete das negociações no mercado gaúcho neste momento é o arroz em casca para parboilização, que está batendo na casa de R$ 20,00 a R$ 20,30 posto na indústria em Pelotas. Trata-se de produto com 43% a 52% de grãos inteiros. A demanda da indústria da Zona Sul gaúcha explica-se por dois motivos. O primeiro é a falta de espaço para a armazenagem no pico da safra 2005/06, quando as indústrias e cooperativas deram preferência ao produto de melhor qualidade em seus armazéns. Muita matéria prima mais fraca ficou na mão do produtor, no silo da propriedade.
O outro motivo desta demanda é o PEP. Com o incentivo do governo para exportar arroz do Sul para o Nordeste e a saída do Mato Grosso deste mercado, aumentou muito o volume de parboilizado negociado pela indústria gaúcha. A matéria prima disponível na região do pólo industrial da Zona Sul gaúcha Pelotas e Camaquã reduziu significativamente, gerando uma demanda maior e a necessidade de uma melhor remuneração ao produto. Indústrias de Santa Catarina, que teve uma safra de alta qualidade, também estão demandando produto gaúcho, o que gera uma oportunidade de bons negócios para o arroz fraco.
BRASIL
O arroz em casca manteve preços firmes em Santa Catarina, com cotações de R$ 18,00 em Rio do Sul e Jaraguá do Sul e R$ 20,00 no Sul catarinense. O produto, em sacos de 60 quilos, registrou pequena alta no Mato Grosso. O arroz Primavera com mais de 50% de grãos inteiros alcançou média de R$ 24,50 posto em Cuiabá. Varia entre R$ 21,40 e R$ 22,00 ao produtor em Sinop, valor que já supera de forma significativa o preço mínimo, de R$ 20,70 para o saco de 60 quilos. A produção está direcionada apenas ao mercado matogrossense.
A indústria do Mato Grosso é compradora, mas dois fatores estão interferindo no mercado. O produtor está segurando a produção um pouco mais como forma de buscar melhores preços e a disponibilidade de produto de qualidade no estado é muito pequena.
Tanto que setores da indústria tentam negociar com a Conab a liberação de estoques públicos. É ventilada também a possibilidade do governo federal estabelecer um PEP que permita à indústria do Mato Grosso comprar arroz em casca em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul em volumes similares ao estoque público daquele estado.
BENEFICIADO
O arroz beneficiado também teve uma semana de mais expectativa do que negócios. Clientes tradicionais das indústrias gaúchas reduziram os pedidos e continuam não aceitando as novas tabelas de preços. Isso esfriou tanto o mercado que algumas empresas de menor porte já apresentaram concessões significativas para garantir a presença nas gôndolas paulistas e mineiras, principalmente. Os R$ 33,00 para o fardo de 30 quilos, do tipo 1, que era média de preços até a semana passada, tornou-se teto para a maioria das marcas. Exceção feita às marcas top de mercado, que seguem cotadas entre R$ 39,00 e R$ 40,00 e às marcas do tipo especial, com patamar superior a R$ 45,00. O pólo de Santa Cruz do Rio Pardo (SP) mantém tabelas na faixa de R$ 35,00 o fardo, mas faz concessões até R$ 32,50.
O arroz gaúcho beneficiado em sacos de 60 quilos chega na faixa de R$ 60,00 a R$ 62,00 em São Paulo (preço final), mas o movimento esta semana foi muito fraco.
Outra notícia desagradável para o mercado de arroz foi o retorno das ofertas aos tablóides de grandes redes de supermercados na faixa de R$ 5,45 a R$ 5,99. O valor está R$ 0,50 a R$ 0,80 acima das ofertas praticadas até a primeira quinzena de junho, ainda assim bem abaixo dos patamares que a indústria e os produtores gostariam.
TENDÊNCIAS
A próxima semana promete ser a mais tensa para o mercado do arroz nos últimos 45 dias. O vencimento de parcelas do custeio entre os dias 15 e 30 de julho vai forçar um pouco mais a oferta de arroz em casca no Rio Grande do Sul, como já foi dito na análise da semana passada. O problema é que muitos produtores estão pensando em fazer média e, ao invés de liquidar um volume de produto suficiente para pagar a parcela, devem vender um pouco mais. Se cada produtor vender mil sacos a mais do que precisa, por exemplo, haverá uma enxurrada de oferta e uma pressão muito grande nos preços. Com uma tendência de leve queda nos preços do arroz gaúcho na próxima semana, os contratos de AGF devem voltar a ser uma opção interessante. Com o arroz cotado abaixo de R$ 20,00 líquidos, já é negócio para o produtor vender a R$ 22,00 para o governo e obter mais uma ajuda de R$ 0,30 a R$ 0,50 da indústria para o frete.
Com o estoque na frente e sem conseguir repassar para os supermercadistas os quase 30% de aumento nos preços do arroz em casca em junho, a indústria se mantém estrategicamente fora do mercado. A reposição de estoques poderá vir aproveitando uma oportunidade de baixa, como a que muitos agentes de mercado estão prevendo para a próxima semana. Neste momento muitas indústrias estão queimando parte significativa da gordura obtida com a venda dos estoques formados a R$ 16,00 e R$ 17,00.
Muito se fala, no setor, em importações do Mercosul. Todavia, não há pressão de oferta da Argentina ou do Uruguai, que estão esperando os preços brasileiros chegarem no patamar de 10 dólares, muito parecido com o valor que estão alcançando na exportação para terceiros mercados. O produto remanescente é de muito boa qualidade, já que estes países também descobriram a rota de quebrados para a África e mercados marginais. A queda de preços em algumas regiões interferiu ainda mais nesta negociação. O arroz uruguaio chega em Pelotas ao custo de R$ 22,00 (esbramado em equivalência casca 50kg) e o argentino na faixa de R$ 21,70. Ainda acima do mercado interno.
Na próxima semana as grandes redes de supermercados e as indústrias de fora do Rio Grande do Sul ainda não deverão acelerar as compras para o final do mês, atitude rotineira para a segunda quinzena. A tendência é de leve queda nos preços do arroz na maior parte das regiões gaúchas com reflexo nas tabelas do beneficiado. A mobilização de arrozeiros em busca de recuperação dos preços e pela venda apenas do volume essencial ao pagamento dos compromissos com os bancos, poderá surtir efeito e amenizar a retração nos preços. Dificilmente impedirá.


