Leilões de arroz na pauta da cadeia produtiva do Sul
No Rio Grande do Sul, a indústria pressiona pela liberação de estoques do governo. Os produtores não aceitam leilões com alto estoque privado. Conab convoca reunião para a próxima segunda-feira (30/10), em Porto Alegre.
A cadeia produtiva do arroz do Rio Grande do Sul se reunirá com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) na próxima segunda-feira (30/10) para discutir a liberação parcial de estoques de arroz no Sul do Brasil. A reunião emergencial convocada pela Conab atende apelo da indústria gaúcha, que está preocupada com a escalada de preços e um possível desabastecimento na virada do ano, já que os produtores reduziram a oferta praticamente a zero.
Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias do Arroz do Rio Grande do Sul (Sindarroz), Élio Coradini, o interesse do setor não é baixar preço, pois seria um tiro no próprio pé. Segundo ele, uma programação de leilões também no Sul, a exemplo do que ocorre no Mato Grosso, é necessária.
– Não estamos discutindo preço, se é R$ 22,00 ou R$ 26,00 ou mais. O que precisamos é de um balizamento do mercado, um indicativo e o abastecimento da indústria que está ficando sem matéria prima. O governo vai liberar este produto de qualquer maneira. Por isso nos preocupa uma escalada de preços a um patamar onde o governo federal resolva a intervir por conta própria e por decisão política explicou.
Segundo Coradini, nos últimos 45 dias o arroz em casca do Rio Grande do Sul subiu mais perto de 40%, índice que a indústria não consegue repassar ao varejo. Se estes índices forem repassados, acende a luz vermelha no governo, que vai intervir para manter a comida barata e afetar de forma drástica a cadeia produtiva.
– A intenção é garantir um balizamento e evitar um desastre futuro por intervenção exagerada do governo federal avisa.
Segundo Coradini, os próprios representantes dos produtores já informaram que o estoque privado do Brasil em fevereiro é zero, ou seja, sobraria só o produto na mão do governo armazenado no Sul. Ele afirma que esta situação está aumentando o interesse dos produtores do Mercosul em exportar para o Brasil, com maior volume de negociação nos últimos dias principalmente na fronteira com o Uruguai.
– O mercado brasileiro voltou a ser mais atrativo ao Mercosul. Não é bom que o Brasil entre a nova safra com quase todo o estoque de passagem do Mercosul. E temos notícias que uma empresa no centro do País que anunciou negociações avançadas para importar produto do Vietnã. São notícias preocupantes afirma.
POLÊMICA
O argumento da indústria, no entanto, está gerando polêmica. Representantes dos produtores estão afirmando que muitas empresas venderam a produção depositada pelos agricultores sem o devido pagamento e que agora querem os leilões para evitar prejuízos maiores, mesmo que o preço do arroz ainda esteja longe do custo de produção da safra passada.
A Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) está realizando um levantamento dos estoques privados para se opor à realização de leilões no pelo menos em curto prazo. Paralelamente, um grupo de arrozeiros entrou com representação no Ministério Público gaúcho solicitando uma investigação sobre o uso de arroz dos produtores, pelas indústrias, sem o devido pagamento. O principal argumento é que muitas indústrias estão vendidas na frente. Ou seja, comercializaram o produto depositado pelos agricultores, mas não efetivaram a compra da matéria prima. A denúncia usa por principal argumento a situação de algumas cooperativas que já declararam terem vendido o arroz dos produtores e não conseguirão reembolsá-los em curto prazo.
LEVANTAMENTO
O presidente da Federarroz, Valter José Pötter, preferiu não entrar ainda na polêmica do uso de estoques dos produtores. Segundo ele, neste momento a federação está se cercando de argumentação técnica para comparecer ao encontro chamado pela Conab. Mas, se diz preocupado com o pedido de leilões.
– No momento que há uma leve recuperação de preços, ainda abaixo do custo de produção da lavoura, e existe um grande estoque privado de arroz concentrado no Rio Grande do Sul, não é hora da indústria pedir leilão para interferir nos preços. Os industriais deveriam lembrar que há duas safras que os produtores estão no prejuízo, nas quais parte da produção foi vendida até R$ 7,00 abaixo do preço mínimo frisou.
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Segundo Valter José Pötter, a postura da indústria causa estranheza, pois é o segmento que sempre fala que tem o maior interesse na recuperação de preços do arroz.
– Na prática, não é o que estamos vendo afirma.
Para o presidente da Federarroz, também está em jogo a segurança alimentar. O governo federal não pode usar mal os estoques públicos. Com a tendência de redução da produção brasileira e do Mercosul, a proibição do ingresso de arroz norte-americano no Brasil por se tratar de alimento contaminado por trangênicos, com a Tailândia vivendo um golpe de Estado e o mercado internacional em alta, não é momento do governo intervir apenas para baixar preço ao produtor e manter o prejuízo ao setor produtivo.
– Neste momento, é importante que o governo federal saiba agir de forma estratégica, preservando estoques para o ano que vem, quando há tendência de menor produção local. É importante que mantenha os leilões nas regiões em que realmente falta produto, como o Mato Grosso.
ESTOQUES
Segundo Valter Pötter, no Rio Grande do Sul os estoques privados ainda são muito grandes, o que dispensaria a realização de leilões em curto prazo. E se houver, mais para o final do ano, tem que seguir as regras do Mato Grosso: utilizar os preços de mercado da semana anterior.
A empresa Safras & Mercado, uma das principais do mercado brasileiro, informou recentemente que o Brasil comercializou apenas 54% da safra até o final de setembro. E o Rio Grande do Sul, sozinho, representa 57% da produção nacional em 2006/07.
Como os estoques estão zerados no Mato Grosso, Tocantins e outros estados, o Rio Grande do Sul ainda teria mais de 3 milhões de toneladas nas mãos de produtores e indústrias até o início de outubro, segundo dados extra-oficiais.
O diretor de mercados da Federarroz, Marco Aurélio Marques Tavares, está coordenando o levantamento de estoques e arroz comercializado.


