Arroz: Uma safra inteira negociada sem contrato

Acompanhe a análise mensal do Cepea/Esalq/Usp e BM&F.

A colheita do arroz começou em fevereiro em algumas localidades do Rio Grande Sul, que produzirá quase 60% da oferta nacional do grão desta safra. A estimativa da Conab é que sejam colhidas nesse estado 7,122 milhões de toneladas até junho; em todo o Brasil, a produção é estimada em cerca de 12 milhões de toneladas.

Com a proximidade da colheita, em fevereiro, os preços do Rio Grande do Sul caíram 9%, segundo o Indicador do Arroz em Casca Cepea-Esalq/BM&F, mas comparando os preços atuais aos de um ano atrás, constata-se que estão quase 22% superiores. Vale também observar a forte diferença entre cotações registradas em fevereiro do ano passado e deste ano, por exemplo. Em meados de fevereiro de 2007, o Indicador chegou a cair para R$ 18,29/saca de 50 kg e, no início de fevereiro deste ano, ao contrário, atingiu o pico de alta de R$ 25,67/sc. No intervalo de um ano, portanto, diferença de 40% dos preços recebidos por produtores de um dos alimentos básicos dos brasileiros.

Apesar dessas fortes oscilações, produtores gaúchos não negociam arroz via contrato, e o ritmo de oferta é determinado pela necessidade de caixa do produtor e/ou por sua capacidade de armazenamento, a qual tem recebido significativos investimentos. Apesar disso, a maior parte do arroz gaúcho ainda é armazenada em indústrias. Essas empresas prestam o serviço de armazenagem e secagem apenas, mas, na prática, acabam comprando a quase totalidade dos grãos que estoca. O produtor mantém sua liberdade de retirar o grão (chamado de arroz em depósito) e de comercializá-lo com outra empresa, mas economicamente essa operação não costuma ser compensatória.

Na avaliação de pesquisadores do Cepea, a negociação via contrato poderia diminuir as oscilações dos preços do arroz. Nesse sentido, pesquisadores do Centro sugerem avançar em estudos sobre o desenvolvimento do “mercado a termo” do arroz, modalidade em que comprador e vendedor definem um preço de negociação para a entrega futura. Por exemplo, para a identificação dos modelos de contrato a termo mais adequados ao setor e das possíveis formas de sua operacionalização.

Em Mato Grosso, segundo maior produtor de arroz até a safra 2004/05 – desde então, foi superado por Santa Catarina –, indústrias começam a propor a fixação de contratos como forma de garantir fornecimento de matéria-prima. Essa modalidade pode encontrar apoio na cultura dos produtores da região de negociar soja e, mais recentemente, até milho safrinha de forma antecipada.

De forma complementar, pesquisadores do Cepea estudam também a viabilidade do mercado futuro de arroz. Uma das hipóteses em análise é a agregação do Mercosul, tendo em vista que o Bloco tem superávit do grão. A professora Sílvia Helena G. de Miranda, responsável pelo Indicador do Arroz Cepea-Esalq/BM&F destaca que no Ocidente não há contrato futuro representativo de arroz com abrangência internacional, e que o eventual desenvolvimento de contratos poderia, inclusive, atrair o interesse de participação de agentes de outras regiões. Por enquanto, no entanto, há apenas estudos acadêmicos sobre o tema.

Mercado – O mercado gaúcho de arroz seguiu calmo na última semana, com preços em queda. Indústrias mantêm baixo o interesse por compras, aguardando novas quedas e também alegando fracas vendas do arroz beneficiado. Para as próximas semanas, espera-se um aumento significativo na disponibilidade de arroz novo. Em termos de armazenagem neste ano, a situação do setor neste ano é mais confortável. Na semana passada, as atividades de colheita da safra 2007/08 do Rio Grande do Sul foram interrompidas devido a chuvas. Além disso, alguns agentes apontaram dificuldade para encontrar caminhão para transporte do cereal.

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