Corrida de recuperação
Produção gaúcha se sustenta, apesar dos cortes em área e investimentos
Sem crédito, safra 2025/26 reduz área, tem La Niña e preços 40% abaixo do custo
O mês de outubro marcou a recuperação da velocidade da semeadura no Rio Grande do Sul, que superou, no dia 30, o marco de 69% da intenção de plantio da safra 2025/26, projetada pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), contra 61% em 2024/25 no mesmo período. Apesar do atraso da temporada anterior, com produtores semeando até dezembro devido às enchentes, o ritmo atual é positivo, sobretudo porque a principal região produtora, a Fronteira Oeste, iniciou o plantio mais tarde.
O engenheiro agrônomo Edison Jacociunas explicou que, na Fronteira Oeste, especialmente em Itaqui e São Borja, o clima é “completamente atípico para o arroz irrigado” devido ao alto volume de chuvas entre maio e outubro, que impediu o manejo padrão. “Mesmo quando outras regiões tiveram períodos secos, aqui as precipitações voltaram, o que dificultou o manejo de excelência característico da Fronteira Oeste”, observou.
O gerente do departamento de assistência técnica e extensão rural (Dater) do Irga, Luis Fernando Siqueira, destacou que, apesar do início claudicante na Fronteira Oeste e na Região Central, as propriedades conseguiram recuperar o ritmo. “Podemos chegar à metade de novembro com 90% da área semeada, o que é positivo diante do quadro climático. A Zona Sul, com bons resultados produtivos e melhores preços, apresentou semeadura mais efetiva”, afirmou.
O presidente do Irga, Eduardo Bonotto, ressaltou que, além das dificuldades climáticas, os custos de produção — cerca de 40% acima dos preços médios de venda em outubro — e o crédito restrito seguem como entraves. “Mesmo com tecnologia e resiliência, semear com preços muito abaixo dos custos é um grande desafio”, admitiu. Ele destacou que a “lavoura gaúcha é sólida, mas enfrenta custos altos e preços deprimidos. Nossa missão é manter o produtor competitivo e tecnicamente atualizado.”
Segundo Siqueira, “o produtor gaúcho entra na lavoura com responsabilidade. O cenário é desafiador, mas a base técnica do arroz no estado segue sólida e inovadora”. Ainda assim, ele reconheceu que a falta de crédito deverá limitar investimentos e reduzir o uso de insumos.
Safra 2025/26: entre a eficiência técnica e margens estreitas
Falou & Disse
“A safra exigirá disciplina técnica e cautela financeira. O produtor está mais seletivo, buscando reduzir custo sem perder eficiência.”
Eduardo Bonotto, presidente do Irga
A safra 2025/26 começa com redução de área e avanço irregular da semeadura, em meio a incertezas de mercado e variações climáticas. Até 30 de outubro, o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) registrava 640,48 mil hectares semeados, o que representa 69,61% da área prevista. A Zona Sul liderava, com 95,69%, seguida pela Planície Costeira Interna (75,61%), Fronteira Oeste (71,7%), Campanha (67,47%), Planície Costeira Externa (58,04%) e Depressão Central (35,51%).
Nos demais estados produtores, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicava, até 25/10, 46% da área nacional semeada — com Santa Catarina (83%) na dianteira, seguida por Goiás (24%), Tocantins (7%) e Maranhão (5%).
O cenário climático, com transição para La Niña, preocupa técnicos, sobretudo nas lavouras irrigadas por pequenos arroios, devido ao risco de falta de água em períodos críticos, como a diferenciação floral (“ponto de algodão”). As previsões indicam temperaturas elevadas no fim do ciclo.
A área projetada de 920 mil hectares no Rio Grande do Sul representa queda de 5% em relação à safra anterior, reflexo das margens estreitas. Desde agosto, o indicador Cepea/Irga acumula forte desvalorização, com preços mais de 10% abaixo do mínimo governamental, pressionados pela oferta elevada no Cone Sul e pelos estoques internacionais recordes.
Para Eduardo Bonotto, presidente do Irga, “a redução de área é uma resposta racional do produtor, que avalia custo, risco e preço com base em dados técnicos. Mesmo com margens curtas, o Rio Grande do Sul segue como referência e deve responder por cerca de 70% da produção nacional”. Luis Fernando Siqueira, engenheiro agrônomo do Irga, entende que o nível tecnológico das lavouras gaúchas é altíssimo, mas reconhece que as dificuldades de acesso ao crédito pelos produtores podem interferir negativamente nas práticas recomendadas de manejo e, em especial, na aquisição dos insumos necessários para buscar resultados sustentáveis.
O recuo acompanha a tendência nacional observada pela Conab, que estima queda de 5,6% na área cultivada e de 10,1% na produção brasileira. O presidente da Federarroz, Denis Nunes, reforçou que o momento exige eficiência e política agrícola efetiva: “O produtor sabe produzir com excelência, mas precisa de estabilidade de preço e crédito adequado. A redução de área é um alerta: é preciso equilíbrio entre custo e valor pago ao produtor”.



