Oferta enxuta e incertezas na comercialização sustentam preços do arroz no RS

 Oferta enxuta e incertezas na comercialização sustentam preços do arroz no RS

(Por Cepea/Esalq) O mercado de arroz em casca no Rio Grande do Sul manteve ritmo lento de negociações na última semana, refletindo um ambiente de baixa liquidez. A combinação entre oferta restrita, postura cautelosa dos produtores e fatores conjunturais — como o feriado de Sexta-feira Santa e a expectativa por leilões oficiais — contribuiu para reduzir o volume de negócios. No cenário internacional, por outro lado, os preços apresentaram recuo.

No período entre 27 de março e 2 de abril, a retenção de produto por parte dos produtores seguiu como principal elemento de sustentação das cotações. Mesmo após as recentes valorizações, prevalece a percepção de que os preços ainda não cobrem adequadamente os custos de produção, o que limita a oferta efetiva no mercado. Esse comportamento, típico de momentos de transição para um novo patamar de preços, ocorre paralelamente ao avanço da colheita, restringindo a disponibilidade imediata.

Do lado da demanda, a atuação segue pautada pela cautela. Indústrias e compradores mantêm aquisições pontuais, focadas na reposição de estoques de curto prazo. A expectativa de aumento da oferta nas próximas semanas — seja pelo avanço mais intenso da colheita, seja por necessidade de caixa dos produtores — leva parte dos agentes a adiar decisões de compra, contribuindo para o baixo dinamismo do mercado.

Esse descompasso entre oferta e demanda configura um ambiente de negócios travado: volumes reduzidos são suficientes para sustentar os preços atuais, mas ainda insuficientes para impulsionar movimentos de alta mais robustos. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos logísticos vem ganhando relevância na formação dos preços regionais, favorecendo origens mais próximas das unidades de beneficiamento e reduzindo a competitividade de regiões mais distantes.

No curto prazo, dois fatores adicionais reforçam a baixa liquidez: a semana encurtada pelo feriado e a indefinição em torno dos leilões de apoio à comercialização a serem conduzidos pela Companhia Nacional de Abastecimento. A ausência de clareza sobre volumes, preços e regras dessas operações mantém parte dos agentes à margem do mercado, aguardando sinais mais concretos.

Preços no RS

Entre 27 de março e 2 de abril, o indicador CEPEA/IRGA-RS (58% de grãos inteiros, pagamento à vista) registrou alta de 0,79%, encerrando o período em R$ 62,32 por saca de 50 kg. O avanço, embora positivo, permanece moderado e coerente com o baixo volume de negociações.

Nas microrregiões monitoradas pelo Cepea, o comportamento foi heterogêneo, refletindo diferenças locais de oferta, logística e ritmo de colheita. Houve valorização na Depressão Central (0,56%) e na Fronteira Oeste (0,78%), com cotações de R$ 60,43/sc e R$ 61,66/sc, respectivamente. Na Zona Sul e na Planície Costeira Interna, os ganhos foram mais expressivos (1,35% e 1,91%), com a saca atingindo R$ 63,64 e R$ 64,39. Em sentido oposto, Campanha (-0,54%) e Planície Costeira Externa (-0,95%) apresentaram recuos, para R$ 61,04/sc e R$ 62,84/sc, sinalizando pressões localizadas de oferta.

Em relação à qualidade, os lotes com menor percentual de grãos inteiros registraram valorização mais intensa (2,75% para o produto entre 50% e 57%), indicando um ajuste relativo de preços possivelmente associado à maior disponibilidade desses padrões no curto prazo e à recomposição de margens na cadeia. Já o arroz com 63% a 65% de inteiros apresentou estabilidade (-0,02%), cotado a R$ 63,43/sc, enquanto o produto com 59% a 62% avançou 0,80%, para R$ 63,07/sc.

Mercado internacional

No cenário externo, o Índice de Preços de Arroz da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura recuou 3,0% em março de 2026, ficando 3,8% abaixo do nível observado no mesmo período do ano anterior. O movimento reflete o aumento da oferta global, com a entrada de novas safras, aliado a uma demanda internacional mais enfraquecida.

Na Ásia, a pressão de baixa esteve associada ao aumento dos custos logísticos, influenciado pelo conflito no Oriente Médio, e à desvalorização cambial em países exportadores, fatores que prejudicaram a competitividade. Já nas Américas, o comportamento foi distinto: enquanto os preços permaneceram estáveis nos Estados Unidos, houve valorização no Brasil e no Uruguai (2,91% e 3,51%), impulsionada por condições mais restritivas de oferta e custos elevados.

Varejo e transmissão de preços

No varejo, o IPCA-15 avançou 0,44% em março. Ainda assim, o arroz registrou queda de 1,06% na média nacional entre 13 de fevereiro e 17 de março, indicando defasagem na transmissão das altas do campo para o consumidor final. Esse descompasso tende a limitar reajustes no curto prazo e pode influenciar o ritmo de compras da indústria.

Evolução da colheita

No campo, a colheita no Rio Grande do Sul alcançou 55,5% da área semeada — cerca de 495 mil hectares — conforme dados do Instituto Rio Grandense do Arroz. O avanço dos trabalhos deve ampliar a disponibilidade física nas próximas semanas, sendo um dos principais pontos de atenção para o mercado.

Em nível nacional, a colheita atingia 39,5% até 28 de março, segundo a Conab, com destaque para Goiás (99%), seguido por Santa Catarina (83%), Mato Grosso (25,9%) e Tocantins (6,5%).

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