Reforço genético

 Reforço genético

Menezes e Cláudia Lange: criadores das variedades OS apostam em avanço de área

Cultivares Oryza & Soy avançam combinando produtividade, estabilidade e qualidade industrial

O setor orizícola do Rio Grande do Sul passa por uma transformação silenciosa, porém estratégica: a entrada de novos players privados no desenvolvimento de cultivares em um mercado que sempre foi dominado por Irga e Embrapa, e mais recentemente Basf. Nesse cenário, a Oryza & Soy Pesquisa e Consultoria Agronômica surge como uma empresa com proposta moderna — integrar genética, manejo e inteligência de campo.

A empresa nasce da união de dois nomes reconhecidos: a melhorista Cláudia Lange, precursora do melhoramento em soja para terras baixas no Irga, e o pesquisador Valmir Gaedke Menezes, referência em manejo e conhecido como o “pai do Projeto 10”. Posteriormente, juntou-se ao projeto o sócio Anderson Vedelago.

A proposta é clara: combinar o olhar genético refinado com validação prática em campo. “A variabilidade do arroz é grande. Entra o olho calibrado, a expertise e a capacidade de selecionar o material certo. E o manejo mostra o que a linhagem realmente entrega”, resume Menezes. Após cerca de uma década de pesquisa — conduzida a partir do Centro Tecnológico do Chasqueiro, em Arroio Grande, em parceria com a Basf — a empresa lançou suas primeiras cultivares comerciais: OS 901 CL e OS 902 CL, que já detêm cerca de 7% de market share entre as variedades semeadas no Rio Grande do Sul.

O diferencial: genética + manejo

As cultivares OS foram desenvolvidas a partir do cruzamento convencional entre Puitá INTA CL e IRGA 424, ambas de domínio público. O diferencial, segundo os próprios desenvolvedores da Oryza & Soy, não está apenas na genética de origem, mas na capacidade de seleção e validação agronômica. “Para atender à cadeia produtiva, é preciso unir produtividade, rendimento industrial, qualidade de cozimento e aparência. Isso é o que faz diferença para o arroz brasileiro ganhar espaço no mercado”, destaca Menezes. A empresa opera com alto nível experimental, chegando a conduzir cerca de mil parcelas de avaliação e testes, inclusive em parceria com empresas de insumos para validação de tecnologias.

A lógica do portfólio inicial da empresa é baseada na complementaridade: OS 901 CL: ciclo precoce, ideal para abertura de semeadura; OS 902 CL: ciclo médio, voltado à estabilidade e altas produtividades. “Essa estratégia permite escalonar plantio e colheita, reduzindo riscos operacionais e climáticos — prática cada vez mais adotada por produtores que têm maior nível de tecnificação nas propriedades/lavouras”, reconhece Cláudia.

FICHA TÉCNICA

OS 901 CL

Perfil agronômico
– Ciclo precoce (~123 dias)
– Alto vigor inicial
– Elevado perfilhamento
– Arroz longo fino

Diferenciais técnicos
– Excelente arranque inicial mesmo sob temperaturas mais baixas
– Janela de semeadura: 20 de setembro a 30 de outubro
– Florescimento mais longo que materiais como Guri INTA CL (menor risco climático)
– Moderadamente resistente a manchas foliares

Qualidade industrial
– Rendimento: ~70%
– Inteiros: 63% a 65%
– Baixa incidência de centro branco
– Grãos soltos e macios após cozimento, inclusive reaquecidos

Potencial produtivo
– Potencial genético superior a 15 t/ha
– Resultados práticos: até 12 t/ha em condições ideais a campo

Posicionamento de mercado
– Alternativa premium entre cultivares precoces, combinando qualidade de grão similar à Guri INTA CL com produtividade próxima à IRGA 424.

OS 902 CL

Perfil agronômico
– Ciclo médio (ligeiramente superior à IRGA 424 RI
– Alto perfilhamento
– Alta estabilidade produtiva
– Arroz longo fino

Diferenciais técnicos
– Elevada resistência ao acamamento
– Forte estabilidade em diferentes ambientes
– Tolerância a atrasos de colheita
– Melhor desempenho em semeaduras até final de outubro

Qualidade industrial
– Alto rendimento industrial
– Baixa incidência de centro branco
– Excelente comportamento culinário (grãos soltos e macios)

Potencial produtivo (dados de campo)
– 80% das parcelas acima de 15 t/ha
– 31% entre 16t e 18 t/ha
– 7% entre 18t e 20 t/ha
– 1,7% acima de 20 t/ha

Posicionamento de mercado:
– Cultivar de alta performance para áreas de maior investimento tecnológico, competindo diretamente com materiais consolidados de ciclo médio.

Pesquisa aplicada e visão de sistema

Cultivares OS: 901 CL é referência em grãos nobres

Mais do que desenvolver cultivares isoladas, a Oryza & Soy trabalha com uma abordagem sistêmica. A empresa conduz pesquisas envolvendo arroz, soja e outros cultivos, avaliando não apenas desempenho individual, mas também a interação em sistemas de rotação e sucessão. Além disso, mantém três áreas experimentais em regiões estratégicas: zona sul, fronteira oeste e planície costeira — garantindo validação em diferentes ambientes produtivos do estado. A expectativa é que, nos próximos anos, a empresa avance também no lançamento de cultivares de soja para terras baixas.

O avanço das cultivares da Oryza & Soy também já aparece nos números de mercado. Segundo dados apresentados pela Basf durante a Abertura Oficial da Colheita do Arroz, as variedades OS 901 CL e OS 902 CL já somam perto de 8% das sementes certificadas comercializadas para a safra 2025/26.

O índice chama atenção especialmente pelo pouco tempo de presença comercial das cultivares no mercado, demonstrando rápida aceitação entre produtores e multiplicadores de sementes. O desempenho reforça a competitividade dos materiais dentro do segmento Clearfield®️, atualmente predominante no sistema produtivo gaúcho.

PORTFÓLIO

Desta forma, o mercado gaúcho, tradicionalmente dominado por materiais consolidados, passa a contar com novas alternativas que trazem: diversificação genética; redução da dependência de poucas cultivares predominantes; competição qualificada; elevação do nível técnico entre os materiais disponíveis. Destacam-se também fatores como foco em qualidade de exportação; alinhamento com demandas industriais e mercados externos.

A chegada da Oryza & Soy ao mercado, com as cultivares OS 901 CL e OS 902 CL, representa mais do que novas opções varietais — marca a evolução do melhoramento genético com forte integração ao campo. Para o produtor, o resultado é direto: mais ferramentas para construir sistemas produtivos eficientes, com maior previsibilidade, qualidade e rentabilidade.

OS 902 CL: estabilidade produtiva e resistência ao acamamento

Produtores vão ampliar áreas com a OS 902 CL nas próximas safras

As cultivares da Oryza & Soy, especialmente a OS 902 CL, vêm consolidando espaço nas lavouras gaúchas pela combinação entre elevado potencial produtivo, resistência ao acamamento e qualidade industrial. Um dos principais entusiastas da variedade é o produtor Jair Buske, de Agudo, que acaba de concluir a terceira safra consecutiva com o material e afirma ter obtido resultados consistentes mesmo sob diferentes cenários climáticos.

Segundo Buske, a cultivar apresentou estabilidade produtiva ao longo das últimas safras, com excelentes índices industriais. “Obtivemos produtividades elevadas com rendimento de grãos inteiros acima de 62%, chegando a picos de 66%, além de baixa incidência de gessados, o que diante do atual cenário garante um plus no valor durante a comercialização”, relata. O produtor destaca ainda a resistência ao acamamento e a boa tolerância à doenças, mesmo trabalhando no sistema pré-germinado — ambiente no qual substituiu materiais tradicionais da Epagri. Utilizando entre 60 e 80 quilos de sementes por hectare, Buske observou forte perfilhamento e alta capacidade de resposta ao manejo.

Na avaliação do produtor, a OS 902 CL possui potencial natural para produzir entre 12 e 13 toneladas por hectare, podendo alcançar até 15 toneladas em anos climaticamente favoráveis. “É um material muito estável. Dificilmente uma área bem manejada produz menos de 10 toneladas”, afirma. Buske acredita que a cultivar tende a disputar espaço com a líder de mercado, IRGA 424 RI, em especial pela ampla adaptação regional e maior resistência ao acamamento.

O consultor agronômico Lucas Bastos, de Alegrete, também relata avanço expressivo da OS 902 CL nas propriedades acompanhadas. Segundo ele, a participação da cultivar saltou de cerca de 5% para mais de 20% das áreas em apenas uma safra com base no sucesso da temporada anterior, quando um de seus assistidos chegou a alcançar 15 toneladas em alguns talhões.

Em um dos casos acompanhados, um produtor ampliou a área cultivada com o material para aproximadamente 500 hectares, alcançando produtividades superiores a 12 toneladas por hectare e médias acima de 62% de grãos inteiros. Bastos destaca que a elevada resistência ao acamamento, pela estrutura da planta com colmos mais fortes, permitiu elevar os níveis de adubação sem comprometer a sustentação da planta, ampliando o teto produtivo das lavouras. “Foi um material bastante responsivo à fertilização e, em comparação às cultivares similares, terminou a safra em pé”, ressalta.

Já a OS 901 CL, segundo o consultor, apresentou produtividades entre 9,5 e 11 toneladas por hectare, mesmo sob temperaturas abaixo de 12°C no período reprodutivo. Apesar da maior suscetibilidade à brusone e da necessidade de até duas aplicações de fungicidas na região da Campanha, dentro de um microclima mais úmido, Bastos considera que a cultivar se destaca pela excelente qualidade industrial, alto rendimento de inteiros e baixa incidência de defeitos, posicionando-se como alternativa importante para nichos de maior qualidade. Mas ressalta que a variedade exige cuidados com relação ao risco de toxicidade por ferro, que gera um estresse fisiológico nas plantas.

PRÉ-GERMINADO

O agrônomo e consultor Leonardo Recco Giassi, que acompanha áreas nas regiões de Triunfo, Eldorado do Sul e Nova Santa Rita, e arredores da Região Metropolitana de Porto Alegre, destaca que a OS 902 CL vem apresentando excelente desempenho também em sistemas pré-germinados, bastante comuns nessas regiões. Segundo ele, a cultivar possui elevado teto produtivo, alta resposta à adubação e forte tolerância ao acamamento quando manejada com densidade adequada de semeadura.

“Embora seja uma variedade voltada ao sistema tradicional de cultivo gaúcho, em linha, muitos produtores a testaram no pré-germinado com excelentes resultados, pois ela tem um arranque muito bom nos quadros”, observou. O próprio Jair Buske utilizou a cultivar neste sistema, em substituição ao material Epagri, e se considera muito satisfeito. Todos os produtores destacaram, porém, que o clima, em especial no mês de março, ajudou bastante para os resultados da safra.

Atestadas pelas sementeiras

Sementeiros ampliam investimentos e projetam expansão das cultivares OS

Simão: cultivares promissoras que devem ganhar mais espaço na lavoura gaúcha

O avanço das cultivares OS vem ganhando força entre empresas sementeiras, que apostam no crescimento da demanda por materiais com maior estabilidade produtiva e melhor padrão industrial. A Sementes Simão iniciou os trabalhos com as cultivares da Oryza & Soy ainda na safra 2022/23, após resultados positivos observados em áreas experimentais.

Segundo Valdemir João Simão, diretor da empresa fundada em 1992 em Dom Pedrito, portanto uma das mais tradicionais na multiplicação e comercialização de genética arrozeira do país, os materiais passaram rapidamente da fase experimental para o mercado comercial devido ao elevado potencial produtivo e à boa adaptação regional.

O engenheiro agrônomo Marcos Tomazetti, da mesma empresa, destaca que a OS 902 CL apresenta um diferencial importante na capacidade de responder a manejos mais intensivos de fertilização sem comprometer a estabilidade da planta. “É uma cultivar com alta tolerância ao acamamento, boa sanidade foliar e excelente qualidade industrial”, afirma.

Na visão da empresa, a cultivar reúne características que atendem às atuais necessidades do produtor arrozeiro: altas produtividades, segurança agronômica e redução do risco produtivo. A expectativa da Sementes Simão é de expansão gradual da participação dessas cultivares nas lavouras gaúchas e também em outros mercados do Mercosul, acompanhando a busca crescente do setor por materiais mais eficientes, estáveis e capazes de reduzir o custo por saca produzida.

EVOLUÇÃO

Outro nome que acompanha de perto a evolução das cultivares é Severo Riffiel, diretor da AGS Insumos, que está neste mercado desde 2008, observa crescimento consistente do interesse dos produtores pela OS 902 CL, cuja trajetória consolidou-se ao longo de cinco anos de acompanhamento técnico, com intensificação nos campos de produção de sementes nos últimos três anos. “A safra 2023/24 foi um importante teste de resiliência, pois, mesmo sob os impactos do El Niño — com excesso de chuvas e baixa radiação solar —, a cultivar manteve estabilidade produtiva e boa expressão do potencial genético”, destaca o empresário.
Severo Riffiel Neto enfatiza que a OS 902 CL gerada em seus campos de sementes reúne atributos como pureza genética, alto poder germinativo e rastreabilidade em todo o processo produtivo. “Tem elevada capacidade de perfilhamento, resistência ao acamamento e boa tolerância ao atraso de colheita, preservando a qualidade dos grãos e reduzindo perdas por degrane”, acrescenta.

Em sistemas de alta eficiência, a OS 902 CL responde de forma expressiva ao manejo técnico e à adubação equilibrada, permitindo altos tetos produtivos. No setor industrial, apresenta grãos com menor incidência de defeitos, favorecendo o rendimento de engenho. “Na Fronteira Oeste, lavouras comerciais têm registrado produtividades próximas de 14 t/ha, reforçando o potencial competitivo da genética para a cadeia produtiva do arroz”, destaca.

Ele entende que a OS 901 CL, por enquadrar-se em padrão nobre de grãos, mas ter mais cultivares similares de ciclo precoce, irá se colocar em um ambiente de mercado mais restrito, enquanto a OS 902 CL deverá competir com as líderes em market share atualmente.

Entre as quatro mais semeadas no RS

Jaeger: colmos mais fortes para sustentar o peso dos cachos

Na Terra Dura Sementes, de Camaquã, o engenheiro agrônomo e diretor Roberto Longaray Jaeger, com larga experiência como pesquisador do Irga, destaca que as cultivares OS 901 e OS 902 CL vêm apresentando desempenho consistente nos campos de produção. A OS 901 é posicionada como um material mais precoce e de alto padrão de grãos, enquanto a OS 902 CL apresenta ciclo um pouco mais longo, em torno de seis dias, que sua principal concorrente, a IRGA 424 RI – da qual originou-se – elevado potencial produtivo e qualidade industrial acima da média das cultivares de seu grupo. Segundo Jaeger, os materiais reúnem características cada vez mais demandadas pela cadeia arrozeira, especialmente em um cenário de busca por maior eficiência produtiva.

“Chegar a 7% de participação no mercado de cultivares no Estado é clara demonstração de que as cultivares têm boa aceitação”, observa. A OS 902 CL, por exemplo, está entre as quatro variedades de arroz mais cultivadas no Rio Grande do Sul na atual safra, segundo informações ainda extraoficiais. “E a tendência é de crescimento em razão dos resultados obtidos em estabilidade produtiva, resistência ao acamamento, qualidade de grãos, alta produtividade e o fato dos produtores ainda estarem semeando áreas de teste, menores, para consolidar a tecnologia e entenderem o melhor manejo da cultivar”, explica.

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