Ajuste fino

 Ajuste fino

Área e produção caíram na safra 2025/26, mas produtividade é elevada

A safra brasileira de arroz 2025/26 caminha para o encerramento com um quadro claro: o país vai colher menos grãos do que no ciclo anterior, em função da forte retração de área, mas sustenta produtividade elevada e estoques confortáveis, o que permitirá, se o mercado ajudar, a manter exportações em ritmo forte.

A Conab projeta a produção, em base casca, nos 11,1 milhões de toneladas, queda de 13,1% frente às 12,76 milhões colhidas em 2024/25. A área recua 13,7%, de 1,76 a 1,52 milhão de hectares, mas o rendimento sobe 0,7%, de 7.232 para 7.281 kg/ha.

A queda na superfície semeada está no centro da virada. Após 2024/25 excepcional, com aumento do cultivo e colheita recorde, o ciclo 2025/26 consolida o ajuste provocado por baixos preços do grão ao longo de 2025 e início de 2026 e o avanço de culturas mais rentáveis, como soja e milho, em diversas regiões. A Conab indica queda de 13,7% em área.

Irrigado x sequeiro

O arroz irrigado foi cultivado em 1,25 milhão de hectares em 2025/26, -8,4% que na temporada anterior. A colheita deve ir 10,4 milhões de toneladas, -10,4% que os 11,6 milhões de 2024/25. A produtividade cai de 8.471 para 8.286 kg/ha, -2,2%.

O sequeiro despenca 32%, de 394,6 para 268,4 mil hectares, resultado 40% inferior, de 1,16 milhão para 694,8 mil toneladas. A produtividade recua 11,8%, de 2.935 a 2.588 kg/ha.

Apesar do corte, a média nacional de 7.281 kg/ha em 2025/26 supera os resultados desde 2018/19, exceto em 2024/25. Em 2018/19, o país colhia 6.158 kg/ha; em 2024/25, 7.232 kg/ha. A produtividade elevada em ano de menor área ajuda a segurar a oferta interna e a reduzir a necessidade de ajuste brusco do consumo.

Recuo de área

No campo, a safra está praticamente definida. A Conab destaca que, em 11 de maio, a colheita alcançava 94,6% da área total de arroz no país, com mais de 90% já colhidos nas principais regiões produtoras, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Rondônia. Em estados irrigantes, como Santa Catarina e Pará, o ciclo foi encerrado com desempenho considerado muito bom, sem grandes episódios climáticos adversos e com boa qualidade de grãos.

Do ponto de vista de área, a retração é abrangente. No arroz irrigado, a redução atinge os grandes polos do Sul e do Centro-Oeste, além de áreas do Norte e Nordeste. No sequeiro, a queda é ainda mais disseminada: estados como Maranhão, Piauí, Mato Grosso, Goiás, regiões de Minas Gerais e áreas da Amazônia Legal relatam abandono de lavouras tradicionais, menor abertura de novas áreas e conversão para soja ou milho.

Em algumas regiões, como o sul do Maranhão e parte do Tocantins, a combinação de preços deprimidos, aumento de custos e incerteza climática levou agricultores a simplesmente deixar de plantar arroz em áreas historicamente ocupadas pelo cereal.

Esse movimento se reflete no comparativo histórico de área. Depois de oscilar entre 1,48 milhão e 1,70 milhão de hectares entre 2018/19 e 2023/24, o arroz saltou para 1,76 milhão em 2024/25, impulsionado por preços em alta e expectativas favoráveis. Em 2025/26, retorna a 1,52 milhão de hectares, patamar inferior ao observado em 2018/19 e 2019/20. Ou seja, a safra atual combina uma área encolhida com um patamar de produtividade que, não fosse a retração do plantio, permitiria um volume semelhante ao recorde anterior.

De olho no mercado externo

Do ponto de vista do balanço de oferta e demanda, a safra 2025/26 marca uma inflexão importante. Neste oitavo levantamento da safra de verão, a Conab reduziu a estimativa de produção para 11,1 milhões de toneladas, contra 12,76 milhões na temporada passada, mas projeta exportações maiores e importações estáveis.

Em 2024/25, o Brasil exportou 1,88 milhão de toneladas de arroz em casca; para 2025/26, a projeção é de 2,1 milhões de toneladas, um aumento de cerca de 11%. As importações, por sua vez, devem se manter em 1,3 milhão de toneladas, repetindo o volume da safra anterior.

A decisão brasileira de manter exportações firmes mesmo em um ano de menor produção não acontece no vácuo. Ela dialoga com um ambiente internacional em que, segundo a FAO, os preços de arroz índica de alta qualidade recuaram dos picos de 2023/24, mas seguem em patamar historicamente elevado, em um mercado ainda pressionado por custos de energia, frete e incertezas logísticas e climáticas. Nesse contexto, origens competitivas em custo e com produto disponível, como Brasil, Mercosul e Índia, tendem a continuar sendo demandadas.

Para a cadeia arrozeira brasileira, isso significa oportunidade e desafio ao mesmo tempo. Oportunidade, porque o país chega ao mercado externo com bons estoques de passagem, produto de alta qualidade e um câmbio que, mesmo mais valorizado do que em 2023, ainda garante preços atrativos em algumas janelas. Desafio, porque a forte retração de área e a queda de produção em 2025/26 não podem ser ignoradas: se a tendência de recuo de plantio se mantiver na safra 2026/27, a capacidade de manter exportações acima de 2 milhões de toneladas sem tensionar o abastecimento interno ficará mais limitada.

CONSUMO

No consumo doméstico, a Conab trabalha com estabilidade à ligeira alta, o que tem sido contestado pela cadeia produtiva, que considera que nem com preços muito baixos houve reação importante no consumo. A demanda interna é estimada em 10,5 milhões de toneladas em 2024/25 e em 10,8 milhões de toneladas em 2025/26. A estatal avalia que a manutenção de preços atrativos ao consumidor no varejo, combinada com campanhas de promoção do consumo, tende a sustentar esse crescimento moderado. A cadeia produtiva vê essa argumentação com ceticismo.

Pressão nos estoques

Os estoques de passagem são o outro ponto-chave do quadro atual. Ao final de 2024/25 (fevereiro de 2026), os estoques de arroz devem chegar a 2,19 milhões de toneladas, nível elevado em comparação com anos anteriores (754 mil t em 2019/20, 1,30 milhão em 2020/21, 846 mil em 2021/22, 408 mil em 2022/23 e 497 mil em 2023/24). Esse colchão de estoque, somado à produção de 11,1 milhões de toneladas e às importações em 1,3 milhão, garante um suprimento total de 14,57 milhões de toneladas em 2025/26, contra 14,57 milhões em 2024/25 e 12,41 milhões em 2023/24.

Ao final de 2025/26 (fevereiro de 2027), contudo, a tendência é de queda nos estoques, que devem recuar para 1,67 milhão de toneladas. O ajuste é resultado direto da combinação entre produção menor, exportações em alta e consumo levemente crescente.

Ainda assim, o nível projetado é substancialmente superior aos pisos observados em 2021/22 e 2022/23, o que oferece uma margem de segurança ao abastecimento.

Perspectivas: ajuste de área, foco em produtividade e gestão de risco

O quadro que se desenha para o arroz em 2025/26 é, em essência, de ajuste estrutural. Depois de dois anos de preços internos deprimidos e custos pressionados por fertilizantes, combustíveis e mão de obra, a área recua de forma ampla, especialmente no sequeiro, e o arroz perde espaço em regiões de fronteira para soja e milho. Ao mesmo tempo, a intensificação tecnológica e a predominância de sistemas irrigados bem manejados sustentam a produtividade em patamar elevado, reduzindo o impacto da queda de área sobre a produção total.

Para a safra seguinte, 2026/27, grande parte das decisões de plantio vai depender de três fatores: o comportamento dos preços ao produtor nos próximos meses, a trajetória dos custos (em especial fertilizantes e energia) e o desenrolar do cenário climático, com projeções de El Niño mais intenso ainda no radar de muitos analistas.

Em estados onde a margem do arroz irrigado ficou muito comprimida, a tendência de nova redução de área não está descartada, sobretudo em ambientes mais sujeitos a inundações e custos mais altos de bombeamento.

Para produtores e agentes da cadeia, o recado que vem dos números de 2025/26 é claro: o arroz brasileiro segue competitivo, sustentado por alta produtividade, mas deixou de ser um negócio que se resolve apenas com volume. Em um ambiente de custos altos, área em queda e mercado internacional ainda volátil, a combinação de eficiência técnica, gestão de risco comercial (câmbio e preços) e integração com o mercado externo será decisiva para que o cereal mantenha seu espaço na pauta agrícola do país e continue atendendo, com segurança, tanto o consumidor brasileiro quanto seus clientes no exterior.

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