Japão vai da escassez de arroz ao excesso recorde
Japão passa da escassez ao excedente recorde de arroz em dois anos
(Por SpaceMoney) O mercado japonês de arroz viveu em apenas dois anos uma inversão que deixou analistas do setor sem explicação convincente: depois de enfrentar uma escassez severa em 2025, crise que chegou a provocar a saída de um ministro do governo, o país acumulou em 2026 um excedente recorde do cereal, a ponto de precisar retirar parte da produção de circulação para conter a queda dos preços. A informação é do InfoMoney, com base em dados do Ministério da Agricultura do Japão e em análise do pesquisador Ryosuke Inoue, do programa Japão do CSIS, em Washington.
Segundo o pesquisador, nem os especialistas que acompanham a política agrícola japonesa previram oscilação de magnitude tão elevada. Ele observa que o desequilíbrio entre oferta e demanda existia, mas não em escala tão expressiva, e avalia que um fenômeno semelhante poderia ocorrer nos Estados Unidos, com uma diferença: lá, a volatilidade dos preços costuma ser menos intensa.
A escalada da escassez em 2025
A crise começou a se formar em 2023, quando o calor extremo e a falta de chuvas atingiram as plantações justamente na fase de enchimento dos grãos, reduzindo o volume de arroz classificado como premium. Na mesma janela, a retomada do turismo e episódios de compras por pânico estimulados por alertas de terremoto pressionaram a demanda.
O resultado foi uma queda dos estoques privados de aproximadamente 2 milhões de toneladas para cerca de 1,5 milhão de toneladas. O preço do pacote de cinco quilos, que girava em torno de ¥2.000 (US$ 13) no começo de 2024, saltou para um pico de ¥4.300 (US$ 27) em 2025. Diante disso, o governo japonês liberou pela primeira vez as reservas estratégicas de arroz criadas em 1995 e originalmente destinadas a catástrofes naturais, decisão que, segundo Inoue, gerou controvérsia, com críticas de que o estoque deveria ter sido aberto muito antes.
O excesso que ninguém previu
Os preços elevados funcionaram como estímulo para os agricultores ampliarem a produção, e o mercado rapidamente virou de cabeça para baixo. Os estoques privados passaram de 1,5 milhão de toneladas em 2024 para 2,43 milhões de toneladas em meados de 2026, e a projeção do Ministério da Agricultura indica que o excedente seguirá crescendo ao longo de 2027.
Os preços já recuaram para cerca de ¥3.300 (US$ 21) por cinco quilos e podem retornar aos patamares de 2022 e 2023 ou até ficar abaixo deles. Neste mês, o governo comprou de volta 210 mil toneladas de arroz apenas para recompor as reservas emergenciais usadas na crise anterior.
Na avaliação de Inoue, um dos entraves está na baixa transparência do mercado japonês de arroz. Distribuidores buscam maximizar lucros e nem o próprio governo consegue acompanhar com clareza o caminho percorrido pelo produto entre o produtor e o consumidor final. No auge da crise, os reguladores não tinham compreensão plena do funcionamento do mercado para reagir com rapidez.
Dependência externa e envelhecimento no campo
O Japão produz praticamente todo o arroz que consome e exporta volumes residuais. Ainda assim, durante a crise de 2025, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou o fato de o país conviver com escassez enquanto restringia importações do cereal americano. O Japão já importava arroz dos EUA dentro de uma cota anual de 770 mil toneladas livre de tarifas, estabelecida pela Organização Mundial do Comércio (OMC), e em um acordo comercial firmado em 2025 concordou em elevar em 75% as compras do produto americano. Esse aumento, diz Inoue, ainda está sendo incorporado ao sistema e deve continuar nos próximos anos, movimento que ganha peso justamente quando o debate interno se concentrava na proteção dos produtores locais.
O setor enfrenta ainda um problema estrutural ligado ao perfil do produtor. A idade média dos rizicultores japoneses é de 67,7 anos e apenas 1,2% têm menos de 30 anos. Além disso, as propriedades são extremamente fragmentadas: a Califórnia reúne cerca de 1.100 fazendas de arroz em aproximadamente 512 mil acres, enquanto o Japão tem cerca de 500 mil propriedades espalhadas por 3,4 milhões de acres.
Para Inoue, a questão central não é a redução do número de agricultores, mas o destino das terras abandonadas. Boa parte das plantações está em regiões montanhosas, pouco atrativas para novos produtores, e áreas deixadas para trás são caras e difíceis de recuperar.
Clima e a busca por um novo modelo
O pesquisador defende a adoção de um mecanismo semelhante ao programa americano Price Loss Coverage, no qual os agricultores recebem compensações apenas quando os preços caem abaixo do custo de produção, estimado em cerca de ¥2.800 (US$ 18) por cinco quilos. O Japão chegou a testar uma política nesse formato em 2011, mas abandonou a iniciativa após uma mudança de governo. Na visão do especialista, deixar o mercado operar livremente com uma rede de proteção mínima seria mais eficiente do que o sistema atual, marcado por ciclos de escassez e excesso.
Os choques, porém, não devem desaparecer. A seca registrada neste ano no oeste do Japão, considerada por alguns meteorologistas uma das piores em mais de três décadas, já é associada à queda da produtividade agrícola. As temperaturas médias de verão entre 2023 e 2025 ficaram muito acima da tendência histórica, levando produtores a adotar variedades de arroz mais resistentes ao calor, que, ainda assim, respondem por menos de 20% das áreas plantadas no país.
Para os especialistas, a turbulência recente do mercado japonês ilustra como as mudanças climáticas tendem a produzir oscilações cada vez mais rápidas e difíceis de administrar em uma das culturas alimentares mais relevantes do planeta.


