Arroz cobra do próximo governo crédito mais barato e medidas para recuperar competitividade
Produtores e indústria apontam juros elevados, custos de produção, logística e concorrência do Paraguai entre os principais desafios; setor também defende seguro rural, abertura de mercados e maior previsibilidade
(Por Guilherme Dorigatti/ Notícias Agrícolas) O próximo governo terá pela frente o desafio de melhorar as condições econômicas para a produção e a industrialização do arroz brasileiro em um cenário de margens apertadas, crédito caro e aumento da concorrência dos países vizinhos. Para representantes da produção, da indústria e do mercado ouvidos pelo Notícias Agrícolas, reduzir custos e criar condições para que a cadeia recupere competitividade são pontos centrais para a sustentabilidade do setor nos próximos anos.
As demandas passam por juros menores no crédito rural, melhoria da logística, ampliação de mercados externos, fortalecimento do seguro agrícola e maior previsibilidade tributária e jurídica. Embora as prioridades mudem de acordo com o elo da cadeia, as avaliações convergem para um mesmo problema: produzir, financiar, beneficiar e escoar arroz no Brasil tornou-se uma operação de custos elevados e pouca margem para absorver choques de mercado ou clima.
Crédito caro e perda de competitividade
Para o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes, o primeiro ponto a ser enfrentado é o custo do dinheiro. “Os Planos Safra devem oferecer taxas abaixo de um dígito para garantir a viabilidade do crédito rural. Não tem negócio produtivo com taxas de dois dígitos”, afirma.
Além do crédito, Nunes coloca entre as prioridades o aprimoramento dos acordos comerciais, especialmente com países do continente americano consumidores do arroz brasileiro, e investimentos em logística. Segundo ele, a estrutura de transporte e a distância dos mercados consumidores reduzem a competitividade diante de concorrentes vizinhos, que muitas vezes contam com vantagens de localização.
A competitividade do arroz paraguaio aparece como uma das principais preocupações da produção brasileira. Nunes alerta para o risco de redução da área cultivada diante do avanço da produção no país vizinho e avalia que custos menores, logística mais favorável e diferenças tributárias permitem que o produto paraguaio chegue aos mercados do Sudeste brasileiro em condições mais competitivas.
A mesma questão é destacada por Evandro Oliveira, analista de mercado da SAFRAS & Mercado. Para ele, o principal problema estrutural da cadeia brasileira é econômico-financeiro, com destaque para o elevado custo de produção. Segundo Oliveira, em algumas regiões do Tocantins o custo pode se aproximar de R$ 100,00 por saca, enquanto no Rio Grande do Sul fica ao redor de R$ 80,00 em áreas fora dos polos de maior eficiência. Com uma estrutura de custos elevada, explica, qualquer aumento mais forte da oferta ou queda das cotações rapidamente compromete a rentabilidade. “O produtor tem que estar sempre trabalhando no limite, com produtividade muito alta, no fio da navalha no custo de produção”, afirma.
Na avaliação do analista, o Paraguai avançou justamente ao reduzir gargalos produtivos e custos, tornando seu arroz competitivo nos principais centros consumidores brasileiros. Mais do que criar barreiras ao produto estrangeiro, Oliveira defende que o Brasil ataque as razões que dificultam a competição da produção nacional.
Um dos caminhos, segundo ele, seria melhorar a capacidade de exportação brasileira, permitindo que excedentes encontrem mercado fora do país e reduzindo a pressão sobre os preços domésticos. Oliveira aponta a necessidade de modernização portuária, ampliação das alternativas ferroviárias e hidroviárias e redução de entraves logísticos e burocráticos. O Tocantins é citado como exemplo: apesar da qualidade do arroz produzido em polos como Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão, a falta de uma estrutura mais competitiva de escoamento pelos portos do Norte limita, na avaliação dele, o potencial exportador da região.
Para Oliveira, não há necessidade de pulverizar a produção de arroz pelo território nacional, mas sim de fortalecer as regiões onde a cultura já demonstrou eficiência produtiva, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e polos do Tocantins. Nunes acrescenta que a concentração da produção também reflete o avanço tecnológico e a dificuldade de produtores menos preparados para enfrentar um ambiente econômico cada vez mais dinâmico, o que aumenta a importância de medidas que deem maior segurança à atividade.
Pressão também chega à indústria
Os custos elevados não se restringem à lavoura. O presidente do Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina (SindArroz-SC), Walmir Rampinelli, afirma que tributação, energia, logística e despesas industriais vêm reduzindo a competitividade do beneficiamento, enquanto a insegurança jurídica, tributária e trabalhista dificulta o planejamento das empresas.
Para Rampinelli, o equilíbrio da cadeia depende de margens minimamente sustentáveis em todos os elos. “O produtor precisa ter um custo de produção mais baixo, de forma que consiga fornecer o produto às indústrias em condições economicamente viáveis. As indústrias, por sua vez, precisam ter margem para beneficiar o arroz e fazê-lo chegar à mesa do consumidor com uma logística equilibrada e custos de transporte justos”, afirma.
Na avaliação do dirigente, a elevada carga de impostos pode comprometer a rentabilidade tanto da produção quanto da indústria, enquanto as questões trabalhistas ampliam custos e inseguranças. Por isso, além de medidas voltadas à redução do custo de produção, Rampinelli aponta a necessidade de maior estabilidade das regras e de melhorias na logística para preservar a competitividade da cadeia.


