Arroz importado muda de porto para pagar tarifa menor

A cobrança de R$ 0,33 sobre cada saco de 50 quilos de arroz que entre ou seja produzido no Rio Grande do Sul está sendo operacionalizada e deverá diminuir ainda mais as condições das indústrias gaúchas de competir.

A perda da competitividade da indústria gaúcha de arroz está mudando a rota de entrada do grão importado no País. O Rio Grande do Sul produz 56% da safra nacional e possui o maior parque de beneficiamento de arroz, mas a guerra fiscal entre os estados torna o produto industrializado fora do País mais barato em grandes pólos de consumo, como São Paulo e Minas Gerais.

Entre 2004 e 2007, as importações gaúchas de todos os produtos de arroz recuaram 65,7%, enquanto as importações totais do Brasil mantiveram-se no mesmo patamar (veja o gráfico). E essa tendência tende a se agravar ainda mais, com o início da cobrança da polêmica Contribuição para o Desenvolvimento da Orizicultura (CDO). A cobrança de R$ 0,33 sobre cada saco de 50 quilos de arroz que entre ou seja produzido no Rio Grande do Sul está sendo operacionalizada e deverá diminuir ainda mais as condições das indústrias gaúchas de competir.

Em um momento de câmbio atraente para as importações, a tendência de perda de competitividade gaúcha tende a se acentuar. Para analistas e industriais, ganham as companhias de porte nacional, que podem importar o arroz do Mercosul diretamente para o local de destino. E, para um analista do setor, firma-se uma tendência de consolidação do mercado nas mãos dos grandes players, especialmente dos líderes Camil Alimentos e Josapar.

Às outras indústrias do setor resta buscar estrutura para competir. “Já temos um entreposto em São Paulo e vemos que a importação do arroz beneficiado diretamente nos destinos é praticamente a única saída. Mas isso não é para qualquer um: importar exige um fluxo de caixa forte”, afirma Élio Coradini, do Engenho Coradini, de Dom Pedrito (RS). A companhia tem capacidade para processar dois milhões de sacos de 50 quilos de arroz por safra.

Coradini diz que a guerra fiscal acabou gerando uma situação extremamente favorável ao produto beneficiado do Mercosul. Segundo ele, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que incide sobre o arroz nacional que entra em São Paulo é de 12%, enquanto o produto do Mercosul paga só 7%.

“No caso de Minas Gerais, que entrou nessa guerra no ano passado, o arroz gaúcho paga 12% e o importado não paga nada”, afirma o industrial, que é também presidente do Sindicato da Indústria de Arroz do Rio Grande do Sul (Sindarroz-RS). Para ele, as tarifas diferenciadas de ICMS estão incentivando a importação do produto já beneficiado e, muitas vezes, embalado.

Na análise do presidente da Cooperativa Tritícola Caçapavana (Cotrisul), Luis Eugênio Dias dos Santos, os exportadores argentinos e uruguaios procuraram outros mercados porque a entrada de arroz no Rio Grande do Sul é sempre cercada de uma “celeuma”, em que produtores bloqueiam fronteiras e exigem testes fitossanitários. “A CDO pode ser um motivador a mais para esse movimento”, constata Santos.

Com o preço atual por volta de R$ 20 a saca para o produtor gaúcho, a CDO de R$ 0,33 representa cerca de 1,5% a mais no custo do produto. A contribuição será destinada ao Instituto Rio-Grandense do Arroz (Irga), entidade mista do governo estadual e dos produtores, que defende a cobrança. “A CDO não pode ser responsabilizada pela queda nas importações gaúchas porque está começando a ser operacionalizada agora”, afirma Maurício Fisher, presidente da entidade. Os valores recolhidos serão destinados a pesquisas e apoio a produtores.

Fisher avalia que a queda na entrada de arroz não é um bom sinal para os rizicultores gaúchos, uma vez que indica que o preço local está baixo. Além disso, os preços no estado são formados a partir do valor de venda do produto final em outras regiões, onde a competição com o importado deprime os preços. Enquanto um fardo de 30 quilos do grão beneficiado gaúcho chega a São Paulo entre R$ 32 e R$ 33, há ofertas importadas a R$ 27,50, diz Coradini.

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