Camil reutiliza casca de arroz como biomassa e gera 335,7 MWh de energia limpa
Companhia reaproveitou 98,4 mil toneladas de casca de arroz em termelétricas e passou a gerar 73% da eletricidade consumida nas operações
(Por Letícia Ozório/Exame.) A Camil, líder na produção de arroz e feijão no Brasil, conseguiu cortar custos com energia e compra de fertilizantes. O motivo? A companhia reaproveitou cerca de 98,4 mil toneladas de casca de arroz , resíduo principal da sua operação no país, em fonte para usinas termelétricas movidas à biomassa.
A empresa informou com exclusividade que só em 2025, a estratégia de reaproveitamento dos materiais rendeu 335,7 MWh de energia, que abastece a operação interna. A iniciativa dá fim ao principal subproduto da rizicultura: a casca, que costuma não ter aproveitamento no mercado.
O projeto, de acordo com a diretora de operações da Camil, Stella Natrielli, surgiu após perceber os gastos que a companhia tinha para descartar a casca do arroz. “Processamos milhares de toneladas de toneladas de arroz, e a casca é inerente ao processo. A ideia surge quando pensamos como transformar esse custo com o tratamento de resíduos em uma vantagem competitiva”, explica em entrevista à EXAME.
Cerca de 73% da energia consumida pela fabricante de alimentos, que conta com duas termelétricas para abastecer a sua produção, já derivam dessa fonte limpa e renovável. “Ao invés de levar para o aterro, conseguimos transformar em biocombustível. A queima gera vapor, que movimenta as turbinas e gera energia elétrica”, conta Natrielli.
Economia circular na Camil
Ao final do processo, as cinzas da queima das cascas também são reutilizadas. Só no ano passado, a Camil transformou cerca de 45,2 mil toneladas de cinzas em fertilizantes naturais, que retornam às lavouras para fornecer nutrientes na produção de arroz, feijão, cana-de-açúcar e outros produtos usados nas marcas da Camil, como União, Coqueiro, Mabel e Santa Amália.
“Além de fomentar o trabalho dos produtores, que podem usar o valor que seria gasto com fertilizantes para desenvolver suas lavouras, também contribui com a cultura de arroz”, conta a diretora de operações. “Não só estamos disponibilizando para eles um fertilizante natural, mas também fechamos o ciclo da cadeia do arroz na própria região onde ele é plantado.”
De acordo com Stella Natrielli, as iniciativas de reaproveitamento da casca do arroz são parte da responsabilidade da Camil, hoje dona da maior participação no mercado de arroz e feijão no Brasil. Nos outros seis países em que a fabricante opera na América Latina, a busca pela economia circular passa ainda por outras cadeias e usos, como Uruguai, onde os resíduos da produção do arroz e do café são usados para gerar uma pavimentação sustentável.
Outras ações adotados pela Camil ao redor dos país incluem usar as vísceras e resíduo do pescado para criar farinha e óleo com alto teor proteíco para a nutrição animal. Natrielli explica que o trabalho faz parte da iniciativa da companhia que já chegou a 95% de reaproveitamento dos resíduos. “Certificamos recentemente três fábricas de massas e biscoitos com a política do aterro zero”, conta.
Com a adoção da estratégia de energia a partir de biomassa da casca do arroz, a Camil consegue ainda fugir da instabilidade dos preços da energia, que ficam associados à oferta mundial e sofre com impactos da geopolítica. “Isso não só melhora os nossos custos, mas também evita que as mudanças de preço cheguem até o consumidor”, conta.
Sustentabilidade na produção de alimentosA diretora de operações explica que a economia circular e outros temas de sustentabilidade entram diretamente na estratégia da companhia uma vez que ela é parte para a remuneração dos executivos, o que ajuda a garantir que o tema esteja no centro da operação. “Contamos hoje com um comitê de ESG e ética, que garantem que os investimentos que fazemos dentro do tema estejam alinhados com o mercado”, afirma.
O tema se relaciona, justamente, com a base do negócio: os alimentos. “Nosso setor é extremamente dependente das condições de clima, que impactam o preços das commodities. Não temos 100% de controle, mas como pudermos incorporar práticas e soluções à operação, vamos incorporar”, explica Natrielli.
A busca por soluções limpas também entra no escopo de trabalho do grupo de alimentos. A Camil inaugurou há poucas semanas uma nova fábrica em Cambaí, no Rio Grande do Sul, que demandou investimentos de R$ 460 milhões.
A nova unidade, de acordo com a diretora de operações, já foi preparada para funcionar dentro de todos os padrões de sustentabilidade: o plano não era apenas garantir que tivesse uma grande capacidade, mas também que gere menos resíduos e utilize energia renovável gerada a partir da casca do arroz. “É uma operação que nasce pronta, baseada no ESG e que passa a ser modelo para o setor de alimentos”, explica.


