Coriscal pede a liquidação
Cooperativa Agrícola Cachoeirense Ltda (Coriscal) de Cachoeira do Sul (RS) terá dois anos para pagar dívidas ou fechará as portas de vez .
A Cooperativa Agrícola Cachoeirense (Coriscal) pedirá no próximo dia 30, em nova assembléia extraordinária dos associados, o início do processo de liquidação voluntária da sociedade. Na prática, a diretoria da Coriscal está pleiteando entregar, para até três cidadãos, a administração da entidade.
O objetivo é dar transparência ao processo administrativo e identificar prováveis falhas no gerenciamento da instituição. A Coriscal tem hoje 1.246 associados e uma dívida de R$ 6,5 milhões. Este valor está nas mãos de produtores que fizeram empréstimos e não conseguiram pagar.
O presidente da Coriscal, José Derli Mouralles, revelou ontem que desde março, quando assumiu o cargo, duas auditorias foram feitas e, em ambas, foi constatado que o problema atual é reflexo da liberação de crédito fácil para associados.
– Cerca de 90% dos produtores que estão devendo para a Cooperativa buscaram nossa ajuda por não terem crédito em bancos para fazer a safra. As administrações anteriores da cooperativa agiram mais com o coração do que com o sentido lógico da administração – lamenta Mouralles.
VOLTA
A Coriscal já esteve em processo de liquidação em 1992, quando passou por uma crise tão grande quanto a dos dias atuais. José Derli Mouralles, que foi um dos liquidantes, lembra que naquela época as dívidas da cooperativa eram até maiores do que as de hoje.
– Acredito que vamos dar a volta por cima, assim como aconteceu em 92 – resume Mouralles. O presidente destaca que o carro-chefe do programa de recuperação financeira, a parceria com a Cereal Araguaia para triplicar a capacidade de industrialização de arroz, está mantido.
Neste processo de liquidação da Coriscal, os liqüidantes (especialistas que passarão a controlar a cooperativa) irão manter um relacionamento muito íntimo com o Ministério Público, podendo levar informações para a Justiça a fim de responsabilizar administradores que cometeram falhas na condução da entidade.
IMPORTANTE
O presidente da Cooperativa Agrícola Cachoeirenses, José Derli Mouralles, destaca que a cooperativa recuperou dívidas entre os meses de abril e julho equivalentes a cerca de 60 mil sacos de arroz.
– Existe como operar com sobra de caixa. O nosso grande problema foi que alguns produtores se apavoraram e entraram na Justiça pedindo a retirada do arroz que precisa ser usado pela cooperativa neste processo de recuperação das contas. Mensalmente, com a indústria velha, estávamos registrando média de 15 mil sacos de arroz – enfatiza Mouralles.
PARA ENTENDER MELHOR
O problema da Coriscal
* A Coriscal tem uma dívida de R$ 6.516.000,00 com seus associados. Este dinheiro está nas mãos de cerca de 380 outros associados que não conseguiram pagar empréstimos feitos nos últimos anos.
* A crise no agronegócio, com arroz sendo vendido por menos do que o custo de produção e sem uma política do Governo Federal para ajudar os lavoureiros a evitar prejuízos ou recuperar as perdas, e o alto índice de inadimplência atingiram em cheio as cooperativas.
* A Cooperativa Agrícola deveria ter em seus estoques pelo menos 1 milhão de sacos de arroz, mas hoje tem pouco mais de 500 mil. Destes, menos de 100 mil sacos de arroz são dos associados, 381 mil sacos são da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab/Governo Federal). Os outros 95,2 mil sacos são do Banco do Brasil.
* Para superar a crise, a Coriscal está buscando empréstimos com bancos e colocará em funcionamento, no mês de novembro, a nova indústria. Em uma parceria com a Cereal Araguaia, empresa de Goiás, a Coriscal irá triplicar sua capacidade de beneficiamento de arroz, podendo industrializar cerca de 300 mil sacos ao mês em seu complexo.
TRÊS PERGUNTAS PARA
José Derli Mouralles, presidente da Coriscal
E se a liquidação não reverter o problema?
– Ao final do primeiro ano de liquidação, a Coriscal já poderá sair desta situação ou então pedir mais um ano de prazo. Após dois anos, se a situação financeira não se resolver, a solução será fechar as portas e vender o patrimônio para pagar dívidas. Em último caso, pode se afirmar que existem bens suficientes para pagar as contas. Somente a marca Coriscal, que vai no arroz que é industrializado pela cooperativa e vendido no Rio Grande do Sul e estados do centro do Brasil, está avaliada em R$ 12 milhões. Temos uma empresa de aviação agrícola com uma aeronave e hangar, temos duas áreas no interior, a indústria e os prédios.
Qual seria o reflexo do fechamento da Coriscal para Cachoeira do Sul?
– Além dos 200 empregados, o principal benefício gerado pela Coriscal para Cachoeira do Sul é a participação no índice de retorno do ICMS. Neste caso, o imposto que é pago ao Governo do Estado retorna para os municípios conforme o valor com que cada cidade agrega à produção. Vendendo o arroz em casca, para ser industrializado fora da cidade, como já acontece com cerca de 50% da safra, a cidade não tem nenhum lucro. Quando ela industrializa a produção e até mesmo produtos de fora, passa a somar ao seu índice de retorno do ICMS. Nas últimas décadas a cidade vem perdendo significativamente neste índice.
Como está a busca de empréstimo junto aos bancos?
– As ações judiciais movidas pelos produtores, pedindo para retirar o arroz armazenado na cooperativa, acabaram prejudicando a busca por linhas de crédito. Eu não tiro a razão destes produtores, pois a situação é delicada. Com isso, os agentes financeiros estão mais exigentes na análise de crédito. Nenhum banco fechou as portas para nós, mas as respostas até agora são de que os pedidos estão sendo analisados. Temos produtores capitalizados que estão dispostos a serem avalistas de empréstimos.
ATENÇÃO
A Cooperativa Tritícola Cachoeirense (Cotricasul), que também está passando por uma grave crise, com dívidas de R$ 8,7 milhões, também está esperando pelo socorro dos bancos para se recuperar. O presidente da Tritícola, Nelson Schramm Júnior, disse ontem que não está descartada a possibilidade da sua cooperativa também entrar em processo de liquidação.
– Se a situação não se resolver, podemos ir para este mesmo caminho – resumiu o presidente.


