Desinformação sobre o Irga trai vice-governador Feijó
Paulo Feijó critica o Irga, desconhece sua função e importância para a sociedade gaúcha e não sabe que a lavoura é quem sustenta a entidade. E que o Estado se apropriou dos recursos dos arrozeiros.
Traído pelo desconhecimento do tema, o vice-governador eleito do Rio Grande do Sul, Paulo Feijó, questionou na semana que passou, em um encontro com acadêmicos, a importância de instituições como o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) para a sociedade gaúcha.
Ele defende a privatização destes organismos, declarando-se liberal. É acusado de tentar desmontar o Estado, pelos partidos que lhe fazem oposição. E gera constrangimentos para a governadora eleita, Yeda Crusius, no momento que busca um acordo que lhe dê maioria na Assembléia Legislativa.
As declarações de Feijó, publicadas no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, repercutiram muito mal na lavoura arrozeira. E aconteceram justamente no dia que os 76 conselheiros do centro de pesquisas, juntamente com a diretoria, analisava o relatório da gestão 2002/06, estabelecia um planejamento estratégico para 2007/08 e comemorava os resultados do Programa Arroz RS, um marco no desenvolvimento da orizicultura gaúcha.
Entre os conselheiros, funcionários e integrantes da Fundação Irga que comentaram o assunto, é unânime a opinião de que Feijó está mal informado. Ou mal intencionado.
Do faturamento anual de R$ 40 milhões, que vem da Taxa de Contribuição Para o Desenvolvimento da Orizicultura (CDO), o caixa único do Estado só repassou pouco mais de R$ 10 milhões ao instituto em 2006, ou seja, se apropriou de quase R$ 30 milhões dos arrozeiros do Rio Grande do Sul, que deveriam estar recebendo o retorno em ações de extensão, pesquisa, incentivo ao consumo e planejamento estratégico.
Cada arrozeiro desconta R$ 0,32 por saco de 50 quilos de arroz, durante a comercialização, para os trabalhos de pesquisa, extensão e apoio ao mercado, desenvolvidos pelo instituto.
Infeliz foi a crítica de menor relevância, ouvida na reunião do Conselho Deliberativo do Irga. A Associação dos Funcionários e a Fundação Irga divulgaram nota em resposta às críticas de Feijó, convidando-o a visitar o Irga, a lavoura de arroz do Rio Grande do Sul, as indústrias e toda a Metade Sul do estado, que tem na orizicultura sua principal fonte de renda e seu grande parque industrial. Estima-se que 240 mil pessoas vivam da cadeia produtiva do arroz no Rio Grande do Sul, que tem cerca de 300 indústrias concentradas nas zonas mais pobres do estado.
São 15 mil produtores, 10 mil lavouras e mais de um milhão de hectares plantados, em média, na única cultura adaptada e rentável para as condições de várzeas gaúchas, que chegam a 3,5 milhões de hectares no estado.
Em 2006, o estado representou 57% de todo o arroz produzido no Brasil. Mais de 60% das variedades plantadas no estado foram desenvolvidas pelo Irga, algumas de grande impacto no salto de produtividade e no novo padrão de qualidade da lavoura, como a Irga 422CL, que praticamente eliminou o arroz vermelho das lavouras, e a Irga 417, referência em qualidade de grão em todo o Brasil. Nos quadros de funcionários do Irga estão alguns dos mais renomados cientistas do país, entre eles alguns com renome mundial pelo desenvolvimento do tipo moderno de plantas de arroz irrigado.
Enfim, a lavoura de arroz do Rio Grande do Sul só é líder no país, e ajuda decisivamente a fazê-lo um dos 10 maiores produtores de arroz do mundo, garantindo a segurança alimentar do Brasil, pela decisiva atuação do Irga. Paulo Feijó, decididamente, não sabe disso. Ou não quer saber, pois já teve uma reunião na qual recebeu informações técnicas desta instituição.
A boa notícia a partir das críticas de Feijó é que alguns setores da orizicultura estudam ingressar na Justiça com uma ação contra o Governo do Estado, para obrigar o repasse direto da CDO ao Irga, sem passar pelo caixa único. E que ampliou-se a expectativa para que estes recursos sejam passados diretamente para a Fundação Irga, recém criada, que assumiria a gestão do órgão.
O político acreditava que era o Governo do Estado quem subsidiava o Irga. Também afirmou que a instituição, entre outras, serve de cabide de empregos. Todos os funcionários do Irga são celetistas e não geram aposentadoria para o Estado, pois estão vinculados ao INSS. Na pior das hipóteses, isso dá argumentos suficientes para o Irga investir em seu quadro técnico, em detrimento das indicações políticas, uma praxe histórica nesta autarquia.
Há 36 anos o instituto não realiza um concurso público. Na década de 80 houve uma prova de seleção, apenas. Todo o quadro de pesquisadores é contratado, alguns por convênio com instituições, como é o caso de um grupo de cientistas chineses que desenvolvem um arroz híbrido capaz de aumentar em até 25% a produtividade sobre a lavoura gaúcha.
As fortes declarações do vice-governador eleito, agora, geram grande expectativa sobre a indicação do futuro presidente do instituto, escolhido pelo governador do Estado. O indicado, se alinhado à Feijó, sofrerá grande pressão do setor produtivo, gerando mais um constrangimento para a governadora eleita, Yeda Crusius, matéria na qual o vice está se consagrando um especialista.


