Domínio da Índia no comércio global de arroz acende alerta para crise hídrica

 Domínio da Índia no comércio global de arroz acende alerta para crise hídrica

(Por Planeta Arroz) O avanço da Índia como maior produtora e exportadora mundial de arroz tem reforçado sua liderança no comércio global, mas também expõe um problema crescente: a exploração insustentável dos recursos hídricos. Responsável por cerca de 40% das exportações mundiais do cereal, o país embarcou mais de 20 milhões de toneladas no último ano fiscal, quase o dobro do volume de uma década atrás.

O crescimento, porém, cobra um preço elevado nas principais regiões produtoras. Nos estados de Punjab e Haryana, celeiros do arroz indiano, a dependência quase total de águas subterrâneas tem levado a uma queda acelerada do lençol freático. Onde antes a água era encontrada a cerca de 9 metros de profundidade, hoje os poços precisam atingir entre 25 e 60 metros, elevando drasticamente os custos de produção.

Dados oficiais mostram que esses estados extraem entre 35% e 57% mais água do que os aquíferos conseguem repor anualmente, levando grande parte das áreas à classificação de “superexploradas” ou em nível “crítico”. Mesmo com boas monções nos últimos anos, o volume retirado supera a recarga natural.

Especialistas apontam que o modelo é sustentado por políticas públicas que garantem preços mínimos elevados para o arroz — com alta de cerca de 70% na última década — e por subsídios à energia, que barateiam o bombeamento de água. O resultado, segundo analistas, é que um dos países mais pressionados pela escassez hídrica acaba incentivando o cultivo de uma cultura altamente dependente de irrigação.

Produzir um quilo de arroz na Índia consome entre 3.000 e 4.000 litros de água, até 60% acima da média global. Agricultores de maior porte ainda conseguem manter a rentabilidade, mas os pequenos produtores são os mais afetados pelo aumento dos custos com poços mais profundos, bombas potentes e manutenção.

Há tentativas pontuais de mudança. O estado de Haryana passou a oferecer incentivos financeiros para a substituição do arroz por culturas menos exigentes em água, como o painço. No entanto, o apoio é temporário e, até agora, insuficiente para promover uma migração em larga escala. Especialistas defendem políticas de longo prazo e a reorientação dos subsídios para garantir renda ao produtor sem aprofundar a crise hídrica.

Com produção acima das necessidades internas e papel central no abastecimento mundial, a Índia se vê diante de um dilema estratégico: manter o domínio no mercado global de arroz ou reavaliar o modelo produtivo para preservar seus recursos naturais. O debate, cada vez mais, deixa claro que a segurança hídrica pode se tornar o principal limitador do crescimento do setor.

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