Entenda a crise do campo
Razões que levam ao Tratoraço e ao protesto dos arrozeiros.
Perda de produção, queda no faturamento bruto, perda de renda, preços em queda, custos em alta e defasagem cambial. Esta explosiva combinação de fatores está levando o setor agropecuário brasileiro a enfrentar o que as lideranças agrícolas estão chamando de a pior crise de todos os tempos.
O pedido de socorro está chegando a Brasília. Na próxima semana, entre 28 e 30 de junho, cerca de 15 mil produtores rurais de 12 estados desfilarão mais de 2 mil máquinas e tratores na Esplanada dos Ministérios.
Além de chamar a atenção das autoridades para os problemas que geram a crise e trazer propostas de solução, os agricultores chegam com uma outra missão específica: mostrar os efeitos que esta crise pode trazer não só para o setor produtivo, mas para toda a sociedade. E eles vão trazer números.
Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a renda gerada dentro da porteira da fazenda é estimada em R$ 150,69 bilhões para 2005. Para outros setores responsáveis pela venda de insumos, serviços, processamento dos alimentos e transporte, a renda foi projetada em R$ 536,7 bilhões.
A CNA avalia que a crise da agropecuária terá reflexo negativo principalmente sobre o PIB (Produto Interno bruto) nacional, a geração de emprego, os baixos preços dos alimentos, as exportações agropecuárias e a arrecadação tributária. A queda na produção, combinada com a redução dos preços reais recebidos pelos produtores e aumento do custo de produção reduziram a renda da agricultura mensurada pelo PIB.
Considerando apenas as lavouras, com base nas informações até março, o PIB projeta queda de 10,5%, o que representa uma redução de renda de R$ 95,43 bilhões em 2004, para R$ 85,40 bilhões em 2005, com perdas de R$ 10 bilhões aos agricultores. O setor agropecuário é responsável por 30% do PIB nacional.
Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, de janeiro a maio deste ano o segmento rural já deixou de contratar 30,6 mil trabalhadores. Nos cinco primeiros meses de 2005, o setor gerou 107,1 mil empregos, enquanto em igual período do ano passado foram criados 137,9 mil.
– A forte retração de demanda por insumos modernos e máquinas também afetarão negativamente a geração de empregos nos demais segmentos da cadeia produtiva – aponta a CNA.
A crise afeta mais fortemente alguns setores, em especial as culturas de soja, arroz, milho, algodão, trigo, feijão, vinho e bovinocultura de corte. No caso do algodão, a redução no faturamento bruto foi de R$ 1,5 bilhão, em decorrência da queda de 35% dos preços médios nacionais.
O arroz registrou uma queda de R$ 3,1 bilhões no faturamento bruto em relação às vendas do ano passado, devido aos preços baixos e competição com o arroz importado do Mercosul. Além disso, os atuais preços de mercado estão muito abaixo do custo de produção.
Na cultura do milho, a queda da receita bruta é de R$ 3,9 bilhões em relação às vendas da safra passada e os preços de comercialização em diversos estados não cobrem as despesas dos produtores com o plantio. O mesmo acontece com a soja, cujo valor bruto da produção caiu R$ 16,1 bilhões na comparação com o ano passado.
Na pecuária bovina, o aumento dos custos de produção e a queda nos preços de comercialização levaram a uma queda de R$ 2,5 bilhões no valor bruto da produção. A capacidade financeira de produtores de trigo, mandioca, feijão, frutas e outros produtos também caiu significativamente.
A perda de 18,2 milhões de toneladas registradas na safra 2004/2005 também influenciou na crise no setor agropecuário. Os produtores investiram o suficiente para ter uma produção de 131,9 milhões de toneladas, mas problemas climáticos como a seca na região Sul e irregularidades de chuvas no Centro-Oeste reduziram a produção para 113,6 milhões de toneladas. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a redução projeta um prejuízo de até R$ 10 bilhões. A falta do seguro agrícola, na avaliação dos produtores, piora o quadro.
A defasagem cambial prejudica os produtores na medida em que compraram os insumos para plantar a safra 2004/2005 com o dólar cotado entre US$ 3,20 a US$ 3,40, aumentando em 12%, em média, o custo de produção. Agora, no momento da comercialização, o câmbio caiu 23,5%, para apenas US$ 2,40. Isso levou ao endividamento dos agricultores junto aos fornecedores de defensivos, fertilizantes e outros insumos. Este é o cenário que vai ser apresentado em Brasília na próxima semana.


