Entre a conta amarga e a virada possível

Ser penalizado pela eficiência é a frase que resume a atual conjuntura do arroz no Rio Grande do Sul e no Brasil. Em 2025, colhemos uma das maiores safras da história, em um cenário de oferta mundial folgada, retorno da Índia ao mercado global, juros altos, crédito travado e custos ainda elevado.

Resultado: preços desabaram; estoques e dívidas cresceram. No RS, que produz 70% do arroz do país, a grande safra virou “conta amarga”: produziu-se muito, recebeu-se pouco e a capacidade de investir nesta safra foi comprometida. E isso empobreceu a lavoura, municípios e estados arrozeiros. É nesse ponto de tensão que começa a se desenhar uma virada possível.

Se há algo novo nessa crise é a maturidade das entidades, que conseguiram arrancar dos governos ações para mitigar o impacto em pleno pico da entressafra. Em vez de esperar a tempestade perfeita, o setor se antecipou: recomendou a redução da área plantada, acionou PEP e Pepro para escoar excedentes, aceitou AGF mais racional como último recurso, transformou a taxa CDO em instrumento de política econômica, busca calibrar o ICMS para competir com o arroz externo, articula a desconcentração de vencimentos de CPRs, o alongamento de custeios e uma ofensiva contra o “arroz fora de tipo”, que desorganiza preços e destrói reputações. Essas frentes — produtiva, comercial, tributária, financeira e de qualidade — compõem um plano consistente para atravessar o período mais crítico sem destruir a base produtiva. Mas é preciso exportar.

“No curto prazo, é ilusório prometer milagres”

No curto prazo, é ilusório prometer milagres diante da conjuntura de oferta local e global. Mas é realista afirmar que as ações em curso, somadas a boas estratégias de comercialização e à safra 2026/27, podem nos levar de volta aos níveis históricos de renda.

Ajustar a área ao tamanho do mercado, enxugar estoques com inteligência, organizar o fluxo de caixa do produtor e assegurar que o consumidor pague por aquilo que está levando (Tipo 1 de verdade) são passos concretos para reconstruir preços minimamente justos e recuperar a capacidade de investimento.

O grande desafio — e a grande oportunidade — é usar essa travessia para preparar a lavoura do futuro: integrada a outras culturas e à pecuária, mais eficiente em água e energia e conectada a mercados que valorizem qualidade e sustentabilidade.

Se o produtor tiver renda, crédito e segurança de regras, seguirá entregando não apenas volume, mas inovação e qualidade superior; a crise é dura, mas não definitiva, e o arroz gaúcho ainda tem muito futuro para colher.

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