Indústria do arroz deixa o Centro-Oeste rumo ao Sul
As indústrias que foram do Sul para o Centro-Oeste voltaram ou trouxeram parte da linha de produção.
Dez anos depois, o sonho acabou. O Eldorado do arroz em Mato Grosso não se concretizou e o fluxo migratório se inverteu: as indústrias que foram do Sul para o Centro-Oeste voltaram ou trouxeram parte da linha de produção.
Outras, daquela região, instalaram filiais no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, atrás da matéria-prima que ficou escassa no cerrado, ou até no chamado “Mapito” – área que congrega os estados do Maranhão, Piauí e Tocantins.
Naquele final da década passada, indústrias do Sul do País migraram de olho em um mercado promissor: Mato Grosso tinha passado de uma safra de 690 mil toneladas (1996/97) para 1,7 milhão de toneladas (1998/09).
Acreditando na oferta de matéria-prima e na redução do frete para atender aos mercados do Nordeste e Centro-Oeste, as empresas arrendaram fábricas e investiram em instalações. Com isso, o estado chegou a ser o segundo maior produtor do cereal – 2 milhões de toneladas na temporada 2004/05 e 260 indústrias. Atualmente é o quarto no ranking nacional, com 680 mil toneladas e apenas 28 indústrias.
– O arroz foi o voltou. Naquela época era a bola da vez. E acabou dando no que deu – diz Carlos Cogo, diretor da Cogo Consultoria Agroeconômica.
– Muitas indústrias, diante da escassez de oferta de matéria-prima estão vindo para o Sul – diz o analista de Mercado do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), Tiago Barata.
É o caso da Tio Ico – de Mato Grosso – que arrendou uma unidade em Viamão (RS). Joel Gonçalves, presidente da empresa e também do Sindicato da Indústria de Mato Grosso (Sindarroz/MT), diz que está estudando investir no Rio Grande do Sul.
– Vou ficar no Sul para atender meus clientes do Sudeste, que é mais barato – afirma – ele procura uma área onde instalar a empresa, avaliando a produção e a logística.
A Tio Ico benefica 350 mil fardos (30 quilos) no Sul e outros 900 mil fardos no Centro-Oeste.
Para Gonçalves, muito mais que a queda na produção, foi a logística a principal responsável pela debandada das empresas de Mato Grosso – apesar de que grande parte das que voltaram afirmarem que foi a escassez de matéria-prima. Ele lembra que muitas migraram para o Nordeste do País, a oferta de matéria-prima tem crescido.
– A produção vai crescer lá (no Mapito) porque eles demandam muito arroz de fora, mas a ida das indústrias será em ritmo mais lento – acredita Cogo.
Uma grande indústria do Sul que se instalou em Mato Grosso no início desta década, que prefere não ser identificada, optou por uma “volta moderada”: desativou uma das linhas de produção naquele estado, transferindo o maquinário para as unidades sulistas.
Opera agora apenas com um tipo de produto em Mato Grosso, que atende o Norte.
Outra que deixou o estado foi a Blue Ville – ficou cinco anos. O diretor-comercial da empresa, Silmar Fernandes, diz que não se arrepende.
– Foi uma oportunidade boa na época – afirma.
Segundo ele, a indústria chegou a procurar terreno para ter unidade própria, mas percebeu que a expansão da lavoura não ia ser contínua.
A solução foi abrir centros de distribuição e empacotamento no Nordeste, para onde envia o cereal por cabotagem.
– O arroz de sequeiro muda muito, se um ano não dá preço bom, o produtor planta outra cultura, é diferente do Sul do País, onde é irrigado e não tem outra opção – afirma Fernandes.
É por isso que, apesar do crescimento da produção do Mapito, a empresa não pensa ter beneficiamento no Norte e Nordeste.
– Várias foram experimentar e voltaram – diz o secretário-executivo do Sindarroz/RS, César Gazzaneo.
Na sua avaliação, o que ocorreu em Mato Groso é que o arroz era abertura de área e, à medida que outras culturas ficaram economicamente mais interessantes, foi trocado.
– O arroz ficou relegado e não houve aquele Eldorado que todo mundo esperava – conclui.
O resultado é que, pelos cálculos do presidente do Sindarroz/MT a capacidade ociosa das indústrias no estado atualmente é de cerca de 60% – as instalações poderiam beneficiar 1 milhão de toneladas.
Intervenção
Em reunião ontem, durante a 31ª Expointer, em Esteio (RS), o governo e a cadeia produtiva decidiram que a próxima operação de venda dos estoques governamentais será no dia 16 de setembro, com a oferta de 50 mil toneladas de arroz do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Outros dois leilões serão realizados nos dias 1º e 15 de outubro. Uma nova reunião está marcada para o início do próximo mês.


