Indústria do Mato Grosso quer estoques da Conab
São 203 mil toneladas que poderiam suprir parte da demanda por matéria prima da indústria do Estado. Expectativa é de que os estoques privados terminem em curto prazo.
A indústria de beneficiamento de arroz do Mato Grosso começa a se articular para buscar a liberação das 203 mil toneladas de arroz em casca dos estoques reguladores da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Os contatos já começaram. O produto foi comprado pelo preço mínimo aos produtores mato-grossenses em 2005 e armazenado em armazéns credenciados.
Segundo o presidente do Sindicato da Indústria da Alimentação do Mato Grosso (Siamt), Marco Antonio Lorga, a colheita 2005/06 não foi suficiente para abastecer integralmente os beneficiadores e a matéria prima está acabando no Estado. O desabastecimento foi agravado pelos bloqueios que os produtores do Norte do Mato Grosso estabeleceram nas estradas em maio.
Segundo Lorga, a demanda é imediata. Até o final do mês a indústria já precisa da garantia da liberação de matéria prima sob o risco de demitir em massa por não ter produto para trabalhar.
– O momento da indústria do Mato Grosso é muito difícil. O abastecimento está comprometido. As paralisações provocadas pelos produtores causaram sérios transtornos, mas o pior mesmo é que não há como competir com os preços hoje praticados pelo Rio Grande do Sul, que são muito baixos. Nossas marcas estão perdendo mercado e depois vai ser muito difícil recuperar explicou Lorga.
Segundo ele, não há como praticar o preço mínimo no Mato Grosso porque a indústria não consegue repassar na ponta, para o atacado e o varejo que está comprando arroz mais barato no Sul. As paralisações prejudicaram ainda mais, principalmente no que diz respeito aos custos de produção. Muitas empresas mantiveram o quadro de funcionários mesmo sem matéria prima para trabalhar. Mas as demissões já começaram.
Ainda segundo Lorga, nos 30 dias de paralisação só a indústria de arroz do Mato Grosso amargou uma queda de faturamento de R$ 15 milhões. O governo do Estado vem sentindo uma expressiva queda de arrecadação. Para o sindicalista, os produtores têm em suas mãos menos de 100 mil toneladas de arroz. E nem todo o volume é de boa qualidade. Por isso da liberação dos estoques da Conab no Estado, a partir de agora, dependerá a viabilidade da indústria arrozeira.
– O desabastecimento é claro e cristalino frisou o dirigente.
Para Marco Antonio Lorga, o maior receio da indústria do Mato Grosso é que não exista sensibilização por parte da Conab e do Ministério da Agricultura (Mapa) para agir rapidamente na liberação dos estoques do Mato Grosso.
– Se isso não acontecer com urgência, não teremos mais o que negociar. Vamos fechar as portas para esperar a safra que vem. Mas isso seria muito ruim para a cadeia produtiva, para o Estado e para quem trabalha no setor.
A alternativa de buscar matéria prima em outros estados, principalmente no Sul e nos países do Mercosul, como estão fazendo Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e outras regiões, é considerada complicada pelas indústrias do Mato Grosso. Se adquirirem produto fora do Estado, as empresas perdem o direito aos incentivos do programa PróArroz, que promove a isenção de impostos. Para o dirigente, o Mato Grosso não está a espera de um milagre.
– Precisamos é parar com a nossa política de bombeiros, apagando incêndios o tempo todo e passarmos a planejar melhor nossas ações como cadeia produtiva. Precisamos trabalhar em busca de soluções. O tempo de ficar na beira da estrada lamentando já passou. Mato Grosso com certeza vai superar esta crise.
SAFRA
Apesar de toda a crise, no Mato Grosso o arroz ainda foi o produto que melhor remunerou o produtor rural em comparação com outros produtos como milho, soja e algodão.
– Não acredito que os produtores rurais do Mato Grosso deixem de produzir arroz, pelo motivo de não ser viável deixar a terra nua. Diante das dificuldades financeiras irão buscar alternativas, principalmente os produtores de soja, em culturas alternativas e na diversificação. Isso me faz acreditar na manutenção da cultura do arroz para Mato Grosso, pois o custo é menor que outras.
Segundo dados da Conab, na safra 2005/06 o estado produziu 768,4 mil toneladas de arroz, ou 62,4% a menos do que os 2,04 milhões de toneladas de 2004/05. A área plantada caiu de 776,9 mil hectares para 287,5 mil/ha. Apesar de tudo, a produtividade aumentou de 2.630 kg/ha para 2.673 kg/ha.


