Irga encontra semente pirata de arroz em Cachoeira do Sul

Uma operação conjunta da Receita Federal e Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga) lacrou um depósito onde estavam estocados cerca de 3,5 mil quilos de arroz mutagênico, o 422-CL, desenvolvido pelo próprio Irga. Os grãos estavam no interior de Cachoeira do Sul (RS).
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Uma operação conjunta da Receita Federal e Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga) lacrou um depósito onde estavam estocados cerca de 3,5 mil quilos de arroz mutagênico, o 422-CL, desenvolvido pelo próprio Irga. Os grãos estavam na propriedade de Arno Rohde, na localidade da Barragem do Capané, no interior de Cachoeira do Sul (RS).

A operação, assistida por uma equipe da Brigada Militar, foi deflagrada no início da madrugada desta quinta-feira, depois de uma denúncia anônima informando que o arroz da propriedade brotou de uma semente comercializada clandestinamente. A cultivar teria sido comprada em Santa Maria por um revendedor não autorizado pelo Irga.

O produtor Arno Rohde alega que recorreu à semente clandestina porque por mais de 15 vezes tentou comprar do Irga as sementes originais 422-CL. “Eu tenho uma briga judicial com o Irga em função do uso da água da Barragem do Capané e acho que é por isso que eles não quiseram me vender”, justificou.

Na safra anterior, quando foi lançado o mutagênico, Rohde diz ter comprado 10 sacos de semente do 422-CL da empresa de Santa Maria. As sementes compradas em 2002 teriam sido trazidas do Uruguai, onde uma quantidade clandestina foi reproduzida para dar origem às sementes piratas.

O produtor garante que para a safra deste ano encomendou da mesma empresa de Santa Maria, que agora estaria vendendo legalmente o produto do Irga, 30 sacos de arroz da cultivar 422-CL. “Os 10 sacos que comprei e plantei na safra passada renderam mais de 1.000 sacos e é produto que está na minha moega. Este arroz não está limpo para ser usado como semente. Se ele for liberado eu irei vender para a indústria”, observa Rohde, que planta arroz há 50 anos e atualmente cultiva uma área de 250 hectares.

O uso de sementes piratas da cultivar 422-CL é comum entre os arrozeiros. “Eu sei de muitos casos, mas não vou entregar ninguém”, avisa Rohde. Ele tem cinco dias para recorrer da notificação feita pela Receita Federal pelo fato de ter em sua propriedade um suposto produto pirata. Os fiscais que estiveram na propriedade de Arno Rohde recolheram uma amostra dos grãos para confirmar a pirataria.

422-CL

A cultivar 422-CL, desenvolvida para o sistema Clearfield, foi criada pelo Irga e usa o herbicida Only, da Basf, para controlar o arroz vermelho, principal planta invasora da lavoura orizícola. O desentendimento entre o Irga e os produtores, que usam sementes piratas, é porque o 422-CL está sendo usado desde a safra passada com um rígido controle de distribuição.

Os pesquisadores alegam que não sabem qual será o resultado de um excessivo uso do sistema Clearfield, que elimina uma espécie nociva de arroz sem atingir o arroz produzido comercialmente. O medo é de criar um monstro na lavoura se o arroz vermelho assimilar resistência ao herbicida. A recomendação dos técnicos é para que não seja usado o sistema cleardfield mais que duas safras seguidas.

IMAZETAPIR

A Basf, detentora do herbicida Only, também aplica um rígido controle na venda do seu produto para evitar a propagação do arroz pirata. Para vencer todos os obstáculos impostos pelo Irga e pela Basf os produtores descobriram que poderiam usar outro herbicida que tem o mesmo princípio ativo do Only. A técnica não é apropriada e nem foi legalmente testada, mas o resultado do produtor Arno Rohde mostra que a adaptação deu certo.

O principio ativo do Only é o imazetapir, produto que pode ser encontrado em quase uma dezena de herbicidas recomendados para o cultivo de soja. O mais conhecido e que foi usado por Arno Rohde é o pivot, que também pertence a Basf, mas é para agir na plantação de soja.

A empresa Rice Tec também desenvolveu, assim como o Irga, uma semente resistente ao Only para aplicar o sistema Clearfield. A diferença é que a tecnologia ainda está ganhando algumas adaptações, já que estas sementes são hibridas. A vantagem da hibridação está no processo de combinar características e benefícios encontrados em duas linhas parentais que foram cruzadas.

Para produzir um híbrido é preciso identificar plantas do sexo masculido e feminino e plantá-las intercaladamente para buscar as características de cada uma em um único grão. Não há notícias de sementes piratas da Rice Tec.

PARA SABER MAIS

Em Cachoeira do Sul apenas sete produtores estão cadastrados junto ao Irga para plantar arroz da cultivar 422-CL, sendo que Arno Rohde não está nesta lista, assim como outros tantos não identificados ainda.

O cultivo de sementes piratas para controle do arroz vermelho pode ter conseqüências perigosas. A vantagem está no preço dos produtos usados nesta adaptação. Em média, os elementos com o princípio ativo idêntico ao do Only custa três vezes menos.

O sistema Clearfield recomendado pelo Irga e pela Basf determina a aplicação de um litro de Only para cada hectare de lavoura de arroz. A aplicação, por pulverização, deve ser feita quando a planta apresentar três folhas e aproximadamente 20 centímetros de altura.

A Basf apresentou no início deste mês, em Porto Alegre, os primeiro resultados das lavouras comerciais cultivadas no Rio Grande do Sul com o sistema Clearfield. Segundo o gerente de produtos da Basf, Leandro Martins, o rendimento do Clearfield foi em média 20% maior que os resultados históricos de produtividade nas áreas plantadas.

A safra 2003/2004 marcou o primeiro ano de uso do sistema Clearfield em lavouras comerciais, somando 5.960 hectares de área cultivada em 40 cidades gaúchas.

Para a safra 2004/2005, a Basf pretende disponibilizar junto com o Irga e com a Rice Tec sementes para cultivar pelo menos 100 mil hectares de lavoura.

Na safra 2003/2004 o sistema Clearfield foi usado legalmente por 98 produtores, que juntos representam uma área de 5.960 hectares, sendo que 4,5 mil para consumo e 1.440 para produção de sementes. Não previsão sobre o número de produtores que usaram sementes piratas.

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