Josapar realiza estudo para inaugurar sua primeira fábrica no MT

A decisão da Josapar consolida o movimento de expansão da cadeia de arroz no Centro-Oeste em detrimento do Rio Grande do Sul.

A gaúcha Josapar está prestes a concluir um estudo de viabilidade econômica para instalar, em dois anos, uma indústria de beneficiamento de arroz no Mato Grosso. “A empresa precisa concorrer no mercado de volume com as indústrias no Centro-Oeste para crescer”, diz Augusto Lauro de Oliveira Júnior, diretor de relações com o mercado e investidores da Josapar – uma das líderes no mercado nacional de arroz, com fatia de 10% das vendas.

O objetivo da empresa – que tem fábricas em Recife (PE), Itaqui e Pelotas (RS) e beneficia anualmente 12 milhões de fardos (360 mil toneladas) – é elevar a receita com venda em grande escala de produtos de qualidade mais baixa.

A decisão da Josapar consolida o movimento de expansão da cadeia de arroz no Centro-Oeste em detrimento do Rio Grande do Sul. Entre os fatores que estimulam essa tendência, que ganhou fôlego a partir de 2001, estão a melhora na qualidade do arroz produzido no Centro-Oeste com o lançamento de novas variedades, o custo de produção 30% menor que no Sul, gastos menores com transporte para as regiões Norte e Nordeste e os riscos menores de desabastecimento.

Ângelo Maronezzi, presidente da Associação dos Produtores de Arroz do Mato Grosso (APA-MT), observa que boa parte dos produtores ainda investe na cultura para abrir fronteira agrícola e fazer rotação com a soja. Mas diz que a maior presença das indústrias levou os agricultores a elevar a aposta efetiva no arroz nos últimos cinco anos. Segundo a Conab, a produção no Estado cresceu 65,2% desde a safra 2000/01, para 2,09 milhão de toneladas no atual ciclo. Segundo a APA-MT, as indústrias de arroz têm aplicado R$ 50 milhões por ano no Estado desde 2000.

Estudo do Sindicato das Indústrias de Alimentação do Mato Grosso aponta que, por conta desses investimentos, a capacidade das indústrias de arroz saltou de 900 mil para 1,65 milhão de toneladas por ano de 2001 a 2004. “Além da abertura de fábricas, há investimentos no aumento da capacidade produtiva”, diz Marco Antonio Lorga, presidente do sindicato e diretor da Federação das Indústrias do Mato Grosso. Ele observa que dos 2 milhões de toneladas de arroz produzidos por ano no Estado, apenas 180 mil são consumidos internamente. Entre as indústrias que investiram recentemente no Estado estão Camil, Urbano Agroindustrial e SLC Alimentos, todas oriundas do Sul do país.

A Camil, que beneficia 450 mil toneladas de arroz por ano, investiu R$ 5 milhões em 2004 para instalar uma unidade própria em Cuiabá (MT), com capacidade para 3,5 mil toneladas/mês. Jacques Quartiero, diretor de marketing da empresa, diz que a unidade foi montada para acelerar a produção de arroz de qualidade mais baixa que o longo fino tipo 1 (variedade produzida no Rio Grande do Sul) e para ampliar as vendas da empresa no Centro-Oeste, Norte e Nordeste. “As indústrias de marcas líderes concluíram que, para aumentar as vendas, precisam ganhar mercados novos e nichos”.

Isso também explica, segundo ele, os investimentos recentes de Camil, Josapar e SLC em unidades no Recife (PE), visando atingir o mercado do Nordeste. Segundo o IBGE, a região é a única no país onde cresce o consumo de arroz. No total, a Camil produz 37 mil toneladas de arroz por mês, sendo 4 mil no Recife, 3,5 mil em Cuiabá e o restante no Rio Grande do Sul.

José Luiz Gonçalves, sócio da Indústria Tio Ico Ltda, conta que atuava na distribuição de arroz e decidiu montar uma indústria de beneficiamento em Várzea Grande (MT) há oito anos, por conta da expansão do setor arrozeiro no Centro-Oeste. A empresa beneficia 3 mil toneladas de arroz por mês, vendidas no Nordeste, Centro-Oeste e São Paulo.

Outro investimento recente foi realizado pela SLC, que aplicou R$ 2 milhões entre 2004 e 2005 para instalar uma indústria de beneficiamento em Cuiabá (MT). A unidade começou a operar em setembro do ano passado, com média de 1,5 mil toneladas por mês. Neste ano, a empresa está dobrando a produção. Leomar Goldoni, gerente da cadeia de suprimentos da SLC, afirma que a empresa aumentará sua produção total em 15% neste ano, de 13,5 mil para 16 mil toneladas mensais.

“Temos capacidade para ampliar [a unidade] no Rio Grande do Sul, mas os custos são muito mais altos”, diz Goldoni. Segundo ele, as indústrias pagam cerca de R$ 0,39 por quilo no Rio Grande do Sul, 30% mais que no Mato Grosso. Segundo ele, o arroz corresponde a 80% do custo de produção das indústrias. A empresa conta com fábricas em Pelotas e Alegrete (RS).

Pery Coelho, presidente do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), observa que as lavouras de arroz irrigado no Rio Grande do Sul têm como fatores limitantes para crescer a escassez de água para alagamento das várzeas, os problemas climáticos e as crises de preços causadas pelas importações do Mercosul. Pressionadas pelo ingresso de arroz do Uruguai e da Argentina, que desde 1990 aumentaram suas áreas de 100 mil para 195 mil hectares e de 88 mil para 174 mil hectares, respectivamente, as cotações médias no Estado rondam R$ 18 a saca de 50 quilos, ante custo de produção de R$ 30.

Valter Pötter, presidente da Federação dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), também observa que o avanço do arroz de sequeiro no Centro-Oeste está ocorrendo em parte pelas mãos de produtores gaúchos que migraram anos atrás para a região para aproveitar a nova fronteira para a soja. Hoje esta migração cessou, acredita o dirigente, mas a região ainda dispõe de programas de incentivos fiscais para o cultivo e a industrialização do arroz. Adilson Jacinto e Paulo Emir Lauxin, arrozeiros em Sinop (MT), são alguns dos produtores gaúchos que desistiram da produção no Estado para investir no Centro-Oeste. Juntos, eles plantam, hoje, 3 mil hectares.

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