Menos arroz no prato pressiona cadeia produtiva gaúcha
Queda no consumo e alternativas para movimentar o mercado foram discutidas em cenário de altos custos de produção do arroz
(Por Rafael Vigna/ Zero Hora) A dupla que durante muito tempo foi sinônimo das refeições no país – o arroz e o feijão – tem andado desfalcada de um de seus componentes. O cereal, antes presença constante ao lado de outros itens tradicionais do cardápio, vem perdendo seu lugar de destaque no prato dos brasileiros.
Apenas na última década, relatórios da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam para uma redução de 13% no consumo. A situação é agravada por questões de mercado e pressões nos custos de produção, cujo aumento foi de 77,3% por hectare, comparando as safras 2018/2019 e 2025/2026, conforme o Instituto Riograndense do Arroz (Irga).
No Estado, que responde por 70% da produção nacional, o cenário não atinge somente os produtores e vai além dos reflexos para a indústria de transformação e de máquinas e implementos agrícolas. Também afeta a renda e as contas públicas nos municípios.
Isso acontece porque o setor, além dos empregos diretos e indiretos gerados, é responsável por 2% de todo o recolhimento de ICMS do Rio Grande do Sul. Cerca de 200 cidades produtoras, entre as 497 prefeituras gaúchas, dependem do repasse de 25% dos montantes arrecadados para a composição de seus orçamentos. Os dados foram compartilhados pelo presidente da Federarroz, Denis Dias Nunes, durante o Campo em Debate, realizado na segunda-feira (31/8), na Casa da RBS, na Expointer. O painel discutiu estratégias para ampliar o consumo de arroz e recuperar espaço para o cereal na mesa dos brasileiros.
Para o dirigente, o primeiro desafio é equilibrar oferta e demanda. Segundo ele, isso só será possível com a união de produtores, indústria e varejo para estimular o consumo, ampliar mercados e consolidar formas de utilização.
— Temos que nos preocupar em produzir para atender aos consumidores. O arroz é fonte de energia, sem glúten, e o principal cereal, sem processamento, diferente do milho e do trigo. Portanto, uma fonte de energia saudável — resumiu, ao identificar que a diversificação é uma das estratégias viáveis, assim como a utilização de subprodutos que podem gerar energia a partir da casca, etanol e até o SAF, o combustível sustentável para aviação.
Nas gôndolas, o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Lindonor Peruzzo Júnior, alerta que, em 2025, houve queda de 2,5% no volume do produto vendido. As receitas, complementa, recuaram 21,4%.
Para contornar o momento, o gerente comercial da Regional Sul da Josapar, Daniel Ziemer Santanna, aposta em novas possibilidades, com produtos e embalagens pensados para os consumidores que têm menos tempo para cozinhar. E revela que a indústria já trabalha, inclusive, no desenvolvimento de arroz com proteína, o que aproximaria o produto das tendências atuais de alimentação e saúde, exaltadas pela nutricionista Cris Zinelli.
Mudanças de hábitos
A estratégia é reforçada por uma pesquisa coordenada pela BASF, que dimensiona as mudanças de hábitos e aponta caminhos para o setor. Entre os dados, a líder de Marketing de Cultivos, Graziela de Morais, destaca que o arroz “não deixou de ser querido, mas de ser uma escolha automática”, pois 56% dos entrevistados o substituíram por massas, 48% por batatas e 29% por verduras e legumes.
A busca por praticidade aparece como uma das razões, seguida pela rotina mais acelerada e pela influência do preço do feijão, uma vez que, segundo ela, a combinação tradicional funciona como um sistema e, quando um perde espaço, o outro tende a acompanhá-lo. Para Graziela, o desafio do arroz não está em produzir mais, mas em entender melhor o consumidor e fazer com que o cereal volte a ser uma escolha consciente na mesa brasileira.




1 Comentário
Mais um motivo para reduzirmos em 20% a área cultivada!!! Não tem consumidor… Temos que pruzir menos já que quase todo do Mercosul passa por aqui… E que supostamente realmente existe o tal de estoque de passagem de 2,5 toneladas! Ou, alternativamente partimos para o Etanol de arroz ou outros subprodutos…