Nova publicação apresenta estratégias para enfrentamento da seca no cultivo do arroz de terras altas no cerrado

 Nova publicação apresenta estratégias para enfrentamento da seca no cultivo do arroz de terras altas no cerrado

(Por Rodrigo Peixoto/ Embrapa Arroz e Feijão) Já está disponível para acesso e download gratuito no portal da Embrapa a publicação “Arroz de terras altas: sintomas de deficiência hídrica e estratégias de mitigação”. O documento é uma síntese atualizada sobre os sintomas da deficiência hídrica no arroz de terras altas e apresenta as principais estratégias para mitigação de seus efeitos. Ao integrar conhecimentos provenientes das áreas de fisiologia, bioquímica, genética, agronomia e manejo, oferece subsídios para pesquisadores, técnicos, estudantes e produtores. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento e a adoção de práticas produtivas mais resilientes, eficientes e sustentáveis, fortalecendo a capacidade de adaptação da agricultura às mudanças climáticas e assegurando a continuidade da produção de arroz de terras altas. A obra foi elaborada pela Embrapa Arroz e Feijão.

O arroz de terras altas no cerrado brasileiro é uma cultura bastante sensível à estiagem durante sua safra (novembro a março), o que pode reduzir drasticamente a rentabilidade da lavoura. A seca é causada por fenômenos meteorológicos com chuvas insuficientes e calor excessivo que leva à perda de água do solo acarretando deficiência hídrica nas plantas. Para diminuir esse tipo de impacto ocasionado por veranicos, a pesquisa da Embrapa defende algumas estratégias, dentre elas, práticas de manejo da lavoura, melhoramento genético da cultura e a realização da semeadura conforme o Zonea­mento Agrícola de Risco Climático (ZARC).

Em relação ao manejo da lavoura, a densidade de plantio de­sempenha papel relevante na quantidade e distri­buição de água disponível para as plantas. De acordo com o pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, Mábio Lacerda, a quantidade de plantas semeadas em um mesmo espaço deve ser adequada e conduzida de modo a levar em conta recursos naturais, insumos e histórico da área de cultivo para equilibrar a competição por nutrien­tes, água e luz, fatores que podem limitar o processo produtivo. Em anos mais secos, o objetivo é evitar que a lavoura “gaste” água cedo demais por competição excessiva entre plantas.

“De modo geral, em ambientes favoráveis e com cultivares de arquitetura moderna, costuma-se trabalhar com espaçamento entre 17 e 25 cm, com 50 a 70 sementes por metro. Esse estabelecimento da população de plantas de modo planejado permite melhor eficiência do uso de recursos”, disse o pesquisador.

A época de plantio é também uma das práticas de manejo mais eficazes para reduzir a perda de rendimento de grãos do arroz de terras altas. Ela está relacionada à previsão das fases de desenvolvimento das plantas e permite evitar que etapas sensíveis coincidam com períodos mais comuns de restrição hídrica. Há vários estudos da Embrapa que mostram que a se­meadura tardia leva ao declínio na rentabilidade da lavoura, devido às condições ambien­tais adversas, como a baixa disponibilidade de água no solo.

Nesse sentido, existe uma ferramenta que vem ao auxílio de técnicos e agricultores chamada Zonea­mento Agrícola de Risco Climático (aplicativo Zarc – Plantio Certo). O ZARC tem como base o risco agroclimático e indica janelas de cultivo mais propícias ao desenvolvimento da cultura do arroz de terras altas, conforme o ciclo de cultivares, a época de semeadura, o tipo de solo e a localidade de plantio, diminuindo as chances de exposição da lavoura a condições desfavoráveis. O ZARC – Plantio Certo pode ser acessado de forma gratuita.

Além do controle da densidade e época de plantio, a escolha da cultivar também traz impacto para a lavoura. O programa de melhoramento do arroz de terras altas da Embrapa avalia, por exemplo, plantas para tolerância à deficiência hí­drica desde 2004. Uma das cultivares resultantes desse trabalho é a BRS Esmeralda que possui ampla adaptação de cultivo e estabilidade de produção, além de rusticidade.

De acordo com o coordenador do programa de melhoramento de arroz de terras altas da Embrapa Arroz e Feijão, Adriano Castro, “atualmente, além de duas popu­lações de seleção recorrente, cruzamentos especí­ficos são feitos para tolerância à deficiência hídrica, em que populações segregantes são conduzidas e avaliadas sob condições de estresse”, pontuou.

Adriano Castro explicou também que mais recentemente foram incorporadas novas linhas de pesquisa para aprimorar a oferta de cultivares no segmento. Segundo ele, o melhoramento de plantas passou a usar ferramentas biotecnológicas para seleção assistida por marcadores moleculares, seleção genômica e edição gênica direcionada, a fim de facilitar a identi­ficação de genes de tolerância à seca em diversas combinações parentais. O objetivo é tornar mais efi­ciente e rápido o desenvolvimento de cultivares.

Ainda sobre questões de manejo da lavoura, existem estratégias importantes para conservação da água e enfrentamento da seca como o Sistema Plantio Direto e a rotação de culturas. O primeiro reduz a deficiência hídrica do solo porque a palhada minimiza a perda de umidade do solo para a atmosfera em dias quentes. “O Sistema Plantio Direto também atua no controle do escorrimento superficial e nas perdas de água da chuva, propiciando maior armazenamento de água no solo e menor risco de estresse para o arroz de terras altas”, complementou Mábio Lacerda.

No que diz respeito à rotação de culturas, a pesquisadora da Embrapa Arroz e Feijão, Anna Lanna, ponderou que diferentes cultivos em sucessão propiciam me­lhoria da qualidade física, química e biológica do solo, como por exemplo, a capacidade de retenção de água, a maior concentração de matéria orgânica, e a diversidade da população microbiana benéfica às plantas. “A rotação é virtuosa tanto devido a alterações na estrutura fí­sica do solo, que afetam diretamente a dinâmica da água e as características de enraizamento das plantas, quan­to às alterações na composição biológica do solo, como a presença de microrganismos solubilizadores de nutrientes essenciais às plantas e que influenciam o nível de tolerância das plantas ao estresse hídrico”, esclareceu a pesquisadora.

Complementarmente, Anna Lanna afirmou que a manutenção de um sistema de produção economicamente viável deve preconizar a diversidade de microrganismos biologicamente integrados que ajudam na ciclagem de nu­trientes do solo, além de ação mútua com as plantas para minimizar os efeitos da deficiência hídrica. Ela citou que os três principais grupos de microrganismos benéficos para promover a saúde das plantas, especialmente sob condições de estresse, são rizobactérias promotoras de crescimento de plantas, fungos micorrízicos arbusculares e rizóbios fixadores de nitrogênio. Todos eles são nativos do solo, mas podem ser introduzidos nas lavouras, conforme a necessidade, como produtos já comercialmente disponíveis, denominados bioinsumos.

“Esses microrganismos podem melhorar a capacidade de retenção de água pelas plantas, so­lubilizar fósforo, produzir fitormônios como auxinas e citocininas, fixar nitrogênio atmosférico, facilitar a decomposição de resíduos vegetais aumentando o teor de húmus do solo para a melhoria funcional de um agroecossistema”, comentou Anna Lanna.

Segundo Adriano Castro, que também é Chefe Adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Arroz e Feijão, todas essas estratégias de redução do impacto da seca integram conhecimentos das áreas de fisiologia, bioquímica, genéti­ca, agronomia e manejo, oferecendo subsídios a pesquisadores, técnicos, estudantes e produ­tores. “O objetivo final é contribuir para o desenvolvimento e a adoção de práticas produtivas mais resilientes, eficientes e sustentáveis, fortalecendo a capacidade de adaptação e a continuidade da produção de arroz de terras altas em sistemas tropicais”, concluiu.

Deixe um comentário

Postagens relacionadas

Receba nossa newsletter