O dilema dos EUA

 O dilema dos EUA

Mollie Buckler, presidente da Usrpa: o produtor já não consegue refinanciar as operações e podem ocorrer falências

Preços abaixo do custo e especulação crescente alertam para colapso

O arroz, um dos grãos mais estratégicos para a segurança alimentar global, vive um momento de forte desequilíbrio. A combinação entre oferta recorde na Ásia, queda nas cotações internacionais e especulação financeira nas bolsas vem aprofundando a crise de rentabilidade nos Estados Unidos da América (EUA), — maior exportador do ocidente — e no Mercado Comum do Sul (Mercosul). Isso impacta diretamente as relações de mercados do Brasil e de seus vizinhos.

A United States Rice Producers Association (Usrpa), que representa os produtores de arroz, classificou a situação como “a mais grave em décadas”. Custos acima do preço de venda, importações recordes e políticas de apoio mais agressivas em países asiáticos vêm estrangulando o setor, segundo argumentos da entidade.

“O produtor americano de arroz está sendo espremido entre custos crescentes e preços artificialmente baixos. Muitos já não conseguem refinanciar suas operações”, resumiu Mollie Buckler, presidente da Usrpa.

Os contratos futuros para novembro estão ao redor de US$ 10,75/cwt (US$ 237/t), enquanto o custo médio de produção varia entre US$ 15,50 e US$ 17,00/cwt (US$ 342 a US$ 375/t) — uma defasagem de até 40%. Mesmo com preços um pouco mais altos no mercado físico, as margens continuam negativas. “O agricultor não consegue repassar custos, e o mercado futuro está distorcido por especuladores”, destacou Dwight Roberts, ex-CEO da Usrpa.

Os custos de insumos seguem em alta: fertilizantes devem subir 25% em 2026 e a manutenção de maquinário, 8%. A escassez de trabalhadores agrícolas também pressiona as margens, sobretudo em Arkansas, Louisiana e Texas.

Inversões na balança

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) estimou que as exportações da safra 2024/25 caíram 19%, chegando a 60,5 milhões de cwt (2,75 milhões t). Paralelamente, as importações bateram recorde, alcançando 44 milhões de cwt (dois milhões t), dos quais 59,5% são de arroz jasmim tailandês. A diferença de preço é alarmante: o arroz jasmim entra nos Estados Unidos da América (EUA) a US$ 385/t, enquanto o arroz americano de grão longo é vendido a US$ 575/t.

Mesmo com a queda de 9% nas exportações americanas, os preços ao consumidor permanecem estáveis, indicando distorção causada por especulação financeira e desbalanceamento de mercado.

A Commodity Futures Trading Commission (CFTC), por exemplo, informou que 70% das posições vendidas no contrato de arroz da Bolsa de Chicago estão concentradas em grandes fundos financeiros. “Esses agentes especulam com a queda dos preços, descolando o valor do produto da realidade da fazenda. O produtor não tem como competir com essa volatilidade”, alertou Mollie Buckler. A United States Rice Producers Association (Usrpa) defende limites para posições especulativas, maior transparência nas negociações e políticas emergenciais de apoio à renda agrícola.

Fique de olho

A crise do arroz americano não é apenas conjuntural — ela reflete mudanças estruturais no comércio global. Enquanto o mercado mundial se reorganiza sob a hegemonia asiática, a agricultura dos EUA enfrenta o desafio de redefinir seu papel em um ambiente de custos altos, importações crescentes e volatilidade de preços. “Sem coordenação entre governo e setor produtivo, o arroz americano pode deixar de ser competitivo em definitivo”, adverte Dwight Roberts.

A nova geopolítica do arroz

Com 19 milhões de toneladas exportadas e expectativa de chegar a 25 milhões no ciclo 2025/26, a Índia mantém a liderança mundial, seguida pela Tailândia (8,5 milhões t) e pelo Vietnã (7,8 milhões t). Os três países adotam políticas de garantia de preço mínimo ao produtor e de apoio direto à exportação, o que assegura margens mesmo em mercados deprimidos. Na América do Sul, Brasil e Uruguai vêm ampliando presença nos mercados da América Central e África Ocidental, enquanto os Estados Unidos da América perdem espaço em destinos historicamente dominados, como México e Haiti.

O relatório Rice Market Update ,da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), de outubro de 2025, indicou que o preço médio global do arroz caiu 23% em relação a 2024, pressionado por estoques elevados na Ásia e a normalização das exportações indianas, suspensas em parte desde 2022. O indicador FAO recuou a 118 pontos, menor patamar desde 2021. A perspectiva climática de La Niña pode alterar esse cenário em 2026, caso haja perdas significativas na Índia ou Sudeste Asiático.

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