Plantio atrasa em Cachoeira
Clima e falta de crédito podem interferir na produtividade da safra.
O clima adverso, a perda de renda pela crise de comercialização do arroz em 2005 e a dificuldade de acesso ao crédito para os quase 400 produtores de arroz de Cachoeira do Sul e região estão provocando seus primeiros efeitos negativos para a safra 2005/06. O plantio da área estimada em 40,4 mil hectares está significativamente atrasado, podendo acarretar perdas na produtividade e no volume final de produção no município. Em outubro, choveu 245 milímetros em Cachoeira do Sul, quase o dobro da média normal. O clima impediu os produtores de terminarem o preparo do solo e iniciarem o plantio, que precisa acontecer no seco.
Esta semana, ainda é possível encontrar, nas várzeas de Cachoeira do Sul, campos gramados que ainda precisam de preparo e tratores derrubando as taipas do ano passado. Segundo o engenheiro-agrônomo Jerson Luiz Pinto dos Santos, um dos mais tradicionais assistentes técnicos da região, Cachoeira do Sul deveria estar com 80% de sua área plantada até o final de semana, mas o percentual não deve passar de 20%.
Santos explica que além do baixo preço de comercialização praticado no país, há cinco meses abaixo até mesmo do preço mínimo de R$ 20,00 – em Cachoeira é praticado o preço de R$ 17,50 para um saco de arroz de 50 quilos com 58% de grãos inteiros esta semana, mas já andou abaixo de R$ 16,00 líquidos ao produtor – a restrição ao crédito bancário e também nas empresas de insumo está afetando o plantio.
A maior parte das empresas de insumos restringiu bastante o crédito, devido ao alto volume de inadimplência e renegociações da safra passada, e passou a exigir muito mais garantias de pagamento. Ao passo que reduziu o preço de fertilizantes e defensivos – por interferência do câmbio – houve um aumento significativo no óleo diesel. Ou seja, um anulou o outro. Com o agravante de que o produtor paga o fertilizante na safra e o diesel tem prazo de, no máximo, 30 dias.
Apesar de o clima ter sido fundamental neste atraso, o produtor já vem de um ano onde perdeu renda, teve reduzida a oferta de crédito, aumentadas as exigências para obter financiamento da safra, vive um momento de desânimo e tem a expectativa de mais uma safra de preços baixos, explica.
UMA PERGUNTA
A pecuária atrapalhou novamente o plantio de arroz?
A crise na pecuária também interferiu seriamente na época de plantio. Com a falta de rentabilidade do gado, foi mais acentuado o atrito entre pecuaristas e arrozeiros que utilizam as mesmas áreas por contrato de arrendamento. O pecuarista demorou mais para retirar o gado da área, esperando uma valorização. O arrozeiro, sem crédito liberado no banco, foi atrasando o preparo da área. Quando quis entrar para o preparo, a partir do final de setembro, iniciaram chuvas torrenciais a cada dois, três dias no município, impedindo que o campo enxugasse para permitir a entrada das máquinas.
MEMÓRIA
A evolução da cultura em Cachoeira
. Historicamente, Cachoeira do Sul plantava mais tarde a sua safra de arroz, entre novembro e dezembro. Desde 2004, porém, começou a antecipar gradativamente o plantio para a melhor época recomendada – final de outubro – pelo zoneamento agroclimático para aproveitar o maior período de insolação nas plantas (novembro, dezembro e janeiro). Isso foi possível graças ao uso do sistema Clearfield, que elimina o arroz vermelho.
. Antes disso, os arrozeiros cachoeirenses precisavam esperar que o arroz vermelho brotasse, entravam com a dissecação e, só então, poderiam plantar. Isso acontecia a partir da metade de novembro em grande parte dos casos. Sendo assim, parte dos produtores plantava fora da melhor época, com evidentes perdas na produtividade e na qualidade do cereal. Na última safra, Cachoeira do Sul colheu 6,3 mil quilos por hectare, sua segunda melhor marca na história. O clima, porém, afetou a qualidade.


