Preços começam a estabilizar no Sul
Semana que começou com queda, fechou com preços estáveis e indicação de estabilidade para próxima semana.
Contrariando a expectativa do início da semana, os preços do arroz em casca no Rio Grande do Sul chegam a esta sexta-feira estabilizados num patamar entre R$ 19,50 e R$ 20,00. Muitos agentes de mercado já apostavam em valor até R$ 1,00 abaixo deste patamar, o que efetivamente aconteceu em algumas negociações. Com medo de queda maior e com alguns vencimentos com fornecedores diretos, muitos produtores ofertaram desesperadamente o produto.
A indústria deitou e rolou com negócios de até R$ 18,00 para o saco de 50 quilos, fazendo valer a lei de oferta e procura. Mas, os produtores sentiram o excesso de pressão e se recolheram. A indústria continua quieta, a espera de oferta e centrando foco no varejo, que continua demandando pouco produto. Enquanto no Rio Grande do Sul há um levantamento detalhado de estoques, a indústria já fez uma leitura de mercado e considera que os estoques privados são maiores do que os apontados pelos organismos oficiais. Os próprios analistas de mercado já vêm com mais certeza este cenário e consideram uma revisão nos números das suas consultorias e análises.
Em Cachoeira do Sul, Alegrete, Guaíba, Rio Pardo, Restinga Seca, São Borja e Cacequi, Uruguaiana os preços ao produtor do saco de arroz de 50 quilos, com 58% de grãos inteiros, ficam entre R$ 19,50 e R$ 20,00. Baixam R$ 0,50, em média, em São Gabriel, Rosário do Sul, Dom Pedrito, Candelária, São Sepé e Santa Maria.
Pelotas, Camaquã, Itaqui e Uruguaiana praticam preços de R$ 20,00 a R$ 21,00 para o produto colocado dentro da indústria. Variedades nobres com maior percentual de inteiros alcançam até R$ 21,75 na Fronteira e R$ 24,50 no Litoral Norte (neste caso, com 63% de inteiros). Nesta região, a variedade IRGA 422CL e similares são cotados entre R$ 20,00 e R$ 21,00. O arroz fraco, para parboilização (faixa de 50% de inteiros) é negociado entre R$ 18,00 e R$ 18,50 na Fronteira e Depressão Central, e R$ 18,50 a R$ 19,00 nos pólos de Pelotas e Camaquã.
OUTRAS REGIÕES
A aproximação do pico de safra no Mato Grosso, e a presença de produto da safra nova no mercado do estado, já apresentou mudanças no cenário de preços. A semana apresentou mais uma queda de R$ 1,00 no saco de arroz de 60 quilos nas duas principais regiões arrozeiras do estado: Sinop e Sorriso, ficando em R$ 23,00. O preço, há duas semanas, chegavam a R$ 27,00. Em Cuiabá, posto na indústria, os preços chegam a R$ 32,00, principalmente em função do frete e pela precariedade das estradas.
Em santa Catarina os preços estabilizaram na faixa de R$ 21,00 a R$ 22,00, em função do estoque ajustado no Estado. Tradicional cultivador de variedades de ciclo mais longo, o estado ainda espera mais 30 dias para o início de colheita com volume significativo.
INDICADORES
O indicador de preços do arroz do Cepea/Esalq e BM&F, indicou para esta quinta-feira a primeira recuperação de preços em janeiro. No entanto, foi um valor insignificante. O preço médio de comercialização do saco de arroz em casca, com 58% de inteiros e 50 quilos, posto na indústria gaúcha, ficou em R$ 19,82. Foram quatro centavos a mais do que o verificado na quinta-feira. No entanto, nos 25 dias de janeiro, a queda nos preços alcançou 12,73%.
INDÚSTRIA
O mercado só poderia estar melhor para a indústria se o varejo resolvesse demandar mais produto. A compra da matéria prima do produtor não poderia ser melhor do que nos últimos dias, quando no desespero alguns arrozeiros torraram produto no Rio Grande do Sul para quitar parcelamentos e compra direta de insumos dos fornecedores. Há casos de rizicultores sem crédito nas instituições financeiras que negociaram insumos para pagar no pico da entressafra. E agora, com os preços em baixa, tiveram que ofertar para zerar as dívidas da formação da atual lavoura e, em muitos casos, prorrogações remanescentes da lavoura passada. Fora de mercado, a indústria só comprou em negócios altamente vantajosos, produto de seu interesse (principalmente fraco para parboilização) e de seus parceiros preferenciais ou produtores que negociaram depósito de produto.
Segundo alguns dirigentes de indústrias do arroz que conversaram com este colunista esta semana, o estoque privado realmente parece ser maior do que as estimativas oficiais. Um deles chegou a afirmar que o produtor não pára de ofertar produto. E cada vez aparece mais. A confortável posição de espera da indústria, também se deve ao fato do maior volume de oferta do produto começar dentro de 30 dias no Rio Grande do Sul. E sabe que há um passivo enorme de dívidas dos produtores para ser coberto no primeiro semestre.
As indústrias gaúchas e catarinenses negociam o fardo de 30 quilos do arroz, em média, a R$ 30,50 (final São Paulo). Marcas top chegam a R$ 43,00 e algumas variedades nobres, até R$ 47,00. Em compensação, as chamadas marcas de combate e alternativas, já estão fazendo qualquer negócio para chegar à gôndola, com fardo batendo em São Paulo por até R$ 27,50. Para negociações dentro do Rio Grande do Sul, o saco de arroz beneficiado (60kg) fica entre R$ 43,00 e R$ 46,00, dependendo das suas características e região.
Os derivados mantiveram preços esta semana. O canjicão firme em R$ 27,00 (60kg) e a quirera a R$ 20,00. Há notícias de um navio de quebrados saindo do Porto de Rio Grande até o final do mês, com destino à África. Em dezembro, a exportação brasileira foi pífia por conta de um vácuo entre os contratos.
MERCOSUL
A oferta de produto do Mercosul diminuiu a medida que os preços internos do arroz caíram. Enquanto a ALL concessionária ferroviária comemora recorde no transporte de arroz, principalmente do Mercosul, uruguaios e argentinos não fizeram mais questão de vender para o Brasil. O número mágico do Mercosul, para exportar ao Brasil, é 10 dólares. Há terceiros mercados pagando este valor para o produto, mesmo que com demanda reduzida nesta virada de ano. O custo de produção uruguaio fica em torno de 7 dólares e, mesmo com custos internos, a partir de 8,5 a 9 dólares, já existe lucro na venda ao Brasil. Com a Argentina não é muito diferente. Hoje, a paridade de preços ficaria em torno de R$ 20,50, valor que já está acima do mercado interno.
VAREJO
Abastecido e com fraca demanda, o varejo brasileiro está apenas negociando arroz da mão pra boca. E em condições muito especiais. Voltou a movimentação em busca de marcas alternativas às tops, que chegam a oferecer o fardo de 30 quilos do arroz tipo 1, posto em São Paulo, por R$ 27,50. Nos supermercados paulistas e cariocas, é comum encontrar sacos de 5 quilos abaixo do patamar de R$ 6,00, em ofertas.
MECANISMOS
Há possibilidade de anúncio de leilões de opção pública, com vencimento a partir de maio, na faixa de R$ 24,00 (com aumento de R$ 0,50 por mês), o que poderia sinalizar um mercado mais firme. Apesar de estar abaixo dos preços de abertura dos leilões realizados pela Conab nos últimos quatro meses, este número já é considerado pela cadeia produtiva. A cadeia produtiva também estuda um pedido para que a Conab lance um PEP de arroz para exportação. Embora possa caracterizar subsídios, há o entendimento de que é um mecanismo que está sendo útil para o milho e que pode melhorar os preços internos do arroz. E ampliar o volume de exportações para o Brasil, principalmente de produto beneficiado (parboilizado).
A medida, apesar da contrariedade de alguns segmentos, poderia surtir um efeito positivo no setor. Afinal, o Brasil está brincando de Joãozinho-do-passo-certo para buscar seus direitos na OMC, sem que na prática o governo federal tenha iniciado um processo formal e que isso esteja apresentando qualquer vantagem à cadeia produtiva. Na contramão, outros países seguem subsidiando direta ou indiretamente suas exportações de arroz. Inclusive no Mercosul. E o prejuízo, segundo os últimos estudos apresentados sobre a margem de lucro da cadeia produtiva, está exclusivamente no bolso do produtor. Se o milho tem subsídio, direto ou indireto, para exportação, por qual motivo o arroz não pode ter? Mesmo que em volumes limitados.
TENDÊNCIA
Tudo indica que a próxima semana deve manter estabilidade nos preços. Só quem pode mudar esta tendência são os produtores, se resolverem ofertar mais produto. Num ano em que se espera a recuperação dos preços, só o endividamento explica a atitude de torrar produto no mercado.


