Produtores de arroz fazem parceria com índios em Roraima
A demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, ainda causa polêmica na região. Até mesmo entre as comunidades indígenas existe descontentamento com a decisão governamental que cria a demarcação de área contínua. Os 25 mil hectares de arroz plantados em Roraima estão dentro da área da reserva. A demarcação forçará os produtores a sairem da área no prazo de um ano.
Os produtores de arroz na área da reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, conseguiram apoio de parte da comunidade indígena com um programa de assistência social básica, que supre a ausência do Estado.
Fornecimento de energia elétrica gratuita aos índios, auxílio à preparação das terras para a lavoura (com empréstimo de tratores) e a instalação de escolas próximas às malocas fazem parte desse jogo de sedução.
Um exemplo claro dessa situação é a maloca São Jorge, próxima ao distrito rural de Surumum (município de Pacaraima) e à fazenda Depósito, de 5 mil hectares, maior produtora de arroz do município.
A comunidade macuxi da maloca São Jorge tem 108 habitantes e é liderada por João de Souza, 57, ex-tuxaua (liderança da comunidade indígena) e pai do atual tuxaua, Istepson Barbosa de Souza. Foi graças ao proprietário da fazenda Depósito, o atual prefeito Paulo César Justo Quartiero (PDT), que a comunidade possui energia elétrica.
“Há oito anos, o dono da fazenda pediu para passar a linha de energia pela nossa maloca. Eu era o tuxaua e aceitei. Ele deixou pontos de luz e hoje a gente pode ter geladeira, televisão e viver melhor”, afirmou João de Souza.
Outro exemplo é o povoado macuxi Cantão, onde moram 1.300 índios. Produtores de arroz se cotizaram, doaram insumos e plantaram cem hectares de arroz para os índios. Não é por acaso que, tanto na maloca São Jorge como no povoado Cantão, os índios em sua totalidade são contra a homologação da reserva de forma contínua.
“A gente precisa do civilizado. Meu avô já vivia com seus limites e com os limites dos fazendeiros, e foi assim com o pai dele. Não sei por que agora querem isolar a gente novamente”, diz Souza.
Na maloca São Jorge, os 108 índios vivem da caça e da exploração de um rebanho bovino de 153 cabeças. “Os fazendeiros sempre ajudam, especialmente os arrozeiros, que preparam a terra sempre que a gente pede. Isso sem contar que, se acabar o distrito de Surumum, vai acabar a escola para os nossos filhos”, diz o ex-tuxaua.
Em Surumum, onde moram aproximadamente 500 pessoas, existe ensino até o 3º ano do ensino médio.
Mais radical foi o uapixana Eloir Henrique Gomes, 40, que desde o dia 21 está acorrentado em frente à igreja matriz de Boa Vista protestando contra a homologação. Ele afirma que trabalha para arrozeiros e que a homologação vai deixá-lo sem emprego.
Em Roraima existem 40 produtores de arroz que cultivam 25 mil hectares –todos dentro dos limites da reserva homologada –com uma produtividade média de 6 mil quilos por hectare, performance superior, por exemplo, à produção do cereal no Rio Grande do Sul.
Em esquema altamente profissionalizado, a produção é mecanizada e em grandes áreas. O maior produtor é Quartiero, que produz 5.000 hectares de arroz em duas fazendas nos municípios de Pacaraima e Normandia.
No total, o prefeito de Pacaraima tem 9.200 hectares que serão encampados pela reserva. Em Boa Vista, ele comercializa arroz, da sua própria produção e de terceiros, abastecendo o mercado amazônico com a marca Acostumado.


