Safra 2008/2009: escassez de crédito vai comprometer produção

Os bancos estão retraídos com relação aos empréstimos aos produtores rurais.

Atualmente, com o acirramento da crise financeira mundial, a tendência é de uma forte restrição de crédito para os financiamentos da safra 2008/2009. Na prática, não adianta injetar mais recursos no financiamento rural, como pedem lideranças do setor. O problema está no risco elevado.

Os bancos estão retraídos com relação aos empréstimos aos produtores rurais. As perspectivas mudaram tanto desde o início da crise nos EUA, que há uma grande dúvida sobre a rentabilidade da atividade agrícola no próximo ano (safra 2008/2009), o que fez os bancos contrair a oferta de crédito rural. A safra 2008/2009 está sendo plantada com custos elevados, já que os insumos foram comprados num momento de forte demanda internacional, o que elevou consideravelmente os preços dos fertilizantes e adubos importados. Um levantamento feito pela Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA) aponta que o custo de produção subiu 30%, em média, para a safra 2008/2009. Só os gastos com fertilizantes subiram 94,3% no ano.

Num quadro de demanda aquecida por alimentos como o registrado no primeiro semestre deste ano, esses gastos seriam facilmente absorvidos. Agora, com o temor de uma recessão mundial, ninguém sabe o que vai acontecer com os preços das commodities agrícolas. Essas incertezas já são percebidas no campo, especialmente no Centro-Oeste, onde os custos para cobrir as deficiências de logística são maiores.

Para a maioria dos produtores, especialmente do Brasil Central, as margens devem ser negativas ou levemente positivas. Apesar das incertezas econômicas mundiais, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, acredita que a crise não vai chegar à mesa dos consumidores daqui e de outros países. Segundo ele, o mundo vai continuar comendo e vai continuar precisando de produtos agrícolas.

O Banco do Brasil considera precipitado falar nos reflexos da crise do subprime americano para o agronegócio brasileiro. O BB afirma que pela primeira vez nos últimos anos uma safra será plantada com dólar mais baixo (R$ 1,60) e poderá ser vendida com dólar em alta (R$ 2,10). Mas os demais bancos não pensam da mesma maneira.

Dinheiro novo nesse ambiente de incertezas não deve estar disponível de forma facilitada. Pelo menos no BB, o financiamento continua saindo. Nos três primeiros meses do ano-safra, a partir de julho, as liberações para a agricultura empresarial e familiar somaram R$ 6,1 bilhões, crescimento de 64,5% em relação a igual período do ano passado, quando foram aplicados R$ 3,7 bilhões, segundo dados disponibilizados pelo banco. Mesmo com a liberação extra de R$ 10,5 bilhões, anunciada pelo governo, e da expectativa de outros R$ 2,5 bilhões, o Banco do Brasil admite que os pedidos de financiamentos estão sendo analisados de forma rigorosa.

Não adianta ter dinheiro no banco e haver interesse dos produtores nas linhas de crédito. É preciso avaliar a capacidade de pagamento dos financiamentos, segundo o Banco do Brasil. Essa análise considera o nível de endividamento de cada produtor, o que exclui muitos tomadores de crédito da lista de clientes dos bancos públicos e privados. Alguns produtores que renegociaram dívidas com base na Lei 11.775 de 2008 (oriunda da Medida Provisória 432) e que pediram novos financiamentos para custeio da safra 2008/2009, não conseguiram obter os recursos.

Segundo o Banco do Brasil, os bancos podem negar o custeio. Dependendo do caso, levando em conta a capacidade de pagamento, esses produtores também não terão acesso aos financiamentos para custeio, pois depende do risco, segundo o Banco do Brasil. Além das amarras impostas pela renegociação das dívidas, que comprometem parte do limite individual de crédito dos agricultores, a redução dos financiamentos do setor privado – tradings, indústrias e revendedores de insumos e outros fornecedores – foi outro fator negativo para a agricultura brasileira.

O governo chegou a criar um fundo de R$ 3 bilhões, o Fundo de Financiamento de Recebíveis do Agronegócio (FRA), para que parte das dívidas pudesse ser renegociada. A expectativa era que 10 mil produtores aderissem ao FRA, mas uma análise do BB selecionou 6 mil produtores. Desse total, apenas 46 se interessaram pelo financiamento. O FRA não deu certo. O mecanismo só seria viável com um grande número de produtores. Outro problema é que os agricultores que aderiram ao FRA estavam na categoria de “risco alto”, inviabilizando os empréstimos.

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