Wedekin: juros, câmbio e infra-estrutura corroem renda do campo
Segundo o secretário, os cinco principais produtos da safra de grãos e oleaginosas (soja, milho, trigo, arroz e algodão) devem fechar 2005 com um valor de produção de R$ 47 bilhões, R$ 13 bilhões a menos do que no ano passado.
O secretário de Política Agrícola do Ministério da agricultura, Ivan Wedekin, disse hoje em São Paulo que o agronegócio brasileiro padece de três pragas, “que estão fora da lavoura”.
– Os juros altos, o câmbio e a infra-estrutura deficitária são vetores negativos que estão corroendo a renda no campo – afirmou o secretário.
Wedekin participou no hotel Jaraguá, como representante do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, do encerramento do terceiro Simpósio Nacional do Milho, organizado pela Associação Brasileira das Indústrias de Milho (Abimilho).
Segundo o secretário, os cinco principais produtos da safra de grãos e oleaginosas (soja, milho, trigo, arroz e algodão) devem fechar 2005 com um valor de produção de R$ 47 bilhões. No ano passado, o faturamento do segmento havia atingindo R$ 60 bilhões.
– Esta queda no faturamento também se reflete no estreitamento da margem dos agricultores, que compraram insumos quando o dólar estava em torno de R$ 3,00 e comercializaram a safra com a moeda norte-americana cotada entre R$ 2,30 e R$ 2,40.
Ivan Wedekin observa que a queda de faturamento e redução da margem do produtor ocorre justamente no momento em que o setor carrega dívidas de investimento. Segundo ele, nos últimos cinco anos, o volume oficial de recursos para investimento aplicados no campo passou de R$ 1,8 bilhão para R$ 8 bilhões em 2004/05.
– Isto é só uma fatia do dinheiro investidos pelos agricultores, seja na compra de terras ou em infra-estrutura.
O secretário afirmou que os juros altos também conspiram para a falta de liquidez do mercado. Segundo ele, enquanto os produtores estão acossados pelo estreitamento de margem, o alto custo financeiro inibe a formação de estoques pelos compradores de produtos agrícolas.
– Quem vai querer carregar estoques com taxas de juros tão elevadas – questionou.
Apesar do cenário adverso, o secretário de política agrícola afirmou que a Pasta tem poucas condições de socorrer o produtor rural. O motivo é a dificuldade para liberação de recursos pela área financeira do governo.
– Pedimos em fevereiro R$ 1 bilhão para apoio à comercialização da safra passada, recebemos R$ 400 milhões no primeiro semestre e R$ 300 milhões só agora. Wedekin alfineta: enquanto isto a despesa com juros que o governo pagou de janeiro a agosto ficou em média R$ 650 milhões por dia.
Wedekin afirmou que uma ponderação dos recursos oficiais por tonelada de grãos mostra uma sensível queda de investimento governamental em política agrícola nos últimos anos.
– Há seis ou sete anos, os recursos para comercialização eram equivalentes a US$ 9 por tonelada de grãos produzidos no Brasil. No ano passado, a média ficou em US$ 0,90 por tonelada e este ano passou para US$ 3,40 por tonelada.
Também participante do simpósio do milho, o presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Ronaldo caiado (PFL-GO), defendeu a criação de uma agência regulatória para o agronegócio. Segundo o deputado, a agência teria como papel coibir abusos e práticas injustas dentro da cadeia do agronegócio.
– O produtor está prensado entre a sanha arrecadatória do governo, de um lado, e pelos cartéis, do outro – afirmou.
Perguntado sobre quais seriam esses cartéis, Caiado mencionou “o financeiro, o das indústrias de adubos e defensivos e o dos frigoríficos.
Segundo Caiado, a agência teria representantes do Executivo, Legislativo e membros da cadeia do agronegócio. A idéia é dar respostas ágeis aos problemas do campo. Caiado disse que a atual estrutura para defesa de práticas desleais econômicas é inoperante.
– Mover processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a gente já desistiu –
Por isso, Caiado evitou comparar a agência regulatória à Agência Nacional de Petróleo (ANP) e à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que segundo ele, “não são ágeis”.
O presidente da Comissão de Agricultura disse, ainda, que está empenhado em preparar um projeto de lei propondo a criação da agência para apreciação ainda em 2006.
– Se o atual governo não tiver interesse no projeto, ele ficará como sugestão aos candidatos à presidência da República – concluiu.


