Alta complexidade

Mercado arrozeiro enfrenta momento dos mais delicados

O mercado brasileiro de arroz vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A safra 2025/26 consolidou uma produção robusta no Brasil e no Mercosul – com o Rio Grande do Sul colhendo acima de 7,8 milhões de toneladas e o Brasil em torno de 11,2 milhões de toneladas, algo como 75% da produção do Mercosul – ao mesmo tempo em que exportações perdem força, o real se valoriza e as importações crescem com preço mais competitivo.

Esse choque de oferta ampla com escoamento mais difícil se traduz em forte pressão baixista sobre as cotações ao produtor, sobretudo no RS, onde está concentrado quase todo o estoque brasileiro e mais a nova colheita. Esta situação é capaz de vencer, por exemplo, a queda de braço que permitiu uma reação bastante rápida das cotações em março e início de abril, à espera de leilões de Pepro e PEP, quando os produtores evitaram comercializar o cereal a preços muito baixos, na casa dos R$ 50,00 por saca, aguardando ações oficiais que pagariam na faixa de R$ 62,00 a R$ 63,00.

Os dados da Taxa CDO/IRGA mostram que o Rio Grande do Sul mantém beneficiamento e saídas em patamares historicamente altos. Entre 2019 e 2023, o estado oscilou entre 7,0 e 8,0 milhões de toneladas/ano; em 2025 foram 7,38 milhões t, com média de 615 mil t/mês. Em 2026, a parcial de janeiro a abril soma 2,578 milhões t, com média de 644,5 mil t/mês, acima de 2019, 2021 e 2025 e muito próxima de 2022. Ou seja, a oferta efetivamente disponibilizada ao mercado segue forte, não há falta física de produto.

Ao mesmo tempo, o Indicador Cepea/Irga-RS mostra a virada do ciclo de preços: depois de médias anuais muito elevadas (R$ 94,94 em 2023 e R$ 113,05 em 2024), a média de 2025 despencou para R$ 71,69/sc com as cotações declinando ao longo do ano e, em 2026, marcaram apenas R$ 58,09/sc até abril, apesar da recuperação de 12% em março e da primeira quinzena do próprio mês de abril.

Em 2026, as cotações saem da casa de R$ 53,38/sc em janeiro, passam por R$ 54,80 em fevereiro e R$ 58,83 em março, chegando a R$ 62,66 em abril – uma reação pontual que se explica em boa parte pelos leilões de PEPRO e por um movimento de recomposição de estoques ao longo da cadeia. Em maio, a média já retraiu para R$ 61,47 e segue dando sinais de enfraquecimento, registrando no dia 24 de maio a referência de R$ 59,98 (US$ 11,94) e um recuo de 3,72%.

Reflexo

Esse episódio de alta em março/abril teve reflexo direto no comportamento da indústria, atacado e varejo: com a percepção de que o arroz em casca poderia seguir subindo, agentes anteciparam compras para mitigar o repasse de uma alta maior ao consumidor. No RS, isso coincidiu com pico de beneficiamento e saídas em março (720,7 mil t) e patamar ainda elevado em abril (684,7 mil t). Porém, a sustentação foi frágil: parte importante dos volumes ofertados nos leilões não encontrou interessados, e, já no início de maio, os preços voltaram a recuar, acumulando queda de mais de 20% no ano em termos nominais.

Vetores centrais

O contexto de preços baixos é reforçado por dois vetores centrais: Exportações mais fracas: em abril de 2026, o Brasil exportou apenas 78,79 mil toneladas, queda de 67% frente a março e menor volume desde fevereiro de 2025, em boa medida pela perda de competitividade com a valorização do real e pela pressão de oferta da Ásia e do próprio Mercosul, coordenadas com a recuperação dos preços internos inflados artificialmente pelos mecanismos governamentais.

O segundo vetor foram as importações agressivas e baratas: apenas nos primeiros quatro meses de 2026, o Paraguai embarcou mais de 435 mil t ao Brasil. Em abril, o arroz importado entrou a R$ 57,32/sc, cerca de 9% abaixo da média do Cepea/Irga (além do estímulo de isenção de impostos em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo), o que favorece substituição pelo produto externo e aumenta a pressão sobre o grão nacional.

Fique de olho

No plano de custos, o quadro é ainda mais apertado. Fertilizantes, combustível, energia, irrigação e juros permanecem elevados, fazendo com que preços médios fiquem abaixo do custo de produção em muitas propriedades. Relatórios setoriais, como o “Visão Agro 2025/26” do Itaú BBA, apontam que a combinação de real valorizado, custos altos e preços deprimidos deteriora rapidamente a saúde financeira dos produtores, aumentando o endividamento rural. Os altos juros praticados no país, entre os maiores do mundo, não ajudam em nada. No Sul, entidades defendem a securitização ampla das dívidas, sob pena de redução de área plantada, queda de investimento e perda de capacidade produtiva já em 2026/27. E não apenas no arroz, mas nas culturas de verão.

Muito além das fronteiras

No cenário internacional, o ciclo recente foi marcado por excesso de oferta e queda forte das cotações, impulsionado pela volta agressiva da Índia ao mercado global e pela recomposição de estoques em vários países. Para a safra 2026/27, porém, começam a aparecer sinais de ajuste: projeções do USDA indicam queda de mais de 20% na produção de arroz de grão longo nos EUA, redução de cerca de 29% nos estoques finais e oferta total norte-americana cerca de 14% abaixo da média dos últimos três anos, com exportações relativamente estáveis.

Esse movimento muda gradualmente o discurso, de “sobra” para preocupação com aperto futuro na oferta, reduzindo o risco de novas quedas expressivas nos preços internacionais e abrindo espaço para uma possível recuperação gradativa dos preços globais. Ainda assim, o mercado segue volátil: Tailândia e Vietnã sustentam preços e restrições comerciais e logísticas da Índia influenciam o fluxo global.

Para o Brasil, as referências em 2026/27 vão depender, em grande medida, de três eixos: capacidade de exportar mais, caso o câmbio volte a favorecer o produto nacional; gestão das importações intrabloco (especialmente do Paraguai) em um contexto de ampla oferta doméstica; decisão dos produtores sobre área e investimento, condicionada ao custo financeiro, à política de crédito e a eventuais eventos climáticos como um El Niño mais intenso no Sul.

Em síntese, as cotações do arroz no Brasil em 2025/26 estão deprimidas não por falta de desempenho produtivo, mas justamente pelo contrário: produção elevada, saídas historicamente fortes, exportações menos competitivas e importações baratas geraram um ambiente de excesso relativo de oferta. O ajuste de preços já ocorreu de maneira intensa; daqui em diante, a trajetória tenderá a ser definida pelo ajuste da oferta (Brasil, EUA e Ásia), pelo câmbio e pela capacidade de coordenação entre produção, política pública e comércio internacional.

Fique de olho

No plano de custos, o quadro é ainda mais apertado. Fertilizantes, combustível, energia, irrigação e juros permanecem elevados, fazendo com que preços médios fiquem abaixo do custo de produção em muitas propriedades. Relatórios setoriais, como o “Visão Agro 2025/26” do Itaú BBA, apontam que a combinação de real valorizado, custos altos e preços deprimidos deteriora rapidamente a saúde financeira dos produtores, aumentando o endividamento rural. Os altos juros praticados no país, entre os maiores do mundo, não ajudam em nada. No Sul, entidades defendem a securitização ampla das dívidas, sob pena de redução de área plantada, queda de investimento e perda de capacidade produtiva já em 2026/27. E não apenas no arroz, mas nas culturas de verão.

Deixe um comentário

Postagens relacionadas

Receba nossa newsletter