Arte no grão de arroz
Em formato minúsculo, o nome é colocado em pingentes e o trabalho custa a partir de R$ 4.
Na manhã chuvosa de sábado, quatro amigas decidiram selar a amizade. Só não sabiam como. Enquanto passeavam pela feirinha do Convivência, Jeniffer, Bruna, Débora e Thais toparam com a inscrição: ‘Escrevo seu nome no grão de arroz’, exposta numa das barracas. Perfeito, o que procuravam estava ali.
– Meninas, vamos escrever os nossos nomes? – sugeriu Jenif-fer, a mais deslumbrada do grupo.
De começo, colocaram em xeque o trabalho de Marco Dovigues, o Marquinho, artesão há 30 anos. O artista tirou de letra: escreveu num minúsculo grão, conforme o pedido, o apelido das quatro: Jhe, Bru, Deh e Tha. Felizes da vida, as garotas comentaram.. Para pagar o artesão, além de afirmar o espírito de amizade, fizeram uma vaquinha: cada uma deu R$ 1.
Marquinho não é o único artesão que aguça a curiosidade dos freqüentadores da feira com a arte no grão de arroz. Divide o posto com mais dois: Manoel Garcia e o xará Marco Antonio Pires, o Marcão. Na labuta aos finais de semana, o trio tem que lidar com a desconfiança da clientela. A maioria das pessoas não acredita que os artistas consigam realizar o prometido: escrever nomes ou pintar desenhos no grão.
– Como São Tomé, tem que ver pra crer – completa Marcão.
O nome é gravado com uma caneta preta à base de nanquim. A matéria-prima também é especial.
– Não pode ser arroz agulhinha, deste que usamos no dia-a-dia, porque é transparente. Utilizamos o arroz branco, empregado na culinária japonesa- ensina Marcão.
Por último, o cliente escolhe o pingente onde o grão será colocado. Os formatos, conta, são de vários tipos: cápsula (o mais comum), coração, borboleta, estrela e lâmpada. Após a definição, o arroz é mergulhado em óleo mineral. Para quem prefere o líquido colorido, basta adicionar o corante da tonalidade escolhida. O processo dura em torno de cinco minutos e o artesanato é usado como colar, chaveiro, pulseira, torzoneleira e enfeite de celular.
O preço varia de barraca para barraca. Em média, R$ 4.
– Dura para sempre. O nome não se apaga – garantem os três.
Tal como o quarteto de Hortolândia, a garota Juliana Lemos, de 12 anos, encontrou a arte em grão de arroz por acaso.
– Já tinha visto na praia. Em Campinas, nunca – diz a menina, que não desgrudava os olhos do colar.
Juliana pediu a Marquinho que gravasse o apelido de suas melhores amigas: Lele (Helena), Gabi (Gabriela), Madi (Amanada) e, como não poderia faltar, Ju. Ficou boquiaberta com a habilidade do artesão. – Não conseguiria fazer. Tem que ter a letra muito pequena – frisa.
Bru, 15, também ficou impressionada com o resultado. – Ele só pode ter um olho biônico – brinca.
Por lidar com nomes, é inevitável não passar por momentos de saia justa. Marcão presenciou duas. A primeira, conta, foi escrever o nome de oito nordestinos. Não lembra quais foram, embora se recorde que todos terminassem em ‘son’. – Eram muito complicados. Pedi para que todos escrevessem no papel – Aliás, esta é uma prática corriqueira entre os artesãos. No caso de dúvida, nada melhor que ter a grafia correta no bloquinho. Situação semelhante aconteceu com uma turista francesa, que comprou 20 colares de uma única vez. Além dos nomes complicados, Marcão ainda teve que gravar em todos os grãos a bandeira do Brasil. – Também já escrevi palavras em inglês e até em japonês – lembra.
A principal reclamação do trio é o desprezo das pessoas com relação à arte. – Acham caro o preço dos pingentes. Dizem que com o valor dá para comprar um quilo de arroz. Não enxergam o trabalho artístico que está por trás – alfineta Marcão.
Mesmo assim, cada artesão vende por final de semana entre 50 e 60 grãos. Apesar da novidade, nenhum dos três vive apenas da arte no arroz. Também desenvolvem outros tipos de trabalho artístico. Em garrafinhas de vidro, Manoel desenha paisagens bucólicas com areia de várias cores. Marquinho, em companhia da mulher Edna, e Marcão complementam a renda com a venda de bijuterias.
Recordista
O recordista da arte é o indiano Dipak Syal, da localidade de Yamunagar. Em 2000, Dipak escreveu em um único grão de arroz 2.557 caracteres. Como mérito, o nome do indiano foi parar no Guinnes Book. Marquinho também pensa em entrar para o livro dos recordes. Sua meta é pintar no cereal o maior número de figuras relacionadas à paisagem. Treina muito para realizar a façanha. – Já fiz um com praia, coqueiro, ilha, nuvem, sol e gaivota, mas ainda não está bom. Quero colocar no mínimo doze itens para ser imbatível – promete.


