Excedente e queda de preços – O papel da Conab na estabilização do mercado de arroz
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) tem papel central no apoio à formulação de políticas públicas voltadas aos produtos agrícolas e à sociodiversidade brasileira. Por meio de levantamentos sistemáticos, a instituição fornece informações detalhadas sobre a produção, os custos, a armazenagem e os preços agrícolas, além de estudos técnicos que permitem acompanhar o equilíbrio entre oferta e demanda. No caso do arroz, essas informações são particularmente relevantes neste momento de forte ampliação da produção e consequente pressão sobre as cotações, tanto no mercado interno quanto no cenário global.
A safra 2024/25 de arroz no Brasil foi marcada por um expressivo aumento de área semeada, de 9,8%, aliado a condições agroclimáticas favoráveis à semeadura e ao desenvolvimento das lavouras. Mesmo com as altas temperaturas observadas ao longo do ciclo, a produtividade manteve-se elevada, resultando em uma colheita superior a 12,8 milhões de toneladas — cerca de 2,2 milhões de toneladas acima do registrado no ciclo anterior, um crescimento de 20,6%. O avanço produtivo, embora positivo do ponto de vista do abastecimento, ampliou a disponibilidade interna e elevou as projeções de estoque, contribuindo para o atual movimento de retração dos preços.
No mercado doméstico, o impacto da maior oferta já é sentido de forma intensa. No Rio Grande do Sul, principal estado produtor, as cotações acumulam queda de 42,4% ao longo de 2025, com o último preço médio estadual ao produtor atingindo R$ 57,04 por saca de 50 kg — valor abaixo do preço mínimo oficial, fixado em R$ 63,64. Em Santa Catarina, segundo maior produtor nacional, o produto é comercializado, em média, a R$ 51,73 por saca. A combinação entre estoques elevados e ritmo fraco das exportações tem mantido os produtores afastados das negociações, em um mercado que segue com liquidez reduzida.
O cenário internacional reforça a tendência de queda. Em 2025, o mercado global de arroz também registrou expansão expressiva da oferta, o que contribuiu para o recuo dos preços em praticamente todos os países exportadores. A Índia, líder mundial nas exportações do cereal, com participação de 40,2% no comércio global, deverá colher uma safra 8,8% maior em 2024/25.
Esse aumento, somado à recuperação de outros produtores asiáticos, fez o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) projetar um crescimento de 5% nos estoques de passagem mundiais em 2026. Como reflexo, a cotação do arroz tailandês — referência internacional — apresenta uma desvalorização anualizada de 32,7%, segundo dados da Thai Rice Exporters Association.
América do Sul
Na América do Sul, a conjuntura segue o mesmo padrão. Entre os parceiros do Mercado Comum do Sul (Mercosul), as colheitas foram robustas e antecederam o ciclo brasileiro, o que tem dificultado a colocação do produto nacional no exterior. De acordo com estimativas do Usda, a safra 2024/25 deverá apresentar aumentos de 21,6% na Argentina, 13,3% no Paraguai e 19,8% no Uruguai, o que representa, em conjunto, uma expansão de quase 700 mil toneladas de arroz em casca em relação à safra anterior. A perspectiva, contudo, é de redução na produção combinada desses países em 2025/26, estimada em 5,1%, em resposta à queda dos preços e à diminuição da atratividade econômica do cultivo.
Nesse contexto de ampliação da oferta e retração das cotações, ganha destaque o papel da Conab como agente de apoio direto ao produtor rural por meio da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) e de outros instrumentos de comercialização. Além de fornecer informações estratégicas que orientam o mercado, a Conab atua de forma prática na execução de políticas que asseguram renda ao agricultor e estabilidade à cadeia produtiva.
Em 2024, a Conab lançou uma operação de contratos de opção de venda (COV) de 500 mil toneladas de arroz em casca, com preço de exercício de R$ 87,62 por saca de 50 kg, referente à safra 2024/25. A medida foi implementada já com base nas projeções técnicas que indicavam, à época, um cenário de queda dos preços em 2025, em função do excedente de oferta esperado tanto no Brasil quanto no mercado internacional.
Apesar da antecipação dessa tendência, o ambiente de preços ainda favorável no momento do lançamento resultou em adesão de apenas 91 mil toneladas por parte do setor produtivo. No vencimento dos contratos, contudo, todos os produtores que haviam aderido exerceram a opção, entregando o produto à Conab, em razão da forte desvalorização ocorrida nos meses seguintes, quando as cotações de mercado ficaram muito abaixo do valor garantido.
Já em 2025, diante da consolidação do cenário de elevada oferta, a Conab promoveu uma nova rodada de COVs, desta vez para 110 mil toneladas, também da safra 2024/25, com preço de exercício de R$ 73,00 por saca. Nessa ocasião, houve adesão integral por parte dos produtores, refletindo o quadro de preços deprimidos no mercado interno.
Aquisição
Diante da continuidade da pressão baixista e das perspectivas de mercado para o restante de 2025, o governo federal, por meio da Conab, anunciou um novo pacote de medidas de amparo à comercialização via PGPM. As ações incluem a aquisição do governo federal, com intenção de compra de cerca de 137 mil toneladas de arroz em casca, priorizando a região Sul, responsável pela maior parte da produção nacional. O investimento previsto é de aproximadamente R$ 200 milhões, voltado a garantir renda ao produtor e oferecer uma sinalização clara de preço de referência para o mercado, estimulando a manutenção da área cultivada com arroz em todo o país.
Complementarmente, estão previstas operações de prêmio de equalizador pago ao produtor rural e sua cooperativa (Pepro) e de prêmio para escoamento de produto (PEP), voltadas ao deslocamento do excedente produtivo das regiões produtoras para os principais centros consumidores. Com orçamento estimado em R$ 100 milhões, essas ações deverão viabilizar o escoamento de aproximadamente 470 mil toneladas de arroz, contribuindo para o equilíbrio da oferta interna e a redução das oscilações de preços.
No total, entre as aquisições diretas e as subvenções ao escoamento, o governo deverá operar cerca de 800 mil toneladas de arroz em casca, volume que representa mais de 50% do excedente produtivo estimado para a safra 2024/25, de 1,56 milhão de toneladas. As medidas têm como objetivo recompor a rentabilidade dos produtores, ampliar os estoques públicos e promover maior estabilidade no mercado interno.
Em um cenário de ampla oferta e margens reduzidas, a atuação da Conab reafirma-se como um pilar estratégico para o equilíbrio da cadeia orizícola, fortalecendo a conexão entre a política agrícola e a sustentabilidade econômica do setor.
Sérgio Roberto Gomes dos Santos Júnior
Gerente de Produtos Agropecuários da CONAB

