Indicador volta ao menor patamar em 14 anos
Em outubro de 2025, o preço médio do indicador Cepea/Irga(RS), tipo 1, 58/10, teve média de R$ 58,00/sc de 50 kg, o menor patamar real desde julho de 2011, quando foi cotado a R$ 55,23/sc (valores deflacionados pelo IGP-DI, base set/25). As quedas observadas em oito dos 10 meses de 2025 pressionaram as cotações abaixo do estabelecido pela Política de Garantia de Preço Mínimo (PGPM), levando o governo a intervir por meio de compras e sinalizações de leilões de escoamento da produção a outras localidades, a fim de conter expressiva desvalorização.
Desde meados de setembro, os valores médios recebidos pelos orizicultores gaúchos, representados pelo indicador Cepea/Irga-RS, estão abaixo do preço mínimo, coincidindo com o cultivo da nova safra. O cenário tende a resultar na queda da área cultivada no ciclo 2025/26, pois as cotações atuais, praticamente, não cobrem custos operacionais ou os custos totais da atividade.
De outubro de 2024 a outubro de 2025, os preços do arroz em casca caíram 51,4%. A pressão decorre, em grande parte, do aumento da disponibilidade interna sem o correspondente avanço da demanda, sobretudo das exportações, insuficientes para absorver a oferta excedente. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), enquanto a disponibilidade interna da safra 2024/25 cresceu 18,1%, a demanda aumentou 5,8%, elevando os estoques de passagem ao maior nível já registrado, quase 19% do consumo interno anual.
O mercado internacional reforçou a queda. A produção global segue em níveis recordes, elevando a relação entre estoques de passagem e consumo ao patamar mais alto do século 21. Segundo o índice de preços da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para o índica, as cotações internacionais recuaram mais de 29,1% em 12 meses (considerando ainda a variação cambial do dólar frente ao real). No caso do arroz importado pelo Brasil, a desvalorização foi mais expressiva: mais de 49% em moeda nacional no período, movimento que se reflete nas cotações domésticas do arroz em casca.
Os preços do arroz beneficiado divulgados pelo Irga para a região de Porto Alegre recuaram 24,6% em 12 meses – bem menos que o observado no campo. A diferença entre o valor pago ao produtor e o beneficiado chama atenção. O Irga indica que, em outubro, o produto beneficiado na região de Porto Alegre (RS) foi cotado, em média, a R$ 186,96/sc (equivalente a 50 kg), valor 3,22 vezes superior ao do arroz em casca. Essa relação é a maior desde o início da série histórica do indicador Cepea/Irga-RS, em julho de 2005, cuja média é 2,15 vezes acima do arroz em casca.
No varejo, segundo o IPCA/IBGE, o contexto é semelhante: em 12 meses, o recuo médio ao consumidor foi de 23,9%. Assim, não sentiram plenamente as quedas verificadas na origem, o que é natural, considerando a incorporação de custos adicionais ao longo da cadeia, como transporte, energia e margens comerciais.
Ao se analisar o comportamento de preços de janeiro de 2020 a outubro de 2025, período que abrange a pandemia de covid-19 e a posterior normalização das transações, observa-se que, apesar das recentes quedas, o arroz em casca ainda é comercializado a valores nominais 16,9% acima dos de janeiro de 2020. O importado ficou 27,4% maior no período. O arroz beneficiado teve preço médio em out/25 94,1% maior que em jan/20 e, no varejo, o aumento acumula 59,2%.
Na prática, o elo mais pressionado tem sido o produtor, inserido em um ambiente de concorrência mais acentuada e menor poder de barganha.
No campo, a temporada começa pessimista, reflexo da baixa rentabilidade. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), os custos operacionais nas regiões de Camaquã e Uruguaiana (julho/setembro/25) caíram 2% a 5% abaixo do observado em igual período de 2024.
Apesar da alta nos gastos com fertilizantes, houve redução em itens como defensivos, sementes e irrigação. Assim, a receita bruta média caiu 43% na relação anual, levando as margens operacionais a níveis próximos de zero ou mesmo negativos.
De julho a setembro de 2024, as margens sinalizavam um retorno entre 65% e 75% sobre o custo operacional, o que justificou o crescimento da área com a cultura.
Com a intensificação das quedas em outubro, as margens dos produtores tornaram-se negativas, considerando a venda da produção e os desembolsos com insumos. Para ao menos cobrir os custos operacionais, precisariam atingir produtividades superiores a 170,2 sacas por hectare em Camaquã e 175,4 sacas em Uruguaiana – metas desafiadoras diante das condições de mercado atuais.
Lucilio Rogerio Aparecido Alves
Professor da Esalq/USP Pesquisador responsável pelas Equipes de Grãos, Fibras e Amidos do Cepea – lralves@usp.br
