Embrapa vai testar arroz vermelho e preto no Baixo São Francisco de AL
Com maior valor agregado e possibilidade de atender nichos específicos, arrozes vermelho e preto devem iniciar testes para cultivo no segundo semestre do ano em Alagoas. Foto: Divulgação
Com apoio da Embrapa, estado pretende iniciar no segundo semestre o cultivo de arrozes especiais, mirando nichos de maior valor agregado
(Por Vanessa Siqueira / Movimento Econômico) Com uma produção de arroz branco em crescimento nos últimos três anos na região do Baixo São Francisco, Alagoas quer agora ampliar a variedade de cultivares nos municípios de Igreja Nova, Penedo e Porto Real do Colégio. A ideia é iniciar no segundo semestre do ano o plantio de arrozes especiais, do tipo vermelho e preto.
As ações serão realizadas pela Embrapa Arroz e Feijão, de Goiás, e fazem parte do programa Alagoas Mais Arroz. Segundo o secretário de Agricultura de Alagoas, Marcelo Melo, já foram realizadas capacitações dentro do programa para produtores da região e a ideia agora é aproveitar para trabalhar cultivares especiais na região, além de ampliar a área plantada de arroz de sequeiro.
“Na próxima etapa do Alagoas Mais Arroz, nós vamos trazer a Embrapa Arroz e Feijão lá de Goiás durante o segundo semestre deste ano para trabalhar a produção de arrozes especiais, como o preto e o vermelho, com variedades desenvolvidas para características distintas de sabor e cor e que dão maior valor agregado ao produto. E também vamos inserir na rota o arroz de sequeiro no município de Penedo”, revelou Marcelo Melo.
A Embrapa Arroz e Feijão (GO) explicou ao Movimento Econômico que a ideia de inserir e trabalhar grãos especiais no Baixo São Francisco alagoano é buscar atender nichos diferentes de mercado, como restaurantes que buscam produzir pratos mais sofisticados, e atender ao público que insere esses grãos em dietas mais saudáveis.

Arroz vermelho e preto ampliam oportunidades de produtores
O arroz vermelho já vem sendo cultivado em vários municípios nordestinos e está presente na culinária local. Um dos polos de produção regional fica no Vale do Pinacó, na paraíba. O grão vermelho também é considerado uma fortaleza Slow Food, já que possui apelo de preservação da biodiversidade local.
O Slow Food localiza, cataloga, descreve e divulga sabores quase esquecidos de produtos ameaçados de extinção, mas ainda vivos, com reais potenciais produtivos e comerciais.
O Brasil já conta com seis fortalezas, dentre elas, o feijão canapu (feijão-caupi / feijão-de-corda) da região de Picos, Piauí, e o arroz vermelho do Vale do Piancó, Paraíba, ambos objetos de trabalhos da Embrapa Meio-Norte.
No Nordeste, o arroz vermelho é tratado como um dos principais alimentos cultivados na Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Ceará, Bahia e Alagoas. No Sertão Paraibano, é consumido principalmente com feijão-caupi (feijão-de-corda) e queijo coalho, num prato conhecido como Rubacão. No Ceará, é muito utilizado na alimentação de parturientes, pois se acredita que ele possua propriedades que propiciam o aumento da produção de leite.
Pioneiramente, a Embrapa deu início nos últimos anos a um trabalho de coleta e preservação de variedades tradicionais de arroz vermelho plantadas no país e está desenvolvendo também um programa de melhoramento genético.
Mesmo sendo uma planta semi-aquática, que necessita de um considerável volume de água, o arroz vermelho se adaptou e se propagou no Sertão do Nordeste, onde a pluviosidade média não costuma ser além dos 800 milímetros.
Com a ampliação do cultivo para o Sul de Alagoas, a Embrapa Arroz e Feijão acredita que o produtor rural poderá aproveitar as oportunidades para valorizar e agregar valor na hora de comercializar esse tipo de grão.

Já o arroz preto também será introduzido como forma de aproveitar nichos de mercado, apesar de não ser tradicionalmente produzido no Brasil, mas pode gerar valor agregado ao grão por estar ligado a pratos da culinária requintada em grandes centros urbanos na região Sudeste.
O objetivo é gerar oportunidades para ter grãos diferenciados em que o produtor rural possa ter sua produção mais valorizada na hora de vender e comercializar com a indústria.
Em fevereiro, a Embrapa lançou a cultivar de arroz preto, BRS AS707, fruto de mais de dez anos de pesquisa.
O pesquisador José Manoel Colombari Filho, da Embrapa Arroz e Feijão, de Goiânia/GO explicou que a cultivar apresenta grãos com coloração preta intensa e presença de compostos bioativos com potencial antioxidante, anti-inflamatório e protetor contra doenças crônicas, atributos que ampliam seu valor nutricional e apelo funcional.
De ciclo médio e com potencial produtivo competitivo, a BRS AS 707 combina desempenho agronômico satisfatório com características físicas e químicas do grão que favorecem a oferta de um produto diferenciado.
Com a possibilidade de atender nichos específicos de mercado, o arroz preto vai elevar o patamar de rentabilidade no campo apresentando características agronômicas superiores, como arquitetura de planta moderna, alta produtividade e resistência a doenças.

Produção de arroz cresceu 41% em três anos no Baixo São Francisco
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de arroz branco nos municípios de Porto Real do Colégio, Igreja Nova e Penedo saiu de 17 mil toneladas em 2023 para mais de 24 mil toneladas em 2025, um crescimento de 41%.
A área colhida na região do Baixo São Francisco chegou a 2.691 hectares em 2025, com produtividade média de 8,47 toneladas por hectare.
O município com maior produção e produtividade na safra 2025/2026 foi Igreja Nova, com 12,5 mil toneladas de arroz em casca e produtividade de 9,74 ton/ha. Em seguida vem Porto Real do Colégio (10,6 mil ton de produção e produtividade de 8,34 ton/ha) e Penedo (9,5 ton e 8,19 ton/ha).
A Embrapa Alimentos e Territórios (Maceió-AL) e a Embrapa Arroz e Feijão (Santo Antônio de Goiás-GO), em conjunto com a Seagri vem desenvolvendo ações para incrementar a produção na região. O programa Alagoas Mais Arroz tem distribuído sementes e ajudado na orientação e acompanhamento técnico pela extensão rural para manejo de lavouras.
Além disso, prevê-se a promoção de incentivos fiscais à produção, investimento em maquinários e fomento a projetos agrícolas e de beneficiamento. Os centros de pesquisas da Embrapa entram nessa iniciativa com a implantação de unidades demonstrativas, a fim de apresentar a genética superior de cultivares de arroz irrigado como a BRS A704, BRS A705 e BRS A706 CL.
O estado hoje tem um consumo médio interno de 87 mil toneladas de grãos, e a produção de arroz vem registrando crescimento. De acordo com a Embrapa, a região do Baixo São Francisco dispõe de potencial produtivo, com condições climáticas e de solo favoráveis que, aliadas a um manejo adequado, possibilitam alcançar elevadas produtividades, por vezes superiores às de regiões tradicionais, como o Rio Grande do Sul.


