IA edita genes do arroz: ferramenta pode acelerar busca por variedades mais resistentes

 IA edita genes do arroz: ferramenta pode acelerar busca por variedades mais resistentes

Ferramenta genética projetada com inteligência artificial foi testada em arroz e conseguiu realizar alterações precisas no DNA da planta.

Uma enzima desenhada por inteligência artificial editou genes do arroz com precisão comparável à ferramenta CRISPR-Cas9, abrindo uma frente de pesquisa para desenvolver plantas mais adaptadas a doenças e estresses ambientais em diferentes regiões agrícolas.

(Por Diego Portalanza / Meteored Brasil) Uma enzima criada com ajuda de inteligência artificial conseguiu realizar alterações precisas no DNA do arroz, um dos alimentos mais consumidos do planeta. Em testes de laboratório, o sistema OpenCRISPR-1 cortou, substituiu e reescreveu trechos de genes da planta, obtendo resultados comparáveis aos de uma das ferramentas genéticas mais usadas atualmente, a CRISPR-Cas9.

Publicado na revista New Phytologist e destacado pela Nature, o trabalho não apresenta uma nova variedade pronta para chegar ao campo ou ao prato. O avanço está na ferramenta: ela amplia o conjunto de “tesouras moleculares” que cientistas poderão testar para desenvolver plantas com características úteis, como resistência a doenças ou melhor adaptação a estresses ambientais.

Uma tesoura genética desenhada por computador

As ferramentas CRISPR funcionam como mecanismos guiados até um ponto específico do DNA. Em geral, elas derivam de proteínas encontradas em bactérias.

A novidade do OpenCRISPR-1 é que sua sequência foi projetada com inteligência artificial, a partir de padrões aprendidos em uma enorme diversidade de proteínas naturais. Antes testada em células humanas, a enzima agora foi adaptada para funcionar em células vegetais.

O arroz, base da alimentação em diferentes regiões do mundo, foi usado para validar uma nova alternativa às técnicas convencionais de edição genética.

Os pesquisadores otimizaram o sistema para o arroz e compararam seu desempenho com a Cas9 convencional. Em células isoladas da planta, a nova ferramenta produziu alterações em diferentes genes.

Depois, em plantas regeneradas, conseguiu gerar mutações no gene escolhido em 36% das linhas analisadas, resultado estatisticamente semelhante ao sistema tradicional, que alcançou 48% sob as mesmas condições.

Do corte do DNA à troca de letras

A edição genética pode ir além de desligar um gene. Dependendo da ferramenta acoplada à “tesoura”, é possível trocar uma única letra do DNA ou inserir uma pequena correção planejada, sem provocar grandes rupturas no material genético.

“No arroz, os pesquisadores testaram o OpenCRISPR-1 em diferentes modalidades de edição.”

Na prática, o sistema apresentou três capacidades relevantes:

– Interromper genes: removeu um trecho de 573 pares de bases em um alvo do genoma do arroz.
– Trocar letras do DNA: realizou edição de adenina e de citosina; nesta última modalidade, superou a Cas9 nos três alvos avaliados.
– Fazer correções programadas: executou a chamada prime editing, embora tenha sido menos eficiente que a Cas9 em dois dos três pontos testados.

Os resultados mostram que a ferramenta é versátil, mas não indicam que ela substitua imediatamente a Cas9. O desempenho variou conforme o gene e o tipo de edição.

O avanço exige novos testes

O arroz é uma cultura estratégica para a alimentação mundial e também está presente diariamente na mesa dos brasileiros. Uma tecnologia capaz de tornar a edição genética mais flexível pode, no futuro, ajudar a acelerar pesquisas voltadas a doenças, qualidade dos grãos, produtividade ou tolerância à seca e ao calor.

Esses benefícios, porém, não foram demonstrados neste estudo: o trabalho comprovou o funcionamento da ferramenta.

Outro ponto importante é que o OpenCRISPR-1 foi apresentado como uma tecnologia de código aberto, o que pode facilitar seu uso por diferentes grupos de pesquisa e reduzir barreiras no desenvolvimento de novas aplicações. Ainda será preciso testá-lo em outras culturas, avaliar segurança, estabilidade e desempenho em condições reais de cultivo.

A descoberta não significa que um arroz editado por inteligência artificial chegará imediatamente aos supermercados, mas indica que a ciência ganhou uma nova opção para buscar soluções agrícolas mais precisas em um mundo pressionado pela demanda por alimentos e pelos extremos climáticos.

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