O agro gaúcho precisa de reformas, não de promessas
Domingos Velho Lopes: presidente da Farsul tem o mercado do arroz como uma prioridade
Aos 57 anos, Domingos Antonio Velho Lopes é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e produtor rural desde 1992, com atuação em Mostardas e Palmares do Sul. Nascido em 1968, construiu trajetória de liderança no setor orizícola gaúcho. Iniciou a vida institucional em 1997, como presidente do Sindicato Rural de Mostardas, ingressou na diretoria da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) em 2003 e passou a integrar a Comissão de Arroz.
Foi secretário estadual da Agricultura do RS em 2022 e assumiu a presidência do Sistema Farsul para a gestão 2026–2029. À frente da entidade, elegeu como prioridades uma gestão técnica e a busca de soluções para os entraves da cadeia produtiva do arroz, ampliar a competitividade do agro gaúcho, fortalecer a segurança jurídica e modernizar as políticas de crédito e de gestão de riscos climáticos. Nesta entrevista, ao editor Cleiton Evandro dos Santos, passou a limpo a conjuntura atual, tendências e desafios que deflagram ações e preocupações da Farsul.
Planeta Arroz – O Rio Grande do Sul historicamente oscila entre safras recordes e quebras severas. Diante dos custos de produção crescentes, especialmente nos insumos, como a Farsul avalia a competitividade atual da soja e do arroz gaúchos em comparação com o Centro-Oeste brasileiro e os vizinhos do Mercado Comum do Sul (Mercosul)?
Domingos Velho Lopes – “Muito embora essas comparações sejam próprias, uma vez que o consumidor interno ou externo não distingue a origem do produto, do nosso ponto de vista, há uma grande assimetria. O Centro-Oeste, ao produzir duas vezes, constitui a vantagem de distribuir os custos fixos em mais de uma cultura no mesmo ano, o que o torna mais competitivo. Além do mais, as perdas observadas lá são tímidas quando comparadas as nossas aqui. Já os vizinhos do Mercosul possuem um nível de abertura para aquisição de insumos que torna os custos destes mais baixos do que os nossos, já que políticas de desenvolvimento industrial, que não parecem atingir o objetivo, deixam um legado de custos mais altos para o agro. O arroz dos vizinhos pode entrar para cá, mas os insumos, máquinas ou peças de máquinas que poderiam nos ajudar a reduzir custos e sermos mais competitivos, não. Isso torna a competição injusta.
“O arroz dos vizinhos pode entrar para cá, mas insumos, máquinas ou peças mais baratas, não.”
Planeta Arroz – O setor orizícola tem passado por uma reconfiguração de área plantada, com a entrada da soja em rotação nas várzeas. O senhor acredita que atingimos um ponto de equilíbrio ideal nessa integração arroz-pecuária-soja, ou ainda há espaço para expandir sem comprometer a oferta estratégica de arroz para o mercado interno?
Domingos Velho Lopes – Eu não enxergo nenhum problema de abastecimento do mercado interno; Zero! Aliás, o governo federal teve uma iniciativa rechaçada por nós de importação de produtos asiáticos em 2024 sob esse pretexto e o tempo transcorrido demonstrou o absurdo daquela estranha medida. No ano de 2025 produzimos uma safra superior em 20% ao consumo interno e estamos sofrendo com os baixos preços decorrentes deste excesso. Sendo assim, me parece claro que ainda há espaço para expansão de outras produções na várzea, até que surjam alternativas de consumo, como etanol de arroz por exemplo, que dê tranquilidade para o arrozeiro expandir a área.
Planeta Arroz – O endividamento do produtor gaúcho é um problema crônico, agravado pelas estiagens sucessivas dos últimos anos e, mais recentemente, pelos eventos climáticos extremos. As medidas de renegociação anunciadas pelo Governo Federal até agora são suficientes para garantir que o produtor não apenas pague suas contas, mas tenha capital de giro para a próxima safra?
Domingos Velho Lopes – Não, com toda a certeza não. As medidas vieram tarde, com prazos curtos e, para imensa maioria do endividamento, com taxas de juros que tornam o problema ainda maior ao longo dos próximos anos. Para muitos, as exigências para acessar ao crédito tornam essa opção inviável.
“As políticas agrícolas clamam por modernizações”
Planeta Arroz – Securitização e alongamento de dívidas: a Farsul defende algum mecanismo novo ou diferenciado aos produtores que enfrentaram perdas consecutivas em safras frustradas, evitando que eles saiam da atividade por insolvência?
Domingos Velho Lopes – O PL 5.122 foi concebido dentro da Farsul. O mecanismo técnico, o prazo, a fonte dos recursos, os juros, etc. tudo foi definido por nós. A taxa de aprovação de um PL na Câmara dos Deputados é de apenas 0,5% e este foi aprovado, não é uma promessa, uma tese, mas um fato. Está aprovado na Câmara e só não foi no Senado (ainda), porque o Governo Federal queria utilizar os recursos do Fundo Social do Pré-Sal para o Minha Casa Minha Vida e o Programa de reformas de casas em pleno ano eleitoral. O PL 5.122 encontrou uma excelente articulação política liderada pelo Deputado Afonso Hamm e um grande trabalho jurídico pela Consultoria do Legislativo. Quando há robustez técnica, política e jurídica as chances aumentam muito e foi o que aconteceu. Quase conseguimos colocar em votação no Senado no final do ano passado e vamos seguir insistindo na retomada dos trabalhos do legislativo
Planeta Arroz – Temos visto críticas recorrentes sobre a eficácia dos mecanismos de apoio à comercialização (como AGF, PEP e PEPRO) em momentos de preços deprimidos. Na visão da Farsul, o modelo atual de seguro rural e de garantia de preços mínimos precisa de uma reforma estrutural para ser realmente efetivo no RS?
Domingos Velho Lopes – Temos políticas agrícolas desenhadas no tempo e para o tempo em que o Brasil importava alimentos. Somos o maior exportador de alimentos do mundo com elevado endividamento, altíssima inadimplência e agora uma enxurrada de Recuperações Judiciais. Nos parece bastante claro que as políticas agrícolas clamam por modernizações, que olhem o Brasil do presente e do futuro e não o do passado.
Planeta Arroz – O mercado internacional tem sido a válvula de escape para impedir queda maior ou recuperar preços do arroz brasileiro. Quais são as barreiras logísticas ou diplomáticas que a Farsul identifica e que ainda impedem o arroz gaúcho de ter uma presença mais agressiva no comércio internacional?
Domingos Velho Lopes – O Brasil está muito preso ao acordo do Mercosul, que passados quase 36 anos tivemos avanços tímidos. Já o bloco aguarda da União Europeia um acordo há 26 anos. O Brasil perde um tempo que não tem para perder.
Planeta Arroz – A Reforma Tributária traz grandes incertezas para o agronegócio. Qual é a maior preocupação da Farsul em relação ao texto atual?
Domingos Velho Lopes – Não há aumento da carga tributária da cesta básica porque está ficou isenta, após um grande trabalho da CNA. Nossa preocupação é com a carga tributária total, com os constantes aumentos de impostos por parte do governo, que tiram a nossa competitividade. Com a reforma tributária nossa maior preocupação é com os créditos a que os produtores terão direito. Isso precisa ficar claro e representar algum avanço, não um retrocesso.
Planeta Arroz – Existe temor de que a tributação sobre insumos ou a mudança no repasse de ICMS possa desestimular o investimento em tecnologia no campo gaúcho nos próximos anos?
Domingos Velho Lopes – A tributação sobre insumos existe e, a depender do que decidir o STF sobre defensivos, poderá aumentar ainda mais. Com a reforma o produtor terá direito a crédito. A grande diferença é que atualmente o produtor paga e não sabe e, com a reforma, pagará, saberá e poderá buscar crédito
Planeta Arroz – O Rio Grande do Sul foi o epicentro de eventos climáticos extremos recentes. Além de cobrar ações do governo, qual o papel da Farsul na orientação técnica para que o produtor adote práticas de mitigação, como a reservação de água e o manejo de solo, para tornar a lavoura mais resiliente?
“Sem segurança jurídica, não há investimento; portanto, não há futuro para o campo.”
Domingos Velho Lopes – A Farsul apoia os órgãos de extensão rural, em especial o SENAR, que levam aos produtores rurais aporte técnico e científico para dentro das propriedades rurais. Na outra ponta, a Farsul tem atuado diretamente na atualização das políticas públicas que incentivam a irrigação, reservação de água e melhoramento de solo.
Planeta Arroz – A pauta ambiental internacional pressiona cada vez mais por rastreabilidade e sustentabilidade. Como o senhor enxerga a preparação do produtor gaúcho para atender a essas exigências sem perder rentabilidade, especialmente na pecuária de corte?
Domingos Velho Lopes – O Brasil é exemplo mundial de atividade agrossilvipastoril sustentável e resiliente, em especial o Rio Grande do Sul que é berço da agricultura de baixo carbono. É necessário transformarmos esta realidade em um ativo comercial e ambiental, trazendo resultados econômicos aos produtores rurais gaúchos e brasileiros. Quanto a pecuária de corte seguirá nesta esteira, pois somente o Brasil terá capacidade de suprir a crescente demanda mundial por proteína animal. Caberá a nós produtores estarmos atentos as oportunidades que se avizinham.
Planeta Arroz – Olhando para o futuro próximo, qual é a leitura da Farsul sobre a sucessão familiar no campo? O endividamento e a instabilidade climática estão acelerando o êxodo dos jovens ou a tecnificação está conseguindo reter novos talentos na gestão das propriedades?
Domingos Velho Lopes – Sem dúvidas este é um dos grandes desafios da gestão rural atual. Temos convicção que o endividamento e grande incidência de eventos climáticos extremos afugentam a juventude das propriedades rurais, caberá a nós intensificarmos e profissionalizarmos as atividades rurais, alicerçadas na inovação tecnológica, nas práticas ambientais resilientes e no profissionalismo da gestão financeiras dos nossos negócios.
Planeta Arroz – Para encerrar, presidente: se o senhor tivesse que elencar a prioridade “número um” para garantir a sobrevivência e o crescimento do agronegócio gaúcho nos próximos cinco anos, seria a infraestrutura logística, a segurança jurídica ou a política de crédito?
Domingos Velho Lopes – Não há dúvidas que a segurança jurídica é o alicerce da sociedade e esta está representada pelo direito de propriedade, livre iniciativa, meritocracia e o Estado mínimo.
