El Niño ameaça agravar crise dos produtores de arroz no Rio Grande do Sul

 El Niño ameaça agravar crise dos produtores de arroz no Rio Grande do Sul

Uma fazenda de arroz com danos após enchente histórica no Rio Grande do Sul, em maio de 2024

Responsável por cerca de 70% do arroz produzido no Brasil, o Rio Grande do Sul encerra a colheita com previsão de queda de 10,4% na safra, para cerca de 7,8 milhões de toneladas

(Por Bloomberg) A aproximação do El Niño ameaça aprofundar uma crise financeira entre produtores de arroz no sul do Brasil, onde anos de eventos climáticos extremos já elevaram os custos e obrigaram a principal região produtora do país a reduzir os planos de plantio futuro.

O Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz, conclui a colheita com produção total prevista para recuar 10,4%, para perto de 7,8 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Otavio Sousa, no extremo sul do estado, encerrou o ciclo atual sem perspectiva de melhora no curto prazo. “Estou tentando, mas não tem coisa que a gente faça que pague”, disse o produtor e agrônomo de 60 anos. “Este ano, com certeza vamos marcar prejuízo com o preço que nós estamos vendendo hoje.”

O surgimento de um padrão climático El Niño ocorre depois de produtores brasileiros já terem sofrido neste ano, depois que guerra no Irã elevou os preços dos fertilizantes e os custos com combustíveis. Isso se soma a uma série de outros problemas que vêm pressionando os agricultores — incluindo outros eventos climáticos severos.

Evandro Oliveira, analista da Safras & Mercados, disse que a pandemia, o histórico de estiagem e, em seguida, a sequência de chuvas intensas ajudaram a desequilibrar as finanças do produtor. Para ele, a relação entre “custo, preço e produtividade” saiu do eixo, com perdas de rendimento, despesas mais altas e preços de comercialização estagnados.

“O El Niño é o pior cenário possível para o arroz”, disse Oliveira. “Mas agora resta saber qual a intensidade. Se for um El Niño forte, o cenário para o arroz vai ser bastante complexo.” Caso os padrões climáticos do passado se repitam, acrescentou, a produção nacional pode ficar abaixo dos níveis de consumo.

El Niño

O El Niño, confirmado por cientistas no início deste mês, altera padrões climáticos globais, e o atual pode estar entre os mais fortes já registrados. Um relatório de junho do Itaú BBA indicou que chuvas acima da média podem atrasar o plantio de arroz, que começa em setembro, enquanto a falta de sol provocada pelo tempo nublado também pode limitar a produtividade.

O clima tem sido uma ameaça recorrente para produtores no Rio Grande do Sul. A região enfrentou seca em 2022, enchentes em 2023, chuvas devastadoras entre abril e maio de 2024 e uma nova rodada de precipitações intensas em maio de 2025, que atingiu regiões tradicionais do cultivo de arroz, como Santa Vitória do Palmar e Alegrete.

“A gente perdeu muita coisa”, recordou Otavio, incluindo cerca de metade do arroz plantado durante o episódio mais crítico de chuvas fortes.

Qualquer nova safra desenvolvida sob influência do El Niño volta a acender o alerta, e a principal preocupação para o arroz é o risco de alagamentos, segundo Ludmila Camparotto, agrometeorologista da Rural Clima. “Nós tivemos no último ano enchentes no Rio Grande do Sul, que trouxe perdas principalmente para a parte civil, mas, claro, também para o agro”, disse ela.

Em Alegrete — município de cerca de 72,4 mil habitantes e reconhecido como “capital gaúcha” culturalmente —, as chuvas de maio de 2025 forçaram moradores a deixar suas casas. Produtores locais que perderam lavouras em anos anteriores foram atingidos novamente e ainda não se recuperaram plenamente, com o impacto da guerra no Irã acrescentando mais pressão.

O produtor rural de Alegrete Lucas Di Napoli disse que o custo “ficou fora da realidade” para agricultores que precisam equilibrar despesas enquanto os preços dos grãos caem. “Não tem conta que feche”, acrescentou.

Mesmo sem outro choque climático, o setor entra enfraquecido no próximo ciclo. Sousa já havia reduzido a área de arroz em cerca de 15% em 2023, mas disse que um corte de 20% teria sido o ideal. Apesar do aumento da produção na safra atual, ele provavelmente reduzirá ainda mais a área plantada.

“É muita preocupação no futuro, porque a gente já perdeu na enchente”, disse Sousa.

O aperto já redesenha o mercado de arrendamento rural no Rio Grande do Sul. Alessandro Acosta, sócio-fundador da Safras & Cifras, disse que produtores começaram a encerrar contratos ou a renegociar valores menores quando os arrendamentos chegam ao vencimento.

“Esse é o momento de ficar só com os ótimos, porque os bons estão ruins, tamanha a situação”, recorda Acosta, citando o que ouviu de um cliente.

Com a aproximação da próxima temporada de plantio, produtores seguem presos entre mercados voláteis e um clima imprevisível.

“Ainda tem muitas variáveis a serem pensadas. Por isso que o produtor está se sentindo numa sinuca de bico”, disse Oliveira.

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