Ajuste forçado reduz área e produção de arroz no Mercosul
Os quatro principais produtores de arroz do Mercosul — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — deverão consolidar o enxugamento conjunto de 239 mil hectares na área semeada na safra 2025/26. A retração da superfície cultivada em 9,8%, somada às questões de produtividade, deve reduzir a colheita em 2,4 milhões de toneladas de arroz em casca, levando a produção total do bloco para 15,12 milhões de toneladas, volume 13,8% inferior ao ciclo anterior, que registrou um recorde de colheita.
O movimento é explicado por uma combinação de clima adverso, menor investimento tecnológico e a baixa capacidade de pagamento do setor produtivo depois de mais um ano em que os preços médios de venda não cobriram os custos de produção. Os insumos subiram em plena safra, mas os preços se mantiveram retrocedendo até o início de março, ganharam algum fôlego de recuperação no final de março e em abril, em especial no Sul do Brasil e no Paraguai, e voltaram a cair em maio. O desequilíbrio entre cotações de venda ao longo da cadeia e o aumento do endividamento e dos custos de produção, aumentados com a alta dos combustíveis em pleno início da colheita, levou arrozeiros a cortarem custos com insumos e atrasarem as operações, afetando o rendimento médio e a qualidade dos grãos em parte das lavouras.
Brasil puxa a queda em volume
Em termos absolutos, o Brasil lidera a retração regional. A Conab indica redução de 174,4 mil/ha de área plantada, mais do que toda a lavoura uruguaia de arroz, passando de 1,76 milhão para cerca de 1,59 milhão de hectares (-9,9%). A produção tende a cair 1,7 milhão de toneladas na comparação anual.
Argentina tem maior recuo proporcional
A Argentina registrará a maior queda percentual de produção do bloco (-17,3%), de 1,595 milhão para 1,32 milhão de toneladas. A área encolhe 15,7%, reflexo do baixo estímulo econômico e clima muito nublado, que limitaram a produtividade. Mesmo detendo os melhores índices de produtividade regional e colhendo cerca de 9 mil quilos por hectare, o Uruguai também reduziu a área em 10,5% e projeta colher cerca de 200 mil toneladas a menos, impactado por temperaturas mais baixas e menor luminosidade ao longo do ciclo.
Paraguai enfrenta risco climático maior
No Paraguai, o cenário é incerteza. Relatos na cadeia produtiva informam que parte da área prevista não chegou a ser cultivada por causa do clima adverso. Diante da expectativa de 225 mil hectares, confirmaram-se apenas 203 mil. Estima-se que 50% das áreas foram semeadas fora da janela ideal, entre outubro e os primeiros dias de janeiro, quando o ideal seria de agosto a outubro. Esse cenário afetou a produtividade. Desta forma, ao invés de quase 1,5 milhão de toneladas previstos para a produção guarani em 2026, espera-se cerca de 1,27 milhão, ou -15,5%.
Conmasur: oferta cai em 2026/27
O Mercosul deverá registrar uma safra de arroz menor em 2026, após o forte avanço produtivo observado no ciclo anterior. Dados divulgados pela Confederación de Molinos Arroceros del Mercosur (CONMASUR), reunida no Chile no início de maio, apontam produção regional de 15,41 milhões de toneladas, volume 2,22 milhões de toneladas inferior ao de 2025.
A retração ocorre principalmente no Brasil, que deverá colher 11,12 milhões de toneladas, além de reduções também previstas para Argentina, Paraguai e Uruguai. A queda está ligada à diminuição da área semeada, reflexo das margens apertadas enfrentadas pelos produtores ao longo do último ano e do clima na primavera de 2025.
Mesmo com redução na oferta, o abastecimento regional permanece confortável devido aos elevados estoques herdados da safra recorde passada. O bloco iniciou o ciclo 2026 com estoque inicial superior a 2,72 milhões de toneladas, sendo mais de 2,18 milhões concentrados no Brasil. Com isso, o estoque final projetado para fevereiro de 2027 ainda deverá permanecer elevado, em torno de 2,53 milhões de toneladas, na visão das indústrias.
No comércio regional, o Brasil seguirá como principal destino do arroz produzido pelos países vizinhos, com importações estimadas em 1,3 milhão de toneladas dentro do Mercosul. Já as exportações extrabloco do conjunto regional devem atingir 3,63 milhões de toneladas, lideradas por Brasil e Uruguai. O cenário aponta para um mercado mais equilibrado do que em 2025, reduzindo parte da pressão baixista sobre os preços, embora os estoques elevados ainda devam limitar movimentos mais intensos de valorização ao longo do ano.


