“A próxima revolução está na genética”
Valmir Gaedke Menezes, da Oryza & Soy
O engenheiro agrônomo Valmir Gaedke Menezes, considerado o “pai do Projeto 10” do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), foi um dos responsáveis por transformar o manejo e a produtividade da lavoura arrozeira gaúcha nas últimas duas décadas e pelo aporte tecnológico que dobrou a produtividade.
A partir da constatação de que muitas tecnologias não chegavam de forma integrada aos produtores, o programa sistematizou práticas de manejo que revolucionaram a cultura no Rio Grande do Sul e elevaram os índices de produtividade de 5,3 mil quilos por hectare para mais de 9 mil quilos, um dos maiores do mundo.
Mestre em Fitotecnia e especialista em manejos culturais, Menezes foi diretor-técnico do Irga e consultor de empresas e lavouras. Após escrever o nome na história da cultura, segue atento aos gargalos produtivos e, como gestor de uma empresa de melhoramento genético que abocanhou boa fatia do mercado de cultivares, garante que o potencial produtivo pode dobrar sobre os 10 mil kg/ha preconizados pelo Projeto 10, gerando renda e sustentabilidade.
Ao lado dos agrônomos Anderson Vedelago e Cláudia Lange, melhorista e precursora da seleção de variedades de soja para terras baixas, Menezes criou a Oryza & Soy, empresa de melhoramento genético que lançou as cultivares OS 901 CL e OS 902 CL. Em três safras, as variedades alcançaram market share superior a 7% do mercado gaúcho de sementes, consolidando-se entre as quatro mais semeadas e as mais promissoras da orizicultura brasileira em terreno dominado por gigantes como Irga, Embrapa, Basf e RiceTec. Valmir Gaedke Menezes é o nosso entrevistado.
Planeta Arroz – Qual o ponto de virada na evolução dos sistemas de produção de arroz no RS?
Menezes – A lavoura gaúcha teve momentos em que a produtividade obteve incrementos significativos. Eu participei em dois deles. O primeiro, quando ingressava no Irga em 1981. Este salto de produtividade deveu-se às cultivares do tipo moderno, fruto do avanço genético da revolução verde. BR IRGA 409 e BR IRGA 410 alcançaram 90% da área e traziam características de produtividade e qualidade de grãos. Eram de porte baixo, mais tolerante ao acamamento.
“É comum encontrar arrozeiros colhendo 10, 11, 12 toneladas de arroz por hectare”
Planeta Arroz – O que mudou?
Menezes – De 1980 até 2003/04, a produtividade no RS manteve-se maior que 4 t/ha e inferior a 6 t/ha. No período, foram agregadas fronteiras agrícolas como Campanha e Fronteira Oeste, onde os solos têm fertilidade natural mais elevada e a infestação por arroz-vermelho, limitante da cultura, era baixa. Em 2004, o rendimento por área ultrapassou 6 t/ha. De 2004 a 2011, a produtividade registrou o maior salto na história do arroz gaúcho, acima de 2 t/ha sobre a média de três safras anteriores. O crescimento médio anual foi de 246 kg/ha ano, enquanto a produtividade mundial registrou 52 kg/ha. Batemos 10 toneladas por hectare em muitas lavouras.
Planeta Arroz – Como se concretizou?
Menezes – Com base na estratégia de manejo do Projeto 10 e o programa Clearfield, da Basf, para controle do arroz-vermelho, que consistia em variedades resistentes a herbicidas do grupo das imidazolinonas. A infestação por vermelho era um grande limitante da produtividade. Na safra passada, a produtividade média de arroz irrigado no RS ficou perto de nove toneladas por hectare. É comum encontrar arrozeiros colhendo 10, 11, 12 toneladas/ha.
Planeta Arroz – O que o campo ensinou que a pesquisa não seria capaz de antecipar?
Menezes – Em geral, se criam falsas dicotomias entre aquilo que é pesuisado nos campos experimentais e o que o produtor faz na lavoura. Fora das estações de pesquisa também se gera conhecimento, ainda que empírico, mas que traz contribuição importante ao processo produtivo. O ‘campo’ também deve entender que o conhecimento gerado nas instituições de pesquisa é relevante. Os agricultores/técnicos de campo, às vezes, olham enviesado aos dados gerados em parcelas pequenas. Mas chegamos aos níveis atuais de produtividade a partir de trabalhos que começaram em laboratórios e pequenas parcelas.
Planeta Arroz – A questão é o conhecimento?
Menezes – Nem todo o conhecimento gerado na pesquisa ou campo contribuem no resultado da lavoura. Para gerar conhecimento em estabilidade, qualidade e produtividade é preciso melhorar a compreensão das demandas culturais. Quanto maior o conhecimento do objeto de pesquisa, mais os resultados atenderão às necessidades setoriais. Não é fácil. São necessários profissionais com formação e visão de manejo integrado da cultura, técnicos, colaboradores e produtores. É fundamental essa visão sistêmica para contribuições relevantes.
“Precisamos construir novo patamar de produtividade”
Planeta Arroz – Em que medida o produtor gaúcho é mais técnico?
Menezes – O caminho da humanidade é evoluir. O produtor de hoje é mais evoluído do que o de ontem e este em relação aos anteriores. Hoje, o agricultor tem os processos organizados e relacionados a fatores como a maior disponibilidade de radiação solar, fundamentais para obter altas produtividades. O Projeto 10 alinhou tecnologias, mas a regra era e permanece sendo fazer cada uma das ações de manejo na hora certa, na quantidade certa e do jeito certo.
Planeta Arroz – Qual a maior contribuição do Projeto 10?
Menezes – Melhorar a organização do processo produtivo de arroz, oportunizando avanços em rendimento por área, qualidade de grão, facilitação do manejo e geração de renda. Hoje, temos bem definidos a melhor época de semeadura, o momento em que deve entrar a irrigação, a hora de controlar plantas daninhas, o nível nutricional, quando e como aplicar fertilizantes, quando tirar a água, o ponto de colheita… As técnicas eram difundidas, mas isoladamente. O P10 organizou o conjunto de práticas e desafiou o produtor com intenso trabalho de extensão, que despertou o interesse e foi mais eficiente porque as primeiras lavouras começaram a colher mais do que no manejo tradicional.
Planeta Arroz – É hora de novo Projeto 10?
Menezes – É fato que precisamos construir novo patamar de produtividade. As 10 toneladas por hectare foram atingidas e o setor busca e vê potencial para isso. Em campos experimentais da Oryza & Soy há tecnologia para produzir 3, 4 ou mesmo 5 toneladas acima da média atual.
Planeta Arroz – Não estamos no limite de produtividade?
Menezes – Não, embora integrantes da cadeia produtiva pensem que sim. Mesmo pensamento havia no início dos anos 2000, com média em 5 t/ha. Nossas estações experimentais produzem 15, 16, 17, 18 e até 20 t/ha. Não é acidental, 5% das áreas produzem o equivalente a 20 t/ha.
Planeta Arroz – A adoção de práticas de manejo enfrenta resistências…
Menezes – A resistência a novas práticas é uma reação natural. Todos somos conservadores em relação ao novo, ao desconhecido. Não foi diferente em relação ao Projeto 10, quando o desafio era enorme: produzir 10 toneladas por hectare quando a média era de 5, e produzir 7,5 toneladas era “confortável”. Por isso, se trabalhou com lavouras demonstrativas, dias de campo, reuniões, palestras e muita capacitação das pessoas envolvidas no processo produtivo.
Planeta Arroz – E qual foi o maior desafio?
Menezes – Fazer com que a equipe de pesquisa do Irga conhecesse a fundo a realidade da lavoura de arroz gaúcha, no campo, na propriedade, conforme viam os agricultores, além dos campos de pesquisas e laboratórios. Quais as fortalezas, debilidades e demandas se apresentavam… sob a ótica de formação.
Planeta Arroz – Mas foi um primeiro passo…
Menezes – Foi importante investir na capacitação dos pesquisadores e extensionistas. Chegamos a capacitar mais de 16 mil funcionários de granjas arrozeiras, pois detectou-se que o setor apresentava resistência às tecnologias. Sem isso, a proposta de mudança não teria resultado. A troca de experiências e intercâmbios com instituições nacionais e internacionais, e entre técnicos e produtores de diferentes regiões gaúchas e do país, foi fundamental.
Planeta Arroz – O modelo de transferência de tecnologia precisa evoluir?
Menezes – Antes de discutir modelos de transferência precisamos saber se o que temos a transferir é bom. Sem tecnologias que agreguem vantagem ao cultivo e resultados, não há bom sistema de transferência. Com tecnologias responsivas em sanidade e produtividade da lavoura e na qualidade do grão, precisa-se evoluir na qualidade e na eficiência de transferir conhecimento a todos os níveis do sistema produtivo. Há mudanças significativas, como a redução do papel desempenhado pelo setor público e o aumento do setor privado.
“Quanto mais difícil a situação econômica, mais é importante a produtividade”
Planeta Arroz – Como determinar novos modelos de transferência?
Menezes – Lideranças do setor, públicas e privadas, precisam discutir e identificar o que será trabalhado.
Planeta Arroz – O que o senhor faria diferente na condução de políticas técnicas ao setor?
Menezes – As ações do Projeto 10 tinham base no conhecimento da tecnologia e perfil da lavoura à época. Não dá para analisar o passado com olhos de hoje. Mas poderíamos ter tido mais intensidade e qualidade na transferência de tecnologia.
Planeta Arroz – Quais as diferenças do setor público ao privado?
Menezes – No Brasil há muita interferência política na gestão das instituições públicas. Há cada quatro anos o foco da empresa muda, às vezes para posições contrárias daquelas que se trabalhava. Dá para afirmar que nenhuma empresa se desenvolve ou atende seu público de forma consistente com este comportamento.
Planeta Arroz – Como consultor, muda a forma de ver a gestão do produtor?
Menezes – Pouco. Eu trabalhava nos programas do Irga por um perfil profissional de gestão. As decisões eram baseadas em indicadores de desempenho no atendimento das demandas setoriais. Esta forma de gerir não agrada a todos, mas é mais justa. A diferença, como consultor privado, é que hoje não tenho as amarras do Estado para decidir os rumos a serem trabalhados. Consigo me autodeterminar.
Planeta Arroz – O produtor decide pela técnica ou pelo caixa?
Menezes – Esta é uma das falsas dúvidas no setor. A tomada de decisão passa por vários fatores estruturais, de conhecimento das tecnologias aplicadas e, também, pelo caixa da empresa. Se o caixa está curto, o agricultor tem mais riscos, não pode errar na tecnologia. Se pensar só no caixa, o agricultor quebra, e se pensar só na tecnologia, também. É preciso entender que um agricultor semeando arroz em outubro com um conjunto trator/semeadora reformados aplica de forma mais eficiente a tecnologia do que aquele que semeia em dezembro com equipamentos de última geração. Participei de discussão em que produtor argumentava que quem investia em tecnologia era aquele que tinha muito dinheiro. O arrozeiro que tinha sobra de caixa, argumentava que o investimento em tecnologia que o fez alcançar eficiência produtiva e sustentabilidade econômica. É preciso equilíbrio.
Planeta Arroz – Como equilibrar custo de produção, produtividade e riscos sob margens apertadas?
Menezes – Quanto mais difícil a situação econômica da propriedade, mais importante é a produtividade. E isso serve aos demais ramos da agricultura ou ao setor industrial. Momentos difíceis não são para se gastar mais do que se fatura ou semear áreas de risco por excesso ou deficiência hídrica, ou de baixo potencial produtivo. Mas é preciso ter ressalvas às recomendações de diminuir área, pois será compensada no Mercosul. Os investimentos devem ser planejados e realizados se gerarem retornos consistentes ao produtor. Sem a garantia de retorno não dá para gastar mais do que se arrecada.
Planeta Arroz – A Oryza & Soy o coloca, novamente, como protagonista da história do arroz no RS?
Menezes – Quando se cria uma empresa, a gente a quer ser protagonista Mas não ocorre da noite para o dia. Temos na Oryza & Soy a formação e o conhecimento para poder contribuir com o desenvolvimento da orizicultura gaúcha.
Planeta arroz – O que o levou a investir no segmento da genética?
Menezes – Minha formação e experiência, acumuladas em mais 40 anos, assim como da minha equipe, com a Cláudia Lange e o Anderson Vedelago. Creio que somamos expertises que podem gerar ótimos resultados. E percebemos que a maioria das sementes das áreas de grãos cultivadas no Brasil e no mundo tem origem em empresas privadas, cuja oferta e qualidade de material é muito boa. Para a cultura do arroz é uma oportunidade. A OS está trabalhando forte para essa realidade.
Planeta Arroz – As cultivares do mercado têm lacunas a resolver?
Menezes – Não há cultivar perfeita. Umas são mais adaptadas às condições climáticas, de solo e manejo. Novas cultivares têm que aumentar o potencial produtivo, a qualidade de grão e a estabilidade da produção, embarcando também fatores de sanidade. É preciso melhorar a tolerância ao acamamento, pois se a planta produz mais, precisa sustentar mais peso no final do ciclo. É uma característica de nossas cultivares.
“A competição com cultivares consolidadas é técnica, comercial e de confiança”
Planeta Arroz – Como equilibrar alta produtividade e estabilidade em ambientes adversos?
Menezes – O impacto causado pelo estresse sob El Niño, por exemplo, é menor em lavouras com nível tecnológico maior. Quanto menor a tecnologia aplicada, maiores os impactos negativos na produtividade. É provado na evolução da produtividade histórica do RS. Outro dado importante: o impacto negativo dos estresses ambientais é menor nas cultivares de ciclo médio, com maior potencial produtivo. A queda é mais acentuada em variedades de ciclo precoce.
Planeta Arroz – Como as cultivares OS alcançaram 7% de participação no mercado gaúcho?
Menezes – A Oryza & Soy soube trabalhar as demandas setoriais. Não é fácil, mas trabalhamos muito, por muitos anos, e com inteligência. Nossas cultivares, em cada segmento, têm potencial produtivo e qualidade de grão melhores ou iguais às expoentes da lavoura. A estabilidade produtiva é outro ponto positivo. E são mais resistentes ao acamamento. Penso serem valores que os agricultores perceberam nos nossos produtos.
Planeta Arroz – A competição com marcas consolidadas é técnica, comercial ou de confiança?
Menezes – É técnica, comercial e de confiança. Estamos evoluindo nas questões comerciais. Somos pouco experientes.
Planeta Arroz – O sistema Clearfield é protagonista ou disputa espaço com novas estratégias de manejo?
Menezes – O Clearfield é importante ao manejo de plantas daninhas. Mas, agora, deve ser associado a ferramentas como Provisia, rotação de culturas, herbicidas com mecanismos de ação distintos, sucessão com pastos e cultivos de inverno que potencializam a sua relevância. Vejo o futuro do controle do arroz vermelho com otimismo, há tecnologias em desenvolvimento e mais opções do que tínhamos há 20 anos.
Planeta Arroz – As cultivares OS têm potencial para o Mercosul?
Menezes – As instituições públicas não trabalham para exportar genética. Há variedades que podem ser cultivadas no Mercosul pelas condições de solo e clima. Os gaúchos já utilizaram cultivares argentinas como Puitá e Guri. Antes, o El Paso 144, uruguaio. Exemplo de que é possível o intercâmbio. No clima tropical as cultivares do Sul têm limitações como a quebra de resistência a doenças, encurtamento de ciclo e queda no potencial produtivo. Mas, IRGA 424 RI e OS 902 CL são cultivadas em ambientes tropicais com sucesso.
Planeta Arroz – Cite fatores decisivos à sustentabilidade da lavoura nos próximos 10 anos?
Menezes – Dentro da porteira serão fundamentais: produzir mais por unidade de área, com qualidade, e ter estabilidade de produção, visando melhorar as condições de exportação a mercados exigentes em matéria-prima de qualidade.
Planeta Arroz – O produtor que não evolui tecnicamente terá espaço?
Menezes – Serão sustentáveis a médio e longo prazos os agricultores que evoluírem tecnicamente e gastarem menos do que faturam. A história da lavoura é assim, não será diferente no futuro.
Planeta Arroz – Qual o próximo salto de produtividade: genética, manejo ou integração de sistemas?
Menezes – Pelo desenvolvimento de cultivares integradas ao desenvolvimento de manejo, diferente do que ocorreu com Projeto 10 ou do salto produtividade ocorrido nos anos 1980 com as cultivares de porte moderno, onde o aumento produtivo veio da genética oriunda da “revolução verde”. É o que buscamos.
Entrevistas concedidas ao jornalista Cleiton Evandro dos Santos entre os dias 22 de abril e 18 de maio.
