Arroz e soja – Tendências após um 2025 muito difícil

Enquanto o arroz sofre uma derrocada nos preços no mercado gaúcho e brasileiro — com o saco de 50 kg registrando queda média de 51,9% no Rio Grande do Sul (de R$ 116,09 na segunda semana de outubro/24 para R$ 55,79 no fim da primeira quinzena de novembro/25) —, a soja manteve-se praticamente estável no mesmo período, passando de R$ 124,09 para R$ 124,04 por saco.

Todavia, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), enquanto o arroz registrou uma safra cheia no RS em 2024/25 — 8,7 milhões de toneladas, com produtividade média de 9.021 kg/ha, contra 7,2 milhões de toneladas e 7.950 kg/ha no ano anterior —, a soja teve novamente sua safra frustrada. No último ano, a produção gaúcha foi de 16,6 milhões de toneladas (média de 2.342 kg/ha), ante 21,8 milhões de toneladas (média de 3.117 kg/ha) no ano anterior. Aliás, na soja gaúcha, o prejuízo médio na última safra, considerando o custo de produção total médio, foi de R$ 2.108,36/ha, com base no preço médio de comercialização de março/25.

Desde a safra 2019/20, este foi o terceiro ano em que o produtor de soja gaúcho registrou prejuízo líquido. As perspectivas futuras, infelizmente, não são muito positivas em termos de preços, mesmo em caso de safra normal, tanto para o arroz quanto para a soja.

No caso do arroz, a pressão vem da ampla oferta, da demanda interna estável, do ritmo lento das exportações e da retração das cotações internacionais, que se encontram nos menores patamares em 43 meses (cf. FAO).

Esse cenário pressiona as margens esperadas para a próxima temporada e deve levar à redução da área destinada ao arroz no país. Entidades gaúchas chegam a propor que os produtores reduzam em mais de 7% a área semeada com o cereal na futura safra. No mercado internacional, o índice global de preços do arroz beneficiado caiu para 101,4 pontos em agosto/25, 2,03% abaixo de julho e 24,33% inferior a agosto de 2024. Entre 18 países analisados, 16 registraram quedas expressivas, com destaque para Brasil, Argentina e Uruguai.

Portanto, o problema é mundial!

Já no caso da soja, a realidade do mercado condiz com a análise em perspectiva que se tem dos mercados. Essa análise oferece uma visão de longo prazo, confirmando a máxima econômica de que o mercado tende a girar em torno da média histórica. Ou seja, após movimentos de fortes altas ou baixas nas cotações, o mercado procura “buscar” a média. No caso da soja, a média dos últimos 25 anos em Chicago situa-se entre US$ 9,80 e US$ 10,00 por bushel.

Assim, após as disparadas de preço entre 2020 e 2023, provocadas pela pandemia e pela guerra Rússia x Ucrânia — quando o primeiro mês cotado chegou a flertar com seu recorde histórico diário, quase US$ 18,00/bushel —, o mercado iniciou um retorno aos seus patamares médios. A média do ano de 2024 ficou em US$ 11,02/bushel, após US$ 14,16 em 2023 e US$ 15,49 em 2022.

Nos primeiros 10 meses de 2025, a média do primeiro mês em Chicago foi de US$ 10,30/bushel. Ou seja, acomodados os fatores excepcionais do período 2020 a 2023, o mercado passou a “buscar” a média. O mesmo ocorre com os dois outros elementos básicos da formação do preço da soja em reais: o câmbio e os prêmios no país, guardadas as devidas diferenças entre si. Assim, o mercado interno da oleaginosa consolidou uma nova média nos últimos anos, situada entre R$ 110,00 e R$ 125,00/saco — faixa na qual os preços de balcão se encontram atualmente no Rio Grande do Sul.

Dito isso

1) O mercado é volátil e terá sempre acessos de altas e baixas, muitos deles especulativos, criando momentos especiais de comercialização;

2) Os ccustos de produção, por serem formados em estruturas oligopolistas (em que poucas empresas dominam o mercado), tendem a subir ainda mais, mas jamais baixam na mesma proporção que o preço do produto, levando a margem média de ganho do produtor a diminuir, em termos reais, exigindo sempre maior produtividade por hectare para compensar a lacuna (gap);

3) Como a maioria dos produtores não consegue tal incremento, eles acabam realizando fortes endividamentos, os quais provocam inadimplências importantes e, em muitos casos, irreversíveis — especialmente em realidades como a gaúcha, onde o clima, desde 2020, tem geralmente jogado contra o setor primário.


Argemiro Luís Brum

Professor titular junto ao PPGDR (mestrado e doutorado) da UNIJUI, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris (França), coordenador da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA/PPGDR/UNIJUI).

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