Cadê o arroz que estava aqui?

 Cadê o arroz que estava aqui?

Brasileiro come cada vez menos arroz, diz pesquisa

Consumo encolhe no Brasil e desafia setor a buscar saída

Mesmo sendo o alimento mais tradicional da mesa brasileira, o arroz vive um período de consumo em baixa no país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostram uma tendência contínua de queda, causada por mudanças no comportamento alimentar, na renda e na dinâmica de preços. A combinação desses fatores ajuda a explicar por que o produto, historicamente indispensável — junto ao feijão —, passa por retração, acendendo alertas no setor produtivo.

O brasileiro consumia, no início dos anos 2000, cerca de 36 kg per capita ao ano. Hoje, o volume gira entre 24 e 28 kg, conforme estimativas das instituições e da própria Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz).

A queda, segundo especialistas como o chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão, Élcio Guimarães, é estrutural: perpassa gerações, renda, hábitos domésticos e substituições alimentares. No momento, o IBGE conclui a nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2024/25), cujos resultados serão divulgados em 2026.

Na PPOF mais recente, realizada em 2017/18, constatou-se que o Rio Grande do Sul registrava o menor consumo per capita (cerca de 17 kg por habitante/ano), enquanto a região Nordeste concentrava demanda próxima de 36 kg anuais por pessoa. Em pesquisa, a Abiarroz verificou que 74% do arroz consumido no Brasil é branco, 23% parboilizado e 3% integral ou de variedades aromáticas, glutinosas, arbóreas, coloridas ou especiais.

Ao mesmo tempo, o arroz registra oscilações de preço ao longo da cadeia produtiva até o varejo. O consumidor sentiu, nos últimos anos, períodos de forte alta — por choque de oferta, questões climáticas e a pandemia de covid-19 — e, mais recentemente, quedas relevantes, ligadas ao alívio inflacionário da alimentação no domicílio e à supersafra registrada em 2024/25.

SUPEROFERTA

A grande oferta achatou as cotações do arroz em casca no Rio Grande do Sul, passando de R$ 125,00 para menos de R$ 50,00 em algumas regiões. Em Santa Catarina, baixou de R$ 108,00 para R$ 48,00, e em Tocantins e Mato Grosso, de R$ 138,00 para R$ 60–65,00.

O quilo do arroz tipo 1, branco, que chegou a R$ 6,50, dependendo da marca e do market share, caiu ao piso de R$ 1,79. O pacote de cinco quilos das marcas de combate nos atacarejos gaúchos custava R$ 8,89 em 14 de novembro.

Ainda assim, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), os preços do arroz em casca nas praças gaúchas reduziram até 52%. Organismos do consumidor apontaram que o arroz beneficiado recuou menos, entre 28% e 32%. A margem, porém, não está ficando na indústria.

Apesar da turbulência, analistas como Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), estimam que o arroz continuará a ser um produto central para a segurança alimentar brasileira. O diretor do Sindicato da Indústria do Arroz (Sindarroz) no Rio Grande do Sul, Tiago Barata, ressalta que o desafio é compreender as razões da perda de espaço e, como cadeia, reagir em busca da formação de novos consumidores e da manutenção de hábitos alimentares saudáveis.

Retração une renda, hábitos e conveniência

Uma das razões para a queda no consumo de arroz é a mudança no estilo de vida da população urbana. Refeições rápidas, entregues por aplicativos, e a adoção crescente de alimentos prontos ou semiprontos reduziram o preparo doméstico — ambiente em que o arroz reinava soberano.

Outro fator é a concorrência dos chamados substitutos funcionais: massas, batata-inglesa, pão, mandioca, polenta e derivados do milho, que passaram a ocupar espaço maior no prato, especialmente entre famílias jovens. A tendência acompanha uma mudança geracional: quanto mais jovem o consumidor, menor a frequência de consumo do tradicional “arroz com feijão”.

A renda também exerce impacto relevante. Em períodos de aperto econômico, a cesta de compras se adapta. O arroz, mesmo sendo relativamente barato, perdeu competitividade frente a carboidratos de preparo mais simples ou com maior percepção de saciedade. Além disso, quando o preço do produto sobe, o efeito sobre o consumo é imediato.

Preço ao consumidor: ciclos de alta e queda

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a inflação dos alimentos no domicílio apresentou variações intensas nos últimos anos. O arroz integrou, ora, a lista dos vilões, ora a dos responsáveis pelo alívio no orçamento. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), registrou meses de elevação expressiva, em especial devido a eventos climáticos que prejudicaram a oferta. Desde o fim de 2024, entretanto, observa-se queda nos preços da cesta básica.

Isso se deve a safras robustas no país, no Mercado Comum do Sul (Mercosul) e no mundo; ao aumento de estoques; à queda das exportações e à perda da janela de vendas no primeiro semestre de 2025; à maior competição entre indústrias e varejistas; e à substituição no consumo doméstico, que gerou excedentes no mercado.

Tal conjuntura beneficiou a população consumidora, mas trouxe preocupação a produtores e indústrias. A abertura de mercados, intensificada após 2010, ampliou a presença brasileira em cerca de 120 destinos.

Com a queda do consumo interno e o aumento da produção, o setor volta-se cada vez mais para o mercado externo como alternativa para evitar estoques elevados e volatilidade nos preços domésticos.

Indústrias e entidades do setor avaliam que o Brasil precisa consolidar sua competitividade para firmar sua presença internacional. Poucas combinações são tão valorizadas por nutricionistas quanto o clássico “arroz com feijão”, que forma uma proteína completa, nutritiva, equilibrada e de baixo custo. A dupla mantém-se há décadas como base da merenda escolar, contribuindo para reduzir deficiências nutricionais e melhorar a aprendizagem de milhões de crianças.

Especialistas, porém, alertam que a substituição crescente por alimentos ultraprocessados ameaça essa tradição. Por isso, programas de alimentação saudável reforçam a importância de manter o consumo regular da combinação.

Campanhas buscam incentivar o consumo

A Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) e o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) intensificaram, nos últimos anos, ações para frear a queda do consumo interno e reposicionar o arroz como alimento central da dieta brasileira. Diante da concorrência crescente de ultraprocessados e massas de preparo rápido, as entidades passaram a atuar em comunicação, educação alimentar e articulação institucional.

A Abiarroz investe em campanhas nacionais que destacam a qualidade, a segurança e a versatilidade do arroz brasileiro. Vídeos, receitas rápidas, parcerias com influenciadores, ações em redes sociais e participação em programas culinários fazem parte da estratégia. A entidade também marca presença em eventos gastronômicos e feiras, reforçando a imagem do arroz como alimento saudável, acessível e prático. Arroz Combina é o mote das ações, que envolvem vídeos e peças publicitárias com influenciadores nas redes sociais e mídias voltadas ao consumidor final.

O Irga desenvolve campanhas de forte apelo regional, destacando o arroz gaúcho, responsável pela maior parte da produção nacional. Entre as iniciativas estão materiais educativos, oficinas de culinária, ações em escolas, cozinhas comunitárias e eventos como a Semana do Arroz. O instituto também enfatiza a combinação tradicional arroz + feijão e seus benefícios benefícios nutricionais.

Ambas as entidades têm buscado associar o arroz a temas contemporâneos, como saúde, sustentabilidade, vida ativa e gastronomia criativa, além de reforçar atributos como ausência de glúten, baixo teor de gordura e ampla versatilidade culinária.

No campo institucional, a Abiarroz dialoga com órgãos federais para ampliar a presença do arroz em políticas de alimentação, incluindo a merenda escolar. O Irga mantém parcerias com municípios e entidades sociais para fortalecer o consumo entre crianças e adolescentes.

As aações convergem para um objetivo comum: estancar a queda do consumo, revalorizar o arroz e reafirmar seu papel nutricional, cultural e econômico na mesa dos brasileiros.

Por que o consumo caiu?

Principais fatores identificados
– Mudança de hábitos domésticos: menos tempo para cozinhar.
– Juventude consumindo menos arroz: preferência por lanches, massas e ultraprocessados.
– Concorrência com substitutos: pão, batata, mandioca, massa, milho.
– Oscilações de preço: picos desestimulam compra.
– Crescimento dos aplicativos de entrega: refeições prontas pouco incluem  arroz como base.
– Transição nutricional no país: maior presença de proteínas animais e alimentos rápidos.
Fonte: IBGE, Conab e Embrapa.

O que está substituindo o arroz?
– Fast-foods;
– Massas e instantâneos (macarrão, lámen);
– Batata e derivados;
– Pães e torradas;
– Produtos de milho (polenta, canjica, curau);
– Snacks e refeições prontas;
– Comida de aplicativo, onde o arroz representa fração pequena dos pedidos.

As campanhas abordam
– Versatilidade do arroz na culinária.
– Benefícios nutricionais.
– Importância do setor para a economia regional.
– Valorização da qualidade do grão.
– Incentivo ao consumo diário, com receitas e material educativo.
– As entidades destacam que há um trabalho permanente de aproximação  com a nova geração de consumidores, reforçando o arroz como alimento saudável, acessível e essencial.

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